Quando foi anunciada a chegada do primeiro bebê da terceira geração na família, entrei em parafuso. Quatro filhos, três deles comprometidos. Era a vida seguindo seu curso natural, era o crescer e multiplicar.
Não seria a primeira avó da família, mas seria a primeira entre as amigas cujos maridos acharam esquisito e brincavam dizendo que doravante o meu teria a desagradável incumbência de dormir com uma avó. (Coitados, esqueceram da história do Chapeuzinho Vermelho, da Vovó e do Lobo Mau...)
Acompanhava o crescimento da barriga da nora, como se ela fosse uma televisão. A tela reproduzia belas e crescentes imagens, mas não revelava a natureza do seu interior. Ficava imaginando: seria uma menina? Um menino? Tinha uma filha apenas, não escondia a vontade de viver cercada por meninas. Mas um menino seria bem vindo - seria o quarto varão em linha direta a partir do meu sogro. Especulei o tempo todo: os jovens pais decidiram acompanhar o crescimento do bebê através das modernas aparelhagens, mas entendiam que o sexo era informação secundária e deveria ser uma surpresa a ser revelada apenas na hora do nascimento.
Do meu lado, idealizava que seria uma avó maravilhosa. Julgava ter a obrigação de superar os atributos das minhas. Sonhava fundir as qualidades delas, quiçá superá-las. Maximizava ainda mais a já imensa responsabilidade da nova classificação social. Os filhos, igualmente, tiveram duas avós fantásticas, absolutamente perfeitas, pensava. A fusão de todas as avós era o resultado mínimo a ser alcançado, ou modelo para me espelhar.
Ficava horas conjeturando sobre meus novos direitos, privilégios, obrigações, limitações. Mas a vida é diferente do que sugerem os sonhos atrapalhados de uma mulher de imaginação fértil. Num dia 28 de abril nascia uma menina que dividiu minha vida em A.L. e D.L. Nasceu Luísa, nome de belíssima música, aquela que além de inaugurar uma nova fase na linha da minha existência, veio puxando uma corrente formada por outras três meninas e um menino.
Não. Não me tornei a avó que sonhara. Não faço nada das belezas que me ensinaram as antecessoras mas jogo bugalho, mico preto (e perco todas), ensino a assoviar, arremessar sementes pela boca à distância, subo em árvores, levo e trago nas impossibilidades dos pais, conto histórias de primeira mão, dou sorvete, balas ardidas, faço comidas diferentes, deixo brincar no computador, não permito que sofram com desejo frustrado, canto músicas engraçadas e ainda vou aprender a desenhar. E andar de bicicleta.
Ela? Luísa? É responsável por passagens cômicas, histórias que a gente conta nas rodas de amigos. Tem aquela do plural lógico: “olha, vó, a exposição agora é só pra pais e mães, você não pode ir, mas quando for para ‘vôzes e vózes’ eu te aviso, tá?”. Tem a outra, clássica, quando me contava sobre dinossauros: “Vó, você não precisa ter medo. Os dinossauros desapareceram, não existem mais. Morreram há muito, muito, muito tempo... Vó, quando você era menina tinha dinossauro?”.
Tem a da fofoca, interrompida a cada puxada de Coca-Cola no canudinho de refresco: “Vó (slup), a Olívia (slup) disse assim (slup) que você (slup) e a vó Dedé (slup) são horrorosas!”. Ela testa minha resistência cardíaca ao reconhecer-me ao telefone, pronunciando manso, cantado, pausado e alegremente um “Oooooiiiii, vó!”...
Se neto é melhor que filho? É diferente, respondeu-me a amiga, quando recém-entrada na categoria. Concordei com ela, mas filho é seu, neto não é. Para chegar no filho é linha direta, para chegar no neto você tem que vencer barreira. Filho você fez. Neto você viu fazer. Agora, é muito difícil explicar o que significa ver um filho segurando seu próprio filho. Ou uma filha dando à luz. Do ponto de vista biológico é simples. Do filosófico, nem tanto. Do emocional, nem se fala. “Você já é avó de uma menina de 8 anos!” disse meu filho pra me assustar (talvez) quando o cumprimentei pelo aniversário da filha. Não fiz caso. Assustoso é saber que meu filho já tem uma filha de 8 anos, pensei.
BODY WORLDS
Gunther von Hagens é polêmico anatomista e artista alemão, inventor da técnica que preserva tecidos humanos, a plastinação. Desde a apresentação da primeira exposição em 1977, levantou problemas de ordem moral, ética, religiosa e legal, pois manipula corpos doados por vontade da pessoa em vida. Impressionante: é a avaliação. Depois de “perseguir” durante anos, tive o privilégio de conhecer seu trabalho.
NOME E SOBRENOME
Mulheres que se casaram antes da Lei do Divórcio eram obrigadas a assinar o nome do marido. O-bri-ga-das. Sem escolha. Fui uma delas. Abdiquei do sobrenome materno na ocasião. Arrependida, pedi sua reincorporação, pois incomodava-me mais deixar o antigo que usar um outro, mesmo compulsoriamente. Deferida a ação, ainda carrego (e me orgulho) do sobrenome de casamento porém, suprema redenção, depois de décadas voltei a ser filha da mãe. Da minha mãe.
MATRIOSHKA
É o nome (no singular) das bonecas russas que se encaixam uma dentro da outra, da maior - a do exterior -, até a menor, única que não é oca, numa sucessão que varia em quantidade. O mais comum é serem quatro bonequinhas. Lembrei-me delas ao pensar nas netas, minha Matrioshka. Variam de tamanho, mas têm igual importância faltou uma, a série perde o encaixe perfeito. E cada uma, dentro de suas singularidades, conta uma história diferente, de idêntica importância na vida da avó.
LONDRES 2012
A animação toma conta da Secretaria de Esportes de Franca quando preparava a cidade para receber participantes dos Jogos Regionais ou Abertos do Interior, ou ainda, de campeonatos de basquete. Idêntica excitação toma conta de Londres, que se prepara para sediar as Olimpíadas de 2012. O que prova que, em macro ou micro eventos, o esporte tem enorme poder de mobilização. As construções têm ritmo acelerado e já circula na Internet um filme promocional cujo link é http://mariag.multiply.com/video/item/37, chamado This is London Sport At Heart , no qual personalidades inglesas... Não. Não vou adiantar nada. Acesse e veja.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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