Oficial de registro civil de Claraval (MG) há 15 anos, Wanessa Cintra não lembra quando foi que nasceu a última criança na cidade. Não que falte bebês no município mineiro. Pelo contrário, existem muitos, mas todos nascidos em Franca. A explicação está no fato da cidade não ter hospital. Com isso, embora morem em Claraval todos são, na verdade, francanos, ou melhor, “falsos francanos”, já que não moram aqui. Na região, além de Claraval, outras cinco cidades passam pela mesma situação. Elas registram em média 180 crianças por ano, mas todas “filhas de Franca”.
De acordo com a lei, independentemente do lugar onde vivam os pais, a naturalidade da criança será a do lugar de seu nascimento e não de registro. Assim, um bebê que nasceu na Santa Casa de Franca e cujos pais morem em Claraval, mesmo que seja registrado naquela cidade, ainda assim será um francano. É esta a realidade das cidades de Restinga, Cristais Paulista, Ribeirão Corrente, Jeriquara e Itirapuã. São José da Bela Vista, Patrocínio Paulista e Pedregulho contam com hospitais e realizam partos nas próprias cidades. Rifaina prefere enviar as gestantes para Pedregulho.
Em Ribeirão Corrente, a escrevente do cartório, Denise Duarte, disse que a cidade guarda histórias curiosas sobre o registro de crianças. Neste ano, foram 11, nenhuma natural do município. Há cerca de seis anos, quando houve a oportunidade da cidade registrar um legítimo ribeirão-correntense, a criança morreu após o parto normal. Em outra situação, o bebê nasceu dentro da ambulância, mas o veículo estava do outro lado da ponte, já em terras francanas. “É comum não registrarmos crianças naturais daqui”, disse Denise que trabalha no cartório da cidade há dez anos.
No cartório de Restinga, o último restinguense nasceu em 2000, depois disso todos os registros são de crianças nascidas em Franca. A oficial do cartório de Jeriquara, Aline Mancini dos Santos, disse que registros de nascimento em seu cartório não são comuns. “A preferência dos pais para o registro é a cidade onde a criança nasceu. No caso de Jeriquara, as gestantes ficam divididas entre ter o filho em Ituverava, Pedregulho e Franca. Nas duas primeiras, a Prefeitura leva até os hospitais e, para Franca, são mais casos particulares”.
Neste ano, das dez crianças registradas na cidade, três nasceram em Franca.
<b>Veja o quadro</b>:
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