Uma vez por semana, dez dentistas de Franca deixam seus consultórios particulares para prestar trabalho voluntário no Hospital do Câncer. Eles passam a manhã no consultório montado na própria instituição para cuidar dos pacientes que lutam contra a doença. Os profissionais trabalham sempre em dupla e realizam cerca de 140 atendimentos por mês. O projeto existe há cinco anos e todos os cuidados são gratuitos.
Os usuários têm direito a fazer tratamentos para cáries, restaurações, extrações e canal. São atendidas crianças e adultos, principalmente vítimas de câncer de pescoço e cabeça. Os pacientes precisam iniciar a radio ou quimioterapia sem problemas bucais. Por isso os dentistas realizam atendimentos preventivos antes que comecem as sessões.
“Durante a radio ou quimio, o nível de glóbulos vermelhos da pessoa reduz e ela fica com a resistência imunológica baixa. Se precisar extrair algum dente, deve fazer isso antes do tratamento porque se fizer depois corre risco de não cicatrizar”, disse o dentista Wellington Ferreira, 42, voluntário do projeto desde o início.
A assistência também é prestada durante o tratamento. Os pacientes fazem bochechos com medicamentos e recebem outros cuidados para aliviar os efeitos colaterais causados pelos tratamentos contra o câncer. É comum os pacientes sofrerem queda na produção da saliva por causa da radio e quimioterapia. Com isso podem ter uma doença chamada xerostomia, que provoca mau hálito e aumento de cáries dentárias.
A diminuição do suco salivar também acarreta a formação de feridas na boca. “Normalmente se formam aftas grandes na língua e nas bochechas que impedem os pacientes de se alimentarem direito, o que pode comprometer mais ainda a imunidade”, disse Wellington.
Para minimizar o problema, os usuários fazem “laser terapia”, que ajuda a cicatrizar as feridas. “O tratamento é paliativo. Muitas vezes, eles vêm ao consultório todos os dias, durante a semana toda para fazer o tratamento”, disse o dentista Júlio César Accari Barboza, idealizador do projeto.
<b>COMO SURGIU</b>
O trabalho voluntário dos dentistas no Hospital do Câncer é desenvolvido há cinco anos. Em 1999, Daniela Barboza, 39, mulher do dentista Júlio César, teve câncer de mama. Depois das dificuldades vividas neste período, ele resolveu fazer um trabalho para ajudar pessoas com câncer. “Nós passamos um período muito complicado, com grandes dificuldades no tratamento. Eu, como profissional, pensei em fazer algo porque o câncer deixa sequelas tanto físicas como emocionais, tanto nas pessoas que têm como nos parentes”.
Júlio César não sabia que projeto desenvolver até se deparar com uma reportagem sobre um curso de odontologia na área de oncologia. Ele se inscreveu e fez o curso, durante seis meses, em São Paulo. Depois de contatos com a diretoria do Hospital do Câncer, conseguiu um espaço para o trabalho na instituição. Convidou dentistas amigos e não parou mais de ajudar. O consultório foi comprado com ajuda. “Na época, um dentista amigo meu tinha falecido e a mulher dele estava vendendo o consultório. Consegui ajuda para comprar”.
Para ele, é um privilégio ser voluntário no hospital. “Isso aqui é uma obra de Deus. Eu fui apenas um canal para juntar as peças e tornar real”, disse Júlio César. Ele e a mulher são voluntários. “ É até mais gratificante para quem faz do que para quem recebe o atendimento”, disse ele, que passa as manhãs de quinta-feira no HC.
O dentista ainda falou do apoio que pode oferecer por já ter vivido o drama de ter alguém com câncer na família. “Como a gente já passou pelo problema, temos o depoimento, uma partilha de vida com os pacientes, damos mais força para essas pessoas”.
Wellington disse que vive momentos difíceis e gratificantes como integrante do projeto. “O que mais machuca a gente é que atendemos um paciente numa semana, na outra e na seguinte ele não está mais aqui e a gente fica sabendo que ele foi a óbito. Mas tem o lado bom que são os pacientes que se curam e voltam aqui para contar para a gente que conseguiram”.
<b>Ouça abaixo a reportagem de Nelise Luques:</b>
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