Foi uma noite dessas para fechar os olhos e viajar no tempo. Ainda que o som e o lugar não fossem dos melhores, ou o grupo e seu nome não fossem mais os mesmos, o espírito, a história, a loucura e o legado de uma das maiores e principais bandas de rock da história estavam todos lá ao alcance das mãos. E deixando o marketing e as ações judiciais movidas nos últimos 30 anos de lado, vamos tratar da tal banda como nada mais nada menos que The Doors. Simples assim.
Sob a denominação de Riders on the Storm, uma das muitas de suas canções mais tocadas, Ray Manzarek (teclados) e Robby Krieger (guitarra), os dois únicos remanescentes da formação original dos Doors, fizeram um show singular no Centro de Eventos Taiwan, em Ribeirão Preto, com duas horas e 20 minutos de duração, em que as mais de 3 mil pessoas cantaram todas as músicas, letra por letra, do começo ao fim.
Os dois senhores em questão (ambos têm mais de 70 anos) subiram ao palco pouco depois da meia-noite da última terça e só saíram de lá após dois pedidos do público para que voltassem, já quase 2h30 da madrugada. Manzarek, considerado o maior tecladista do rock que já existiu, Krieger, o baterista Ty Dennis e o baixista Phil Chen desfilaram competência e simpatia com o público, sem a pieguice de querer falar português, descontando o inevitável “obrigado”.
Mas se havia expectativa sobre Manzarek, Krieger, Barbera e Dennis ela não chegava nem aos pés do ponto de interrogação chamado Brett Scallions. A dúvida sobre o novo vocalista era visível no semblante e nos comentários do público.
Não que o rapaz seja ruim; não se trata disso. É que cabe a Scallions ocupar o lugar daquele que é considerado um dos grandes poetas do rock, insubstituível por natureza e inigualável.
Jim Morrison morreu em 1971, aos 27 anos de idade. Sepultou com ele o futuro do The Doors, que passaria as décadas seguintes tentando se aprumar sem o seu principal integrante, o queridinho das fãs, o homem por trás de letras depressivas, mas na mesma proporção ricas, invulgares.
O show começa com a ária da ópera Carmina Burana e o palco ainda vazio. Com as caixas num volume ensurdecedor, um a um os músicos vão tomando seus lugares. Scallions em jaqueta e calça de couro, assume o microfone sem se parecer incomodado com a possibilidade de comparações entre ele e Morrison, que vão durar enquanto estiver no emprego.
Talvez bem por isso se saiu muito bem: o rapaz, que nem era nascido quando o The Doors terminou, em nenhum momento tentou imitar quem quer que fosse, deixando de lado qualquer trejeito que pudesse lembrar o ídolo juvenil. Deu conta do recado direitinho. Aos poucos, canção por canção, foi marcando presença.
Vieram as clássicas Break on Through, L.A. Woman e a galera, com gente de 18 a 60 anos, não acreditava que podia estar frente a frente com uma banda lendária, ainda que incompleta. Pena que o lugar não oferecia acústica alguma para canções de acordes e instrumentação elaborados. Em alguns momentos, os graves das caixas de som reverberados pelo salão prejudicaram a banda.
Na primeira saideira, já passado das duas da manhã, o povo não parou de pedir para que voltassem. Quando saíram do palco de novo, mais uma vez as pessoas queriam uma última performance.
Após a segunda saída, Michele Acioli, 21, e Rodrigo Aparecido Junqueira, 30, ela de Franca, ele de Ribeirão Preto, pareciam não acreditar que não ouviriam um dos hinos do rock ‘n roll. “Quer dizer que não vai ter Light My Fire? Eles não vão tocar? Não é possível”, brandia o rapaz inconformado, questionando até mesmo o repórter, pensando que fosse algum integrante da organização.
Mas eis que a banda surge. Tocaram Light My Fire e foram embora, deixando todos em êxtase, delirados. Memorável.
A reportagem viajou a convite da Hell Tur.
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