Emoção. Choro. Êxtase.


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O maestro não tinha cabeleireira branca, era muito novo. Não gesticulava freneticamente. Mesmo assim, foi o responsável pelo êxtase musical que minha jovem amiga experimentou pela primeira vez.
O maestro não tinha cabeleireira branca, era muito novo. Não gesticulava freneticamente. Mesmo assim, foi o responsável pelo êxtase musical que minha jovem amiga experimentou pela primeira vez.
Conheci Cláudia - vamos chamá-la assim - em circunstâncias bastante tristes. Não para ela, para mim. Meses antes havia ido a Londres para ajudar nos preparativos da chegada do bebê de minha filha. Fiquei um tempo, desempenhei meu papel de mãe e retomei minha vida aqui. Retornei às pressas, pois apresentava sintomas de depressão pós-parto. Aconselharam-me a ficar a seu lado, mas não em sua casa; hospedar-me tão perto que minha ida dispensasse bagagem e tão longe, que não pudesse ir de chinelas. Consegui um quarto numa casa localizada a dois quarteirões. Dividiria cozinha, banheiros e sala de jantar com outras pessoas que nunca vira antes. Teria meu próprio quarto: guarda-roupas, cômoda, geladeira, cama, móvel de cabeceira, mesa e duas cadeiras. Comprei tapetinho de tear, plantinha, quadro de cortiça para fotos e bilhetes, organizei meus livros, verifiquei se o laptop funcionava, fui ao supermercado e busquei leite, cerveja e água; pendurei minhas roupas. Estabeleci-me, singularizei, defini extravagante e nova circunstância. E comecei uma estranha e temporária fase de vida. Na casa morávamos Cláudia, a filha Bruna (nome fictício), Weber e eu, brasileiros; um galês cor de laranja que eu apelidei Beck - ele tinha certeza de ser tão lindo quanto o Beckham e saía do banheiro equilibrando uma toalha enrolada na cintura; um inglês com cara de poeta e sua namorada ucraniana maravilhosa. Essas eram as pessoas da casinha 98, ressabiados uns com os outros, no início. Saía cedinho e ia para a casa de minha filha, ficava até o genro chegar. Acabado o plantão, voltava para meu quarto. Era maio e escurecia só por volta das vinte, vinte e uma horas. Sozinha caminhava, andava pela redondeza e eventualmente pegava o metrô para ir ao centro ver um filme, as vitrines das lojas ou as pessoas. Uma tarde bateram à minha porta. Era Cláudia. Convidei-a para entrar, sentar. Perguntou-me alguma coisa, respondi. Vi-me no direito de perguntar e ela falou, por minutos seguidos. Que era do Paraná; estava em Londres em busca de vida melhor; não falava inglês; que trabalhava na cozinha de dois restaurantes; que era mãe solteira; que a filha tinha apenas dezessete anos e era essa mesma a diferença de idade entre elas. Professora primária, lá um dia - depois de sofrer muita necessidade e sem ver perspectivas de crescimento - resolvera enfrentar a vida em Londres. Nesse dia decidira, entre outras coisas, que nunca mais usaria calça de coton preto - essas, de ginástica - e camiseta de campanha política pois fora esse o modelito desfilado durante mais de dez anos, de segunda a segunda. Que sofrera horrores e humilhações. Que era feliz agora, apesar da clandestinidade, situação que resolveria dentro em breve. Que tinha muitos sonhos e um era ver a apresentação de uma orquestra, daquelas que tinham um maestro de cabeleira branca esvoaçante, que regia mexendo com os braços e segurava nas mãos “uma varinha”. Não, não identificava os clássicos pelos nomes mas, ao ouvir, reconhecia e cantarolava algumas músicas. Depois que saiu, deixando-me aturdida, pesquisei e vi que no Royal Albert Hall haveria apresentação da Filarmônica de Londres, sob a regência de Yannick Nézet-Séguin apresentando Mendelsshon, Rachmaninov e Dvorák. Chamei-a de volta e mostrei. Topou. Preparou-se dias - vestido, sapatos, meia e casaco, cabelo e unhas. Fomos. Ela excitadíssima. Eu, observando. Ao entrarmos, tremia. Repetia um bordão: “Nossa Senhora, Nossa Senhora!”, andava devagar, olhava para todos os lados, segurava-me o braço, como se fosse cair. Sentou-se. Quando as luzes diminuíram, desencostou-se, veio para a beiradinha da poltrona, agarrou-me a mão: chorava. O maestro não tinha cabeleireira branca, era muito novo. Não gesticulava freneticamente. Mesmo assim, foi o responsável pelo êxtase musical que minha jovem amiga experimentou pela primeira vez. Num reencontro recente revela um novo desejo, que os sonhos continuam: agora quer ver uma ópera! E quer saber se eu vou com ela... <b>SONHO </b> Orquestra Sinfônica de Franca é motivo de quase soberba; desfrutarmos dela é um privilégio; ouvi-la é a realização de sonho coletivo antigo. Apresentações espetaculares, emocionantes mesmo, não somente pela participação dos músicos, talentos nossos, como pela competência do maestro Nazir Bittar. Comovente é observar a expressão de orgulho e emoção da mãe do maestro, durante a performance do filho. <b>ESTACIONAMENTO...</b> ...em fila dupla; de carros comuns em áreas reservadas a veículos coletivos; sob placas indicando proibição de estacionamento e invasão nas calçadas destinadas a pedestres: violações comuns principalmente nos horários de saída das escolas. Mães, pais, tios e avós - infratores habituais, ao ofenderem o direito alheio, mostram-se despreparados para exercer ou ensinar cidadania, que não existe sem respeito às leis. <b>JUSTIFICATIVAS</b> “É só um minutinho!”, para a fila dupla. “Puxa, nem vi. Mas já estou saindo!”, para a invasão da vaga reservada. “A rua é larga! E não estou estacionado, só parado!”, desculpa de quem se encontrava fixo (e com a porta aberta) sob a placa do E cortado. As desculpas são apresentadas sem que se veja o menor sinal de rubor nas faces - jovens e não tão jovens - que apenas exibem uma cara de paisagem e um sorriso, como a pedir conivência. <b>LISTA DE 13...</b> ...coisas que dão prazer: 1. Barulho de folha seca, quando a gente pisa nelas. 2. Roupa limpa no corpo. 3. Barulho de água enchendo a banheira. 4. O friozinho do sorvete na língua. 5. Vento fresco quando está fazendo calor. 6. Subir num lugar alto e olhar para trás. 7. Mel na boca. 8. Cheiro de loja de perfumaria. 9. Bolsa de água quente na cama fria. 10. Som de risada de criança. 11. Uma coisa que a gente sente quando canta. 12. Ganhar flor. 13. Ouvir música que traz recordação. <b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b> <i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i> luciahelena@comerciodafranca.com.br

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