Som do inferno


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O Paraíba é um bom amigo mas acontece que está ficando meio intolerante. Para se ter uma ideia o arretado anda implicando com os motoqueiros da cidade, ou mais especificamente com os escapamentos barulhentos das motocas. Sua indisposição com a máquina de duas rodas há tempos não vai bem. Segundo ele, tudo começou com seu vizinho que, aproveitando a oportunidade das facilidades oferecidas para adquirir motocicleta com longos prazos e suaves prestações para pagar, furtou-lhe a paz. A perturbação do sossego do Paraíba começa em torno das seis da manhã, quando o vizinho liga o “cavalo de aço” e o deixa funcionando por uns dez minutos, para aquecer. Por volta do meio-dia, ao se sentar para o momento sagrado de almoço em família, ouve ao longe, o inferno se aproximando, cada vez mais perto o apocalipse. O tormento não para ao anoitecer. Disse o arretado que a coisa piora ao cair das trevas, pois é quando outros motoqueiros comungam da mesma prática de arrancamento de miolos dos escapes, se agrupam e competem em saber qual das endiabradas faz mais barulho. Como em reunião de demônios surgidos do inferno, a balbúrdia acontece em meio a grunhidos e vivas comemorativos. Para o Paraíba, falta somente fogo e cheiro de enxofre, mas ele acha que logo haverá isso também. Após conhecer o sofrimento do amigo em sua passagem pela terra numa era de avanços tecnológicos pós-invenção da roda; espécie de “expiação” após ter descoberto nos escapamentos de motocicletas seu maior algoz, conduzi-me a prestar atenção naquelas motos que vão e que vem desatinadas sob o asfalto liso, novo e gostoso que nosso prefeito fez com o dinheiro que a Sabesp agora já está cobrando de nós. Pesquisando, aprendi que os “escapes” têm a função de eliminar os gases tóxicos produzidos pelo combustível emitindo a menor poluição possível. Aprendi ainda, que existe um dispositivo no interior do escapamento de nome “abafador” que é o responsável em regular a emissão do ruído procedente do motor. Ora, os estudos estão aí para atestar sobre a importância da peça. Se não fosse assim, os engenheiros que a projetaram a teriam feito diferente. O Paraíba, se consultado fosse, certamente mudaria e daria sua sugestão à criação de dispositivo tubular de silicone reforçado, em espiral e com duas pontas, que substituiria o tradicional escapamento que se conecta ao motor... Uma das pontas, segundo ele, ficaria conectada na saída do motor. A outra, seria imprópria eu dizer aqui onde ele diz que ficaria... engatada? Diante do comportamento de indivíduos que insistem em retirar o famoso “miolo” do escapamento, libertando (segundo o Paraíba) o som do inferno; meto-me a supor sobre as motivações que levam alguns a tal prática: frustração profissional? Amorosa? Financeira? Carência? Vocação para a estupidez? O que não faltam são suposições para a etiquetagem desses rebeldes egoístas, poluidores do sossego alheio. Schopenhauer, filósofo alemão do século XIX, dizia que “a soma de barulho que uma pessoa pode suportar está na razão inversa de sua capacidade mental”. Ricardo Gallo Veríssimo Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e deste jornal

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