A crise financeira que nos tem mostrado a frágil realidade da economia global escancarou, também, outra realidade que andava escondida: o preconceito racial e cultural.
Mas, nada de novo. Apesar de todo o desenvolvimento econômico e tecnológico, de toda a padronização cultural no lado ocidental do planeta, do aumento das relações comerciais e do trânsito cada vez maior entre os povos do mundo, seria hipocrisia pensar que todo e qualquer preconceito racial e/ou cultural seria extinto.
Prova desse atraso humano é a porcentagem de trabalhadores estrangeiros desempregados nos países europeus. Segundo a OIT (Organização Interncional do Trabalho), são 24 dos 52 milhões que perderam o emprego em 2009.
Os países que cresceram graças à mão de obra estrangeira são hoje os primeiros a elaborar leis protecionistas. São cerca de 200 milhões de trabalhadores vítimas desse sentimento excludente. Só em 2009, várias ações foram efetivadas em países do primeiro mundo coibindo a presença e o trabalho de estrangeiros.
Os Estados Unidos aprovaram lei que restringe a possibilidade de contratação de trabalhadores estrangeiros qualificados por parte das empresas que estão sendo ajudadas financeiramente pelo governo Obama. Na Inglaterra há protestos, quase diários, contra empresas inglesas que têm trabalhadores estrangeiros em seus quadros. Até na Irlanda, país liberal, há movimentação no mesmo sentido.
É uma enorme contradição no mundo globalizado. Nós estamos, como já afirmei anteriormente, voltando ao tempo da formação de aldeias, ou seja, cada país tende a se fechar em ações de protecionismo xenófobo e perigoso. A movimentação de trabalhadores pelo mundo é a base do intercâmbio cultural.
A troca de experiências enriquece as relações humanas. Nem é preciso lembrar que países como os Estados Unidos cresceram tecnologicamente graças aos cérebros estrangeiros que para lá imigraram. Estatísticas apontam que mais da metade das empresas de TI, sediadas no Vale do Silício norte americano, foram fundadas por gente de outra nacionalidade.
Assim, em especulação futurista, podemos imaginar um mundo se reestruturando em aldeias regionais, mas na perigosa possibilidade do protecionismo econômico e da exacerbação das diferenças culturais e raciais, poderemos ser levados a um retrocesso de convívio mundial. Obviamente que isso depende do tempo que ainda se gastará para debelar a crise e seus efeitos.
Estudiosos, por outro lado, julgam que posturas discriminatórias poderão gerar fluxo contrário de cérebros de volta a seus países de origem, democratizando o saber e a possibilidade de domínio tecnológico, que pode redistribuir também o mapa do poder mundial, com riscos para a paz.
Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário
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