Dia destes chegou-me ao conhecimento iminente exportação de pares de calçados Sândalo de Franca para a China. A empresa confirmou. Restam apenas detalhes para efetivação do negócio.
Isso não deveria ser de modo algum surpreendente. O que deveria constituir surpresa é ter demorado tanto para uma firma francana abrir aquele mercado. Ano passado, disse nesta coluna que estanhava o fato de tantos empresários francanos terem visitado a China e nenhum deles ter levado amostras de seus calçados, produtos que hoje, pelo design e pela qualidade se igualam aos melhores do mundo. Em comparação com calçados italianos de grandes grifes, oferecem a mesma qualidade e utilizam os mesmos materiais (leigos não notariam nenhuma diferença), por preços que são um terço dos italianos. Ainda assim, garantem ótimo retorno ao fabricante nacional.
A China foi atingida pela recessão do mesmo modo como o resto do mundo, mas continuou crescendo em função do imenso mercado interno e da aplicação da enorme poupança em obras de infraestrutura, direcionando empregos para setores financiados pelas obras públicas. O PIB de dois dígitos está previsto para cair para algo em torno de 6%, mas este valor ainda está muito longe do PIB brasileiro que, talvez, nem atinja 1%!
O jornal O Estado de São Paulo de 3 de maio deste ano publicou, como manchete “China salva as exportações brasileiras”. Com a alta de 61% nas compras, a China desbanca os Estados Unidos do primeiro lugar. Não é animador o fato que 76,6% das exportações brasileiras se componham de quatro produtos - e todos eles commodities -: minério de ferro, soja, celulose e petróleo. Observadores internacionais julgam que o aumento de compras chinesas deve-se ao fato daquele povo decidir por investir em estoques estratégicos, prevenção contra qualquer surpresa que possa vir a reboque da recessão mundial.
O que nos deveria interessar de verdade é "como entrar no mercado chinês", seguindo exemplo da Sândalo, para atingir a crescente classe média daquele país, hoje estimada em 200 milhões de pessoas. Este nicho é diretamente beneficiado pela pujança econômica da última década. Imaginem uma classe média igual a mais do que toda a população brasileira! Acontece hoje na China o mesmo fenômeno que ocorreu no Brasil nos tempos da restrição à importações. A classe dos “novos ricos” chineses está fascinada com mercadorias vindas do Ocidente e está disposta a gastar com luxos, até há pouco tempo desconhecidos ou inatingíveis.
O calçado brasileiro já ganhou maturidade e classe internacional. Numa reportagem deste Comércio, após a Francal do ano passado, deixei opinião minha, dizendo que se alguém colocasse em um par de calçados Sândalo, chapinha metálica dizendo “Made in Italy”, ninguém duvidaria. Reafirmo a opinião. O resultado das vendas é confirmação definitiva.
Este episódio encerra, de novo, a grande lição: "crise = risco + oportunidade". Se vamos ficar sentados esperando o que o governo vai fazer ou ver o que os outros farão para imitá-los correndo, nada acontecerá. A maior parte do empresariado ainda não se deu conta que a parte mais importante da vida da empresa está fora dela. O que acontece lá fora é que vai determinar o futuro. Andar dentro da empresa sim, é importante, mas o essencial é o mercado e esse está lá fora, além do horizonte!
Não é a toa que a gigante americana Procter & Gamble manda todos – eu disse todos – os seus altos executivos substituírem duas vezes por ano, por 15 dias, os vendedores que entram em férias, para ter contato direto com os clientes, saberem de seus desejos e observações e quem sabe, ouvirem reclamações sobre a atuação da firma; mas não podem entrar de salto alto, tipo "eu sou o vice-presidente de marketing", ou coisa semelhante. Apresentam-se como substitutos do Jerry ou do Jack, que esta de férias!
Podem imaginar que visão do mercado trazem dessa experiência? Como enriquecem a vida da empresa? Quantas ideias e sugestões podem nascer destes contatos? Justamente neste momento histórico, quando a descoberta de nichos do mercado pode representar a própria sobrevivência da empresa? O método TBC nunca foi tão necessário de ser aplicado como o é hoje.
Vender calçado para a China? Por que não? Se temos produto de classe mundial porque ter vergonha de oferecer? Muitas vezes não me sinto à vontade quando tenho de avisar sobre assuntos não muito agradáveis, ou fazer previsões pessimistas. Mas agora, quando vejo que aquilo que sugeri como parte da solução para o tsunami que enfrentamos e que ainda não explodiu em toda a sua fúria – exportar "até" para a China – fico feliz em que graças ao arrojo dos empresários francanos, isso se torna realidade.
<b>Zdenek Pracuch</b>
Sapateiro, shoemaker
pracuch@comerciodafranca.com.br
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