Volto, a contragosto, ao assunto tema do texto “Tiro n’água”, que publiquei neste ‘Comércio’ em 21 de março (disponível para leitura em http://www.comerciodafranca.com.br/materia.php?id=41538 &materia=Tiro%20n’água).
Ao que parece, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo tornou-se feudo de alguém ou de alguns, com força suficiente para instigar climas de terror em delegados de ensino, diretores de escola e professores e calá-los ao melhor estilo dos anos de chumbo.
Fazer jornalismo diário é complicado, mas quem se mete a isso tenta utilizar, da melhor forma, as tecnologias disponíveis. A Internet, por exemplo, que gera possibilidade de conversação eletrônica em tempo real, via chats, e-mails, videoconferência, ferramentas ao alcance de qualquer um, que deu vida ao conceito de aldeia global, criado por Marshall MacLuhan na década de 1960.
Estava certo, aquele vidente. A aldeiazinha que nos tornamos me permite ver hoje meu São Paulo ganhando títulos mundiais no Japão, no exato momento em que acontecem. Permite a meus filhos falarem com amigos virtuais em qualquer país através do MSN ou do Skype, inclusive “cara a cara”, via câmera de vídeo. Deveríamos, portanto, ter, hoje, órgãos governamentais praticando comunicação digital de ponta, a Secretaria de Educação de São Paulo a exemplo. Mas, ora, ora...
Curiosamente, a possibilidade de comunicação que a tecnologia proporciona e a gestão educacional seguiram caminhos diferentes. Não com compromisso em correta temporalidade, mas lembro aqui o conjunto de desgraças representado pelo tal Estudo Dirigido da época militar, que formou(?) milhares de nulidades e a Progressão Continuada, da professora Rose Neubauer, mantida por seus sucessores, ainda em “infeliz progressão continuada” que põe na série seguinte o aluno mal preparado, já que o Estado precisa da vaga para outro que atinge a idade que a Constituição determina.
Como se não bastasse, gente a quem se dá poder sem fim “cria” fórmulas milagrosas de “melhorar” o ensino e produz excrescências como a supressão sumária de métodos históricos adequados - a eficientíssima cartilha “Caminho Suave”, a exemplo - ou a impressão, distribuição, recolhimento e incineração de milhões de livros de geografia onde o mapa da América da Sul tinha dois Paraguais e nenhum Uruguai. Vão ao lixo, literalmente, milhões em dinheiro público, mas isso não significa nada...
E ainda não é tudo. Insisto na existência de jogos de poder enraizados na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, capazes de calar professores, retirá-los de escolas “A” e remetê-los a escolas “Z” ao bel-prazer de diretores e delegados de ensino. Também, na existência de escolas-feudos onde diretores se eternizam exercitando poderes de vida-e-morte profissional com aqueles que se lhes contestam ou ousam quebrar regras de silêncio.
Dever-se-ia esperar, por uma nação mais bem educada, que Secretarias de Educação praticassem transparência, portas abertas ao diálogo franco e democrático sobre virtudes e deficiências de sistemas educacionais. Mas não! Que loucura é essa? Como e por que escolas e educação feudal ainda resistem? Como alguns poucos são capazes de calar a tantos educadores de quem se esperaria posicionamentos diferentes?
Não vou longe, para exemplificar. Este Comércio publicou, esta semana, vasta matéria sobre os resultados do Saresp, índice que diz como estão os estudantes do ensino fundamental e médio em Português, Matemática e Ciências. Algumas escolas alcançaram notas razoáveis. Outras, péssimas. Nossos repórteres colocaram-se em campo para ouvir diretores, professores e alunos (ou seus pais), sobre as notas. Alguns, em função das boas notas, falaram, mas ligaram pouco tempo depois para pedir “encarecidamente” que seus depoimentos fossem desprezados. Coincidentemente, buscas posteriores esbarraram em “nãos” definitivos com endereçamento à Delegacia de Ensino local.
Lá, quase sempre, sua diretora “não se encontra”, ou, se resolve falar, o faz para remeter à Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação. Retoma-se o círculo vicioso que descrevi na matéria anterior: “a informação compete à Delegacia de Ensino regional”.
Professores contam, em off, sobre graves problemas pedagógicos, de relacionamento, de injustiças, de descritério com alunos, mas à simples menção de uso jornalístico, desconversam, amedrontam-se, voltam atrás.
Que bicho é esse? Em que antro a educação se tornou? O que se pode esperar da geração que está hoje nas escolas fundamentais e médias, meninos e meninas que exercitarão poder em mais 20, 25 anos?
Se alguém, que me lê, conhece bastidores deste fétido porão, esteja disposto a falar e a mostrar comprovação sobre o que diz, pode me procurar. Garanto à pessoa, ou pessoas, sigilo, anonimato se for o caso. Quem sabe e cala, consente.
JÚNIA NOGUEIRA DE SÁ
Após a publicação de “Tiro n’água”, recebi telefonema da executiva Júnia Nogueira de Sá, coordenadora de Comunicação e Imprensa da Secretaria de Comunicação do Governo de SP, do secretário Bruno Caetano. Garantiu que o Governo Serra tem alto interesse, sim, em dar transparência a quaisquer ações de governo. Indiquei-lhe os “focos” principais da “birra” jornalística: as Secretarias de Segurança Pública e a da Educação.
APESAR DE
Júnia me afiançou que teríamos modificações urgentes nas posturas de comunicação, mas não aconteceu nada. Continua o esquema tartaruga cansada e o insistente “falem lá, não é aqui”. Também persiste o flagrante desrespeito com que tentam vencer a determinação jornalística de mídias responsáveis. Volto a perguntar: Serra sabe de tudo isso? Não posso entendê-lo conivente com situações contra as quais luta desde parcas eras de sua vida pública.
PARO
O espaço é curto. Outros textos virão. Quem sabe, redutos das tais vozes corajosas que convoquei aí em cima.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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