O sapateiro AAT, 35, enfrentou a dependência das drogas durante 15 anos de sua vida. Após se tratar numa fazenda de reabilitação, permaneceu sóbrio por quatro anos, mas teve uma recaída e está se tratando novamente. Em meados de 2008, tinha a família para cuidar, estava sem emprego e com problemas financeiros. Encontrou nas drogas um refúgio para as dificuldades que estava vivendo.
Em meio à turbulência da crise mundial e desemprego em massa, muitas pessoas seguem o caminho de AAT e recorrem às drogas e ao álcool para suportar esses entraves. Em Franca, as casas de recuperação sentem o reflexo desse comportamento. A procura pelo atendimento chegou a dobrar no primeiro trimestre deste ano. Para se ter ideia, só em dezembro, segundo o Caged (Cadastro Geral de Emprego e Desemprego), 11 mil trabalhadores ficaram sem emprego na cidade.
No ano passado, na fazenda DCNOVI (Desafio Cristão Nova Vida), a coordenação atendia cinco dependentes por semana. Em 2009, a média passou para dez. Relton Cruz, 55, coordenador da entidade, se surpreendeu com o aumento. Há mais de 20 anos na área, disse que a busca por tratamento também está atrelada à crise mundial. “O desemprego incentiva o consumo. Às vezes, a pessoa enfrenta problema financeiro e acha que entrando nas drogas irá resolver, mas é um engano”.
Outro local a registrar mudança expressiva nas estatísticas de atendimento em 2009 foi o Caps (Centro de Atenção Psicossocial). Segundo a Secretaria de Saúde, a unidade de Franca atendeu 157 usuários de drogas de janeiro a março de 2009 contra cem pacientes no mesmo período de 2008, um aumento de 57%. Um dos meses mais críticos foi o de fevereiro, quando o atendimento mais que dobrou. No ano passado, haviam sido atendidas 25 pessoas nesse mês e, em 2009, foram 60 dependentes.
Como coordenador do DCNOVI, o psiquiatra Carlos Alberto Baptista, do Hospital Allan Kardec, o qual também registrou maior procura por internação de dependentes desde o início do ano, disse que a piora da situação socioeconômica induz ao maior consumo de drogas. “Álcool, cocaína, maconha e cigarro alteram o grau de consciência da pessoa. Às vezes, ela está diante de uma realidade social difícil, como perda de emprego, então consome as drogas para alterar a percepção da realidade”.
O Hospital Allan Kardec não informou as estatísticas de atendimento, mas o psiquiatra comentou o perfil dos usuários. Segundo ele, o alcoolismo atinge mais homens entre os 25 e 40 anos. Já os viciados em drogas são mais jovens, têm de 18 a 30 anos e normalmente consomem maconha e cocaína. “Mais mulheres têm se envolvido com drogas e álcool. O acesso é muito fácil, especialmente ao álcool, que é barato e vendido em todos os lugares”.
A procura pela Amafem (Associação Mão Amiga de Amparo Feminino), única entidade que atende mulheres dependentes na região, confirma a percepção do psiquiatra. Até sexta-feira, 74 pessoas estavam na lista de espera. Em oito anos, a casa recebeu 1.550 pedidos de internação. O aumento é percebido pela diretoria. “O consumo e a busca por ajuda pelas mulheres, principalmente as que têm de 20 a 30 anos, cresceram sim”, disse o orientador geral Maurício Maniglia, que acredita que as pessoas ficam mais vulneráveis com a crise e o desemprego. “Quando deprimidas e desesperadas, encontram refúgio nas drogas”.
<b>ALERTA</b>
O psiquiatra Carlos Baptista alerta para os perigos do consumo de drogas. O vício pode resultar em perda de memória, infarto, derrame, câncer e até matar. O músico AC, 43, conhece bem os riscos do vício. Durante 18 anos viveu dependente de álcool. Só procurou ajuda aos 38 depois de perder emprego, a família e virar morador de rua. No início deste ano, AC teve uma recaída, mas logo procurou tratamento. Está internado no DCNOVI desde janeiro. “O vício é uma doença. O dependente crê que terá sempre um autocontrole e não tem”.
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