Para muitos, a culpa pela ausência de respeito vigente nos dias de hoje fica totalmente por conta da onça. O ditado popular soa até de mau gosto, mas se a felina tivesse comido algumas crianças no dia do parto, ou então devorado as próprias mães, uns vinte anos atrás, estaria completamente resolvido o problema da pouca noção de convivência entre bastante gente.
O desrespeito entre as pessoas começa na família, passa pela vizinhança e acaba chegando à escola. Só não se alastra muito no ambiente profissional, porque o medo de perder o emprego cria uma leve camada de civilidade. Não fosse isso, a barbárie estaria solta e incontrolável na sociedade.
Provavelmente, o motivo dessa avassaladora desobediência esteja na falta de limites. A moderna pedagogia apregoa que criança precisa fazer o que quer para se desenvolver. Guiados por essa máxima, de uns vinte anos para cá, os pais deixaram os filhos fazer o que querem. O resultado aí está. A geração atual acha que pode tudo ou que tudo pode. Nada de contrariedade.
O noticiário policial recente, não só em Franca, mas no Estado todo, mostra que o ambiente escolar está deteriorado. Alunos não chegam no horário de início das aulas e querem entrar na marra. Com a chegada da polícia, resistem e acabam destruindo parte das instalações do prédio. Sabem que isso não dá em nada, não.
Numa outra escola, a inspetora de alunos barra a entrada de uma garota por falta de uniforme. Esta vai para casa. Em vez de voltar uniformizada, reaparece com a mãe e o padrasto. A intenção da semifamília era forçar a entrada. Sem respaldo, partem para a agressão física, logicamente antecipada pela verbal.
As agressões verbais e físicas entre alunos estão sempre aumentando. Não só na escola pública, até a particular sofre com a desinteligência entre colegas e ambas não sabem o que fazer para minorar o problema. Em vista disso, os adolescentes não respeitam normas e agem como bem querem.
A aprendizagem é um processo doloroso. Rachel de Queiroz deixou isso claro em uma entrevista. A autora de O memorial de Maria Moura disse que se espelhou num acontecimento de iniciação profissional, ocorrido com um vizinho de terras e seu filho, para criar dois personagens marcantes.
Pedro Gonzaga era um grande caçador de onças. Seu filho, Pedrinho, sempre demonstrou inclinação e vontade para seguir a mesma carreira. O pai somente passava as instruções do ofício. O menino só pensava em praticar.
Um dia, o rapaz já com 15 anos, o pai recebe a incumbência de matar uma onça que estava provocando pânico nas redondezas. Pedrão e o garoto partem para a caça. No caminho, repete as manhas e artimanhas para abater uma fera. Depois de muito andar, encontram a toca da pintada. O experiente caçador dispõe as armas para o ataque mas nota que o aprendiz se escondeu atrás de uma pedra. Para não perder a dinastia, resolve então ensinar de uma vez por todas. Chama o filho e o empurra para dentro da toca.
Joga as armas perto dele, tampa a entrada com uma enorme pedra e grita: “Só me aparece em casa com o couro da onça!”
Na madrugada do outro dia, o rapaz volta todo machucado e entrega o couro. Sai de casa amaldiçoando o pai e dizendo não voltar mais. Mas volta 10 anos depois, para agradecer. A dura lição o ensinou a respeitar os outros e a não temer nada.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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