A justificada celeuma em torno da aquisição e distribuição nas escolas de São Paulo do livro de quadrinhos Dez na Área, um na Banheira e Ninguém no Gol revela apenas o prefácio do que se esconde por detrás da verdadeira indústria monopolista do livro didático nacional.
A distribuição de milhões de publicações pelos mais remotos lugares do País é, sem dúvida, grande avanço no tosco aparelho educacional à disposição do jovem brasileiro. Há algumas décadas era apenas sonho de alguns visionários, aqueles que sabem que um país se constrói com homens e livros.
Ressalvadas as temporais e circunstanciais referências a sexo e forma de expressão, o ideal de Monteiro Lobato começou a se delinear a partir da decisão oficial de bancar a edição dos livros e distribuí-los na rede oficial, de Norte a Sul, dos charcos pantaneiros ao oceano, das aldeias às megalópolis.
Milhões de dinheiros foram destinados à gigantesca empreitada. A indústria do livro, sempre frágil, periclitante e na maioria das vezes náufraga irrecuperável nas vagas da ausência de consumidores, percebeu a carta de alforria desse negócio. E soube engrenar as marchas do novo negócio.
Tudo certo desde que, em pouco tempo, com a tolerância e conhecidos desvios burocráticos das licitações em todas as esferas da administração pública, o rendoso negócio da edição de milhões de volumes, nunca antes sonhado pelos editores, se transformasse em núcleos monopolistas devidamente negociados sem maiores escrúpulos didáticos.
Extinguir o Uruguai, substituí-lo por dois paraguais, rechear de palavrões e figuras grotescas um gibi destinado a menos de nove anos de idade, são apenas leves marolas do que ocorre na vida real do ensino oficial, delineado a partir desses livros.
Professores e mesmo alunos mais antenados acabam se divertindo com a costumeira impropriedade dos livros adotados nas mais diversas áreas do conhecimento. Vez ou outra, como no caso da geografia sulamericana e do gibi agora em questão, começa a ser levantado o véu que cobre essa milionária atividade editorial. E curiosamente, ninguém sabe, ninguém viu, que critérios, ou a ausência deles, motivaram a escolha de autores e editores desses e de outros livros didáticos e paradidáticos. Como se processam essas licitações, quem as julga quanto ao conteúdo e propriedade dos trabalhos oferecidos em concorrência pelos megaeditores que dominam esse mercado?
A Promotoria da Cidadania do Ministério Público Estadual instaurou inquérito para investigar o mau uso dos recursos públicos e eventuais atos de impropriedade administrativa na compra do tal gibi e das apostilas de geografia com erros escandalosos no mapa da América do Sul. É fundamental que essa perícia seja levada a termo, mas só isso não basta.
A sociedade, por intermédio de tantas entidades públicas e privadas que se dedicam à educação, está intimada a ir mais além e começar a descortinar o que se esconde atrás desse milionário negócio. Apenas uma pista e modesta contribuição: ouvir autores e pequenos editores que tentaram em vão colocar seus produtos nesse universo. Quantas histórias poderão render tais depoimentos!
Virgínia Pezzolo
Jornalista, advogada e bacharel em Ciências Sociais
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