Lacrado. Infelizmente...


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Por uma dessas estranhas coincidências estacionei o carro no centro e, ao dar-me conta, estava ao lado do antigo prédio da sede social do clube que foi, no século passado, o cenário de grandes alegrias e grandes tristezas das pessoas da minha geração. Acho que parei onde parei por causa da simultaneidade de situações que minha avó garantia não existir porque tudo faria parte dos desígnios divinos. Era fim de tarde, sol caindo, aquele momento de saudade indefinida no qual a gente procura alguma coisa diferente para fazer, para evitar as bruxas da noite e afugentar as do dia que insistem em permanecer na nossa companhia. No meu caso, fui tomar sorvete. Nutricionistas advertem: sorvete engorda. Mas é bom, é ótimo para rebater melancolia. Desliguei o carro, reconheci o prédio, minha memória se confundiu: estavam lá grades que não existiam. Não estava o luminoso que identificava o local. Estranhei a ausência de música, achei esquisito não ouvir um pistão afinadíssimo executar Moonlight Serenade, não ver moços de paletó e gravata aglomerados na entrada, não sentir o perfume de laquê dos penteados das moças. Foi só um instante impreciso, mas as lembranças vieram feito uma onda gigante. E despertaram um borbotão de sentimentos. Juro que vi! Vi casais entrando de braços dados, elas com estolas de pele, eles com calças azul-marinho ou pretas, cabelo brilhando de creme gosmento. Curtinhos os cabelos. Vi moças rindo nervosamente, talvez antecipando o prazer de um encontro combinado na última sessão do cinema daquele dia. Estavam quase todas de colar de pérolas, talvez legítimas. Havia som de tacos, provocados pelos saltos (cinco e meio) dos sapatos de cetim. Teriam elas intestinos ou estômagos ou as últimas costelas? As cinturas eram pouco mais que o círculo compreendido por mãos fechadas ao redor de uma bola de basquete, com certeza o esporte daqueles moços que observavam escancaradamente as moças que se escondiam atrás dos ombros dos irmãos e primos - falange e escolta vigilante, eficaz e atenta para a segurança e integridade das virgens. Risinhos nervosos pra cá, risinhos nervosos pra lá. Juro que ouvi. Ouvi comentários sobre vestidos em geral, sobre o modelo daquela moça bonita, em quem o melhor partido da cidade estaria interessado; entreouvi o som produzido pela viperina língua daquela tia que ficava invariavelmente sentada no andar de cima do clube, só para ter visão geral de quem estava dançando de rosto colado com quem, quem paquerava quem - geralmente escondido - pois lá do andar superior se via tu-di-nho! Lembrei do castigo que alguns moços impunham às moças quando lhes davam chá de cadeira nos bailes só para punir alguma mais ousada ou simplesmente testar a superioridade masculina que tentava se conservar, mas já sofria algum desequilíbrio. Lembrei dos bons de dança, das `tábuas`, de correr para o banheiro com medo de dizer não aos rapazes e sofrer desforras que aconteciam, que homem era e é solidário com seus semelhantes. Lembrei das anáguas, das minissaias, dos vestidos balão. Das `brincadeiras de domingo`, dos grandes bailes de formatura. Alguém me cutucou e eu saí da letargia. Estava feito boba olhando para o além. E caí na real: o clube está fechado. Portas lacradas. Dizem, oferece perigo para os freqüentadores. Não tem escada disso, escada daquilo, não tem hidrante, não tem saída de incêndio: é um lixo, enfim. (Não entendo como escapamos ilesos diante de tanta insegurança). É um elefante branco plantado no centro da cidade, sem finalidade alguma. O prédio da sede social da AEC Centro não merece este abandono, pensei. Por ter cumprido, de fato, seu papel de cenário; por ter fornecido a atmosfera para que ocorressem comédias e dramas protagonizados por gerações e gerações de jovens merece, pelo menos, ser reaberto (com segurança) e voltar a fazer parte da realidade da vida e do cotidiano da cidade. LIÇÃO O proprietário da loja de óculos ensina ao filho: Depois de teres ajustado os óculos, quando o cliente perguntar o preço, diga: `Dez dólares!`. Faça uma pequena pausa e observe se o cliente se assusta. Se não der mostras de desagrado, diga-lhe: `Pelos aros. As lentes custarão outros dez dólares`. Nessa altura, faça nova pausa, pequena, observando outra vez a cara do cliente. Se o comprador ainda não mostrar insatisfação, acrescente com firmeza: `Cada lente!`. ( J. W. Whitehead, em Open Book. ) RIQUEZA Uma das minhas riquezas é a coleção de Seleções do Reader`s Digest, presente de compadres antigos da Franca do Imperador. A citação acima, de autor desconhecido, autor de uma obra da qual nunca ouvi falar, foi retirada do Tomo I, número 1, edição de fevereiro de 1942, editada em Lisboa. ANJOS E DEMÔNIOS Está sendo exibido o filme Anjos e Demônios, com roteiro adaptado do livro homônimo do mesmo autor de Código da Vinci, Dan Brown, que nasceu com a sina de causar polêmicas e celeumas com a Igreja Católica. Se não nasceu, decidiu que deveria incomodar a Santa Sé com suas idéias e algumas possibilidades nem tão absurdas assim. Quem não tiver medo de excomunhão, deve ver o filme que não trata de pedofilia, este sim, um assunto delicado. TRISTEZA Na ordem natural os mais velhos morrem, os mais novos os substituem. Diante da morte, independente de idade e condições, já é difícil oferecer condolências para quem fica. Quando há inversão desta cadeia, a dor dos familiares atinge nível insuportável e o sofrimento decorrente se torna tão intenso, excessivo e absurdo que só outros que viveram a mesma situação em idênticas condições, podem mensurar. Quando morre um jovem de uma família, de qualquer família, a comunidade inteira lamenta. E compartilha a tristeza. Lúcia Helena Maniglia Brigagão Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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