<p>Um homem voltado à família, simples e trabalhador. Essa é a primeira impressão que o comerciante Carlos José Pereira, 47, dono do Supermercado Pereira, deixa em quem o conhece. Às 6 horas já é possível encontrá-lo abrindo a loja para os fregueses que o esperam para comprar o pão. E lá ele permanece até pouco antes do fechamento, às 20h30. Pereira trabalha cercado pelos familiares e, talvez por isso, seja fácil vê-lo sorrindo. </p>
<p>Gosta do que faz e valoriza sua profissão. E para alavancar seus negócios utiliza duas características pessoais e evidentes: empreendedorismo e criatividade. Foi essa combinação que levou Pereira a começar a trabalhar ainda menino, com apenas 8 anos. Também foi a responsável pela decisão do jovem de deixar a pequena cidade de Carmo do Rio Claro, sozinho, aos 14 anos, para tentar a vida na “cidade grande”, como ele enxergava Franca àquela época, em 1976.</p>
<p><br />E mal chegou, Pereira se atirou ao trabalho, sempre no setor comercial. Diz nunca ter entrado em uma fábrica de sapatos, que já era a principal atividade da cidade. “É coisa de família. Meus avós eram comerciantes. Tinham uma daquelas mercearias de balcão...”, disse Pereira.</p>
<p><br />O trabalho precoce e árduo, porém, acabou afastando Pereira das salas de aula. “Só estudei até a oitava série, mas fiz muitos cursos, principalmente na minha área, o ramo de supermercados”, afirmou o comerciante, que em 1986 começou a trabalhar no extinto Superbox, loja do Grupo Pão de Açúcar, onde permaneceu por dez anos, chegando a ser subgerente. “Foi muito bom. Aprendi muito, mas queria ter um negócio meu”. Foi em 1996, que o Parque do Horto viu Pereira - na época morador do bairro - comprar um pequeno terreno de 120 metros quadrados e construir uma mercearia. “Sempre tive esse sonho. Comecei com muito pouco. </p>
<p>Quando saí do Superbox achei que o dinheiro que eu tinha fosse suficiente para eu montar o meu negócio, mas estava enganado. No começo passei por dificuldades. Tive que vender quase tudo o que eu tinha para comprar mercadorias...”, lembrou, emocionado. Hoje, sua única loja tem 400 metros quadrados e ocupa quase todo o quarteirão onde está instalada. Pereira ganhou notoriedade em Franca quando, já estabelecido, criou formas diferentes de atrair a clientela, como o “BBB do Pereira”, a “Corrida da Melancia” e o “Sucatão do Pereira”, que mexeram com os bairros próximos a seu supermercado.</p>
<p><br />Este ano ele - já muito conhecido no meio - idealizou e conseguiu reunir dezenas de micro e pequenos empresários francanos em uma associação - da qual se tornou presidente - que pretende resolver alguns graves problemas do setor, como a concorrência de hipermercados, a Asfre (Associação de Supermercados de Franca e Região). “Tínhamos que ter uma associação aqui! Agora poderemos formar um clube de compras para negociar com fornecedores e até ter um cartão nosso, próprio da associação. Ganhamos poder de barganha”, afirmou. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Como vai funcionar a Asfre (Associação de Supermercados de Franca e Região)?<br />Carlos José Pereira -</strong> A Asfre foi montada no dia 14 de março para ajudar os proprietários de pequenos supermercados que hoje enfrentam grandes dificuldades para tocar seu negócio. Batendo papo e vendo a dificuldade de cada um, pensei que a gente podia se unir e se organizar em benefício próprio. Mas como? Percebi que tinha que ser através de uma associação. Hoje, existe a Apas (Associação Paulista de Supermercados). Mas ela está lá na capital e Franca para eles nem existe. Pesquisei na internet e descobri que, ao contrário da Apas, a Amis (Associação Mineira de Supermercados) é muito forte. As grandes redes estão com eles. No estado de Minas ela domina. Os projetos deles são arrojados. Então, por que a gente não pode se organizar por aqui e montar nossa própria associação? Foi daí que surgiu a idéia. A gente fez a primeira reunião com 50 proprietários de lojas. E na segunda reunião a gente já conseguiu montar a diretoria. Nossa associação tem tudo para crescer muito porque tem campo. A região é muito grande. A Apas tá lá em São Paulo faz o trabalhinho dela e nem sabe que a gente existe. Temos que ter uma associação aqui. </p>
<p><strong>Comércio - Quantos associados vocês já têm?<br />Pereira -</strong> Começamos com 40 associados. Tem gente até de outras cidades, como Restinga, ligando para pedir informações, querendo saber como participar. Na cidade toda, eu acredito que existam uma média de 200 empresas, entre varejões, mercearias e supermercados. </p>
<p><strong>Comércio - Em Franca, onde estão os associados?<br />Pereira -</strong> Espalhados pelos bairros do Aeroporto, Panorama, Santa Rita, Paulistano e São Luiz. Está diversificado. A idéia é fazer um clube de compras para em seguida criar promoções em conjunto, como uma bandeira única. Seria um encarte, tipo jornal, que teria capacidade de chegar aos consumidores de toda a cidade. Aí, quando a gente soltar as promoções, você que estiver lá no Aeroporto e ver a promoção, vai ter um supermercado da associação perto de onde você mora. Sempre vai ter uma loja nossa perto. E ninguém vai precisar cruzar a cidade para aproveitar as ofertas. Não seria bom? </p>
<p><strong>Comércio - A associação abrange só os pequenos supermercados?<br />Pereira -</strong> Não. Estamos abertos a todos. Não fazemos distinção nenhuma. Hoje temos associados de pequeno e médio porte. Tem gente com quatro lojas, que consideramos grande, e está na associação. Acreditando na gente. Isso significa muito para nós. E há também os supermercados de bairro mesmo. Gente de mercearia pequenininha que procurou a associação e mostrou a dificuldade que encontra. Para você ver a importância da associação. </p>
<p><strong>Comércio - Qual foi a principal dificuldade apresentada por eles e que teria motivado a formação da associação?<br />Pereira -</strong> Essa é fácil! A principal dificuldade é na hora da negociação com fornecedores para a compra. Hoje as grandes indústrias impõem limites mínimos para determinadas quantidades para venda, mesmo para o pequeno comprador, e muitas vezes ele não tem poder aquisitivo suficiente para comprar nem o mínimo. Vou dar um exemplo: você decide comprar determinado produto e vai até a indústria que o produz para conseguir comprar mais barato. Chegando lá, você descobre que não pode comprar menos de mil reais daquele produto. Ora, em um supermercado há produtos que têm giro maior, que a gente vende mais rápido. Mas há também os que giram pouco. Então, se você comprar mil reais daquele produto e ele não girar rápido, ficará parado na prateleira. O pequeno não aguenta. Assim, esse tipo de compra se torna inviável para ele. Agora, através da associação, se a gente se reunir e negociar com essa indústria, poderemos ter condições de comprar grandes quantidades e dessa forma conseguir um preço melhor. Porque quando você compra dez caixas é um preço, mas quando você compra mil é outro. Então, nosso maior objetivo é nos organizar para futuramente, através da associação, montarmos um clube de compras para podermos negociar diretamente com os fornecedores. </p>
<p><strong>Comércio - E isso é possível?<br />Pereira -</strong> Por enquanto isso é só uma idéia, mas eu senti na reunião que é isso o que os comerciantes mais querem. Mas eu disse para eles que é preciso ter calma. Primeiro a gente tem que dar início à associação, se organizar e firmar parcerias com fornecedores e financeiras de cartões de crédito. Aliás, o cartão próprio da loja é outro benefício muito importante que poderemos trazer através da associação. Poucos têm. Há uma grande dificuldade entre os pequenos em contratar uma financeira para fazer isso. A idéia é que tenhamos um cartão que valha para todas as lojas, o que também baixaria nossos custos. Se você faz dois, três mil cartões, ou seja, uma grande quantidade, você consegue negociar melhor. A financeira normalmente exige um número mínimo de cartões para os supermercados e torna isso um negócio inviável. </p>
<p><strong>Comércio - Você conhece exemplos bem sucedidos de associações como a sua?<br />Pereira -</strong> Existe uma associação em Franca (Afrebras - Associação dos Fabricantes de Refrigerantes do Brasil - cujo vice-presidente é Antônio Carlos Franchini Filho, mais conhecido como Kakalo, diretor da Franchini Indústria e Comércio Ltda, que produtor dos refrigerantes Fors) que conseguiu reduzir o valor do IPI (Imposto Sobre Produtos Industrializados) cobrado em cima de seus produtos. Era cobrado R$ 1,50 por fardo de refrigerante. Não importava qual era o valor do fardo. Então as empresas menores, que vendiam refrigerantes por um preço mais em conta, pagavam o mesmo tanto que as grandes. Não era justo. E eles conseguiram reverter isso através de uma briga judicial. Agora, o valor do IPI é cobrado por porcentagem. Grandes e pequenos pagam proporcionalmente. Um fabricante sozinho não ia conseguir isso nunca. Esse é um bom exemplo. Hoje nós não temos um representante legal. Temos o Sindicato do Comércio Varejista, mas como o nome já diz, ele abrange todo tipo de comércio: loja de roupas, materiais de construção, etc. É um sindicato. Lá eles só defendem os funcionários do comércio. Não têm nada a ver com o que queremos para nossa associação. </p>
<p><strong>Comércio - Quais são os objetivos da associação para o futuro?<br />Pereira -</strong> Temos que começar a fazer as coisas em etapas. Não podemos fazer tudo de uma vez. A idéia é fechar parcerias com fornecedores e com o Sebrae. Vamos pedir mais cursos e palestras para treinamento de funcionários. Hoje, a gente tem dificuldade também para encontrar profissionais qualificados. Principalmente açougueiros e padeiros. Isso porque, com a vinda de grandes redes para Franca nos últimos anos, esses profissionais foram muito procurados. A cidade de repente foi invadida. Todos os supermercados existentes no Brasil parece que decidiram abrir uma loja em Franca e está vindo mais ainda! </p>
<p><strong>Comércio - Por que você foi eleito presidente?<br />Pereira -</strong> Boa pergunta... (risos). Quando a gente teve a ideia de formar a associação, eu fui uma das pessoas que correram atrás da documentação, busquei ajuda, etc. Eu e o Márcio Helomar, do Supermercado Panorama, fomos os que encabeçamos o negócio. Um dia reunimos os associados e dissemos que precisava ser formada uma diretoria, mas que não éramos candidatos. Passei o pepino para eles. Perguntamos para todo mundo para saber quem se candidatava. Só que é o seguinte: o pessoal quer benefício, mas ninguém quer pegar a responsabilidade. Ninguém se candidatou. E aí, como eu estava à frente de tudo, fui escolhido por aclamação e tive que assumir. </p>
<p><strong>Comércio - E o consumidor como fica nessa história?<br />Pereira -</strong> Ele será outro grande beneficiado. Negociando com o fornecedor a gente vai conseguir melhores preços que serão repassados ao consumidor. Hoje, temos atravessadores e queremos justamente acabar com isso. Comprar direto da indústria e negociar em grandes quantidades. </p>
<p><strong>Comércio - Você é conhecido por suas promoções inovadoras, como o “BBB do Pereira”, a “Corrida da Melancia” e o “Sucatão do Pereira”. Há alguma coisa planejada para este ano?<br />Pereira -</strong> Agora o meu objetivo é fazer esta associação dar certo. Tenho que me dedicar muito a isso. Mas o pessoal me cobra muito, querendo saber se estou planejando alguma coisa. Fico feliz de saber que o que fizemos deu tão certo. Uma vez eu estava em Orlândia e quando eu me identifiquei a pessoa lembrou: “Ah... Você é aquele que fez aquela promoção maluca!” (risos). </p>
<p><strong>Comércio - Você pensa em levar esse tipo de experiência para a associação também?<br />Pereira -</strong> Sim (entusiasmado). Isso sim a gente pretende fazer, mas vamos trabalhar principalmente em cima de datas promocionais como Dia dos Pais, das Mães, das Crianças e Natal e Ano Novo. Mas temos que fazer uma coisa diferente. Não será uma promoção qualquer. Se eu sozinho consegui fazer uma coisa que chamou a atenção de toda a cidade, eu acho que através da associação, unindo forças, a gente vai conseguir mais ainda. Vai ser bom para todo mundo.</p>
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