Em tempos de crises institucionais, “corruptocracia”, escândalos e voos de parentes de parlamentares (ou “para lamentar”), pagos pelo contribuinte, briga de rua na mais alta Corte de Justiça do País, desmandos da Polícia Federal no Norte, entre outros, nada mais “salutar” e relaxante que uma gripe suína vinda do México e de um linfoma detectado numa candidata a candidata.
Tudo isso distrai, comove, causa pânico e os chefões do poder, tomam fôlego, podem respirar. O mais grave de tudo é que a doença da ministra está sendo usada pelo presidente como propaganda política. Segunda-feira última, em Manaus, Lula não falou de outra coisa a não ser da doença da ministra.
Inclusive, usou o palanque para explorar o frágil sistema emocional da população para, como “líder-messiânico-religioso”, erguer as mãos e convocar a todos os presentes que orassem por ela. Isso é terrível. Penso que ela, como ser humano que passa por incertezas e pelo desconforto de portar uma doença grave, por si só, não autorizaria esse tipo de jogo político usado como meio de marketing por parte de quem quer que seja.
Estranhamente temos no poder um presidente especialista em tudo. A começar por Economia. Quando os bancos americanos começaram a quebrar e a Bovespa a operar em baixa, ele disse que a crise não nos afetaria, que estávamos imunes. Agora, ataca de oncologista dizendo que a ministra “não tem nada” e até prescreve que ela deve continuar trabalhando normalmente.
Já agora, temos nele um especialista em infectologia. Acaba de dizer que a gripe suína não chegará ao Brasil. Ora, não temos mais um presidente, mas um profeta, um messias que com suas palavras mágicas afasta do povo brasileiro linfomas, gripes mortais, pestes, crises econômicas, tudo.
Só não consegue afastar e imunizar a população contra bandidos togados, de deputados que recebem R$ 108 mil reais por mês, fora as “propinas de gabinete”. Não pode nos curar de nossas mazelas sociais, do desmantelamento da família, do terror, da bandidagem praticada pelo MST (Movimento Social “Terrorista”), da perda do direito constitucional à propriedade, da falta de médicos para atender a população carente, da falta de remédios nas farmácias públicas, das esmolas mensais oferecidas por ele, pagas por todos nós.
Somos imunes, sim, ao questionamento, à indignação, ao sentimento de aviltamento de nossas almas; vacinados contra a coragem de enfrentar um regime de opressão que se mascara de “democracia” há mais de vinte anos. Democracia não existe, nunca existiu. Nem na Grécia, seu berço, muito menos neste País, onde uma pessoa pobre necessita de remédio que custa menos de cem reais e o Estado não fornece.
Apropria-se e usa seu aparato para desencorajar os necessitados de solicitar o que é de direito. Destrói o Judiciário só para garantir em face da opinião pública (se é que ela existe) de que só o Executivo funciona. O maior linfoma – e esse é incurável – , encontra-se nos Três Poderes. Esse não há rádio nem quimioterapia que o possa debelar. O câncer mais perigoso está instalado no organismo político brasileiro, os “vendilhões” do templo, os entreguistas.
Nadir Ap. Cabral Bernardino
Advogada, formada pela FDF, pós-graduada em Política e Estratégia e Direito Ambiental
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