Formigas nunca desaparecerão!


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Professora experiente e culta enfrentava aquele bando de jovens imaturos e convictos de já saber quase tudo da vida. A matéria, Sociologia. Entre outros, nos apresentava os conceitos de traços culturais, de cultura, de mudança social, de aculturação. Não gostava muito de mim e nunca percebeu que por trás daquela aparência negligente e petulante existia alguém que não perdia suas aulas por nada. Alguém que, de tão atrevida, nunca deixou transparecer - muito menos ser notado - seu encantamento pela matéria. Acredito que ela nunca saberá que ainda hoje faço uso de suas observações; que suas indicações de leitura são referências; e nem sonha que cada nova experiência - quando em contato com outras culturas, com outras pessoas, com outros seres, com outras gentes, em outros ares - é vivida como privilégio. Mesmo que não saiba, não canso de lhe agradecer. Assim, lia nos livros: “Traços culturais são a menor parte ou componente significativo da cultura”. Cultura é a “forma comum e aprendida de vida que compartilham os membros de uma sociedade, e que consta da totalidade dos instrumentos, técnicas, instituições, atitudes, crenças, motivações e sistemas de valores que o grupo conhece”. E aculturação é o processo pelo qual duas ou mais culturas diferentes, entrando em contato contínuo, originam mudanças importantes em uma delas, ou em ambas. O interessante desses conceitos - e isso só perceberia muito mais tarde - é serem válidos para todo e qualquer tipo de relacionamento, numa rede incomensurável de possibilidades. Pensava em macrocosmo, mas os processos acontecem entre marido e mulher; mãe e filho; amigos; o profano e o sagrado; culturas, com os vários eus da gente e entre os eus e a circunstância. Em resumo, homens, mulheres e coisas estão em permanente mutação causada pelo efeito das trocas e das simbióticas relações entre si mesmos e consigo mesmos. No contato de uns com outros, os elementos fornecidos pela cultura se encontram, transformam-se e “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”. Ficou em mim, depois da apresentação daqueles conceitos, a certeza de que o simples sair de casa, ou viajar - independente dos quilômetros ou léguas -, só teria sentido se eu retornasse (nem que fosse um milímetro) diferente do que era na ida. A nova postura e o reconhecimento da existência de outras vidas, de outros entornos - tão importantes quanto os meus e minhas, mas fora do meu controle - me fizeram permeável à beleza da dessemelhança, do belo apresentado diferente dos meus restritos parâmetros habituais. Antes, como Narciso, “achava feio tudo que não era espelho”. Hoje sou capaz de perder o fôlego vendo uma mulher negra com suas vestes de tribo, panos coloridos em volta do corpo, turbantes imensos cobrindo a cabeleira rebelde, enfeitada com trezentos colares e pulseiras de contas naturais. E bota maquiagem nela! Ou as indianas de todos os sábados no metrô que vai ou vem de East Ham. Coloridas, roupas bordadas e transparentes a despeito do frio, pulseiras e brincos de ouro, olhos maravilhosos. Acho-as tão lindas quanto a mulher esguia loira e de olhos azuis usando conjunto de lã cinza, chapéu de violetas, veuzinho e uma raposa (morta) no pescoço. E, se estiverem sentadas perto, como acontece frequentemente nos metrôs e ônibus em Londres, não hesito em levantar a barra da minha saia longa e deixar à mostra as cinco tatuagens que tenho no tornozelo esquerdo: quero ser parte da diversidade cultural, das excentricidades, das bizarrices... Ouço constantes queixas sobre a dificuldade de ser anônimo em Franca. As pessoas dizem ser tolhidas, olhadas, avaliadas, ficam incomodadas e que nas cidades grandes sentem-se protegidas, fazem parte da multidão, somem. Enganam-se: você é vigiado, sim. Em Londres você fica vinte e quatro horas sob vigilância: nas ruas, nas lojas, nos ônibus, nos metrôs, nos lugares onde entra. A diferença é o equipamento. Aqui são eletrônicos; em Franca são as “candinhas”. Estão quase extintas e neutralizadas, mas são como as formigas: nunca desaparecerão! Lúcia Helena Maniglia Brigagão Jornalista, publicitária e Membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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