Experimente caminhar pelas ruas irregulares cobertas de grandes pedras em Tiradentes (MG). Do nada, surge uma Capela dos Passos, fechada durante o ano todo e aberta durante a Semana Santa para a procissão dos católicos na encenação da via sacra de Jesus. O silêncio é reinante já no começo da noite, mas pode ser rompido por um algum grupo de moradores ou turistas paulistas, cariocas, alemães, franceses.
Iluminada por lampiões, o Centro de Tiradentes não possui fiação exposta, o que realça ainda mais seu aspecto ancestral. Desça vielas, sente nas muretas de pedra por onde passaram vultos da nossa história. Fique em silêncio alguns minutos naquelas ruas escuras (mas seguras), e depois me diga se por alguns instantes quase não foi possível ouvir o barulho ou ver carroças passando com os casais da corte. Mergulhe na história e imagine o trote de cavalos das tropas imperiais, o murmurinho de escravos, o desfile das mulheres com seus longos vestidos.
Ao visitar o chafariz de São José das Botas, símbolo da autoridade portuguesa no Brasil, uma construção de 1749 que servia de ponto de abastecimento de água para a população, é quase sensorial a vista que se tem do bebedouro para cavalos de um lado, das bicas para os moradores ao centro e dos tanques para as escravas lavarem as roupas de seus senhores na parte de trás. A água ainda corre por galerias e dutos construídos no início do século 18.
As sensações são as mais variadas possíveis e elas, como vão surgindo, vão se misturando às lendas que alimentam a imaginação dos visitantes e fazem a alegria dos contadores de histórias.
Vá em direção à Praça do Alferes, onde uma estátua de Tiradentes em seu uniforme militar está posta. Lá os cachorros latem para os moradores, mas não para os turistas. Não pergunte como fazem a distinção entre um e outro.
No Centro da cidade, o visitante passará pela ponte sobre o Rio das Mortes, que, no auge da busca pelo ouro, viu eclodir a Guerra dos Emboabas. Se você fugiu da escola nessa aula, saiba que foi o confronto entre paulistas que trabalhavam nas minas e os estrangeiros (emboabas), que chegavam aos montes para disputar o lugar.
Depois de seguidos conflitos, os paulistas aceitaram o pedido de um armistício feito pelos estrangeiros e marcaram um local para selar a paz. Na beirada do Rio das Mortes, num lugar que ficou conhecido como Capão da Traição, a paulistada toda foi morta, fazendo com que o leito do rio fosse tingido de vermelho.
Lembra-se do Chafariz de São José das Botas? Pois bem. A principal lenda de Tiradentes está ligada ao lugar onde uma imagem do santo, grande e pesada, é guardada por um tampo de vidro, na parte mais alta da construção. “A imagem pertencia à igreja de Santo Antônio, mas toda vez que davam pela falta do São José das Botas podiam procurar por ele no alto do chafariz. Até que um dia disseram que se ele queria ficar ali, que ficasse. E ele nunca mais voltou para a igreja”, disse a guia Vânia Oberdá.
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