Cresci ouvindo que não se devem misturar certos alimentos para não ter indigestão. Os nutricionistas explicam que determinados alimentos não podem ser ingeridos juntos, pois não combinam e atrapalham as propriedades nutritivas uns dos outros, além de causarem mal-estar, coisas assim. A combinação errada do que se come, entretanto, é dos males o menor neste nosso Brasil varonil.
O problema são as relações promíscuas entre pessoas encarregadas de zelar pelo bem público, pelas leis, e a bandidagem. Certas pessoas ou coisas não devem juntar-se, sob pena de dano a outras pessoas ou coisas. Quando se misturam autoridades e bandidos, vira tudo bandido. Quem se estrepa com essa promiscuidade são os que não fazem parte dela, são os que andam na linha. Quem luta para viver e fazer seu pé-de-meia honestamente está à mercê de associações indigestas como nunca se viu neste país (ah frasezinha!). Nunca se viu tanta avidez para saquear os cofres públicos, para ganhar dinheiro com atividades ilícitas.
As instituições públicas estão divididas em duas partes: boa parte e parte boa. Boa parte, que de boa não tem nada, está envolvida com exploradores de atividades ilegais, como donos de prostíbulos, contrabandistas, banqueiros de jogos de azar, traficantes de drogas, etc.
A parte boa tenta desempenhar bem a sua função, mas... tá difícil! A par das dificuldades encontradas no âmbito interno, a própria sociedade não ajuda muito. Os comerciantes que exploram jogo de azar com máquinas caça-níqueis, os viciados nesse jogo, nenhum deles revela quem são os donos das máquinas. O usuário de drogas não revela de quem compra. A parte boa da Polícia quer pegar os criminosos, mas boa parte os protege, ganha por fora com eles.
E a indecência? No carnaval, mulheres beijando lascivamente diversos homens; um dos atos mais íntimos ficou banal. Carnaval é uma coisa bacana; é mais: é bacanal. O presidente da República e a primeira-dama, do camarote, jogando preservativos para os foliões, foi uma das cenas mais reles e desprezíveis que já vi. O Brasil, antro da jogatina, virou uma zona, vocês sabem do quê.
Sem contar a imoralidade de o poder público distribuir camisinhas a quem pode muito bem arcar com os custos da prevenção na prática do sexo promíscuo; quero ser um mico de circo se esses preservativos comprados com o dinheiro do contribuinte não são superfaturados. “Se deu bem? Use camisinha”, dizia a propaganda do governo federal. Cazuza já cantava: “Transformam o país inteiro num puteiro/ pois assim se ganha mais dinheiro” (O Tempo não Pára).
O Brasil é um grande galinheiro aos cuidados de raposas famintas. O PMDB, que detém a maior bancada no Congresso Nacional, que domina o Senado e a Câmara Federal, é um partido político, mas seu “partido” está menos para substantivo (organização cujos membros defendem objetivos políticos e sociais definidos) do que para adjetivo (aquilo que se partiu; fragmentado; quebrado); boa parte tem relações espúrias, está corrompida; a parte boa está manietada. É o que revela o senador peemedebista Jarbas Vasconcelos na Veja de 16 de fevereiro deste ano. Nos outros partidos não é diferente; eles só são menores. Enfim, não suporto nem engulo essa mistura de Lula, Sarney, Collor, Renan Calheiros, Jáder Barbalho e afins, mas não é por falta de cidadania nem de amor à pátria: é falta de estômago mesmo.
Paulo Pereira da Costa
Promotor de Justiça e autor do livro Pensando na Vida
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