Impossível passar pelas proximidades do Terminal Central de ônibus (aquele construído na ladeira) sem se lembrar do saudoso “Mercadão”. Aquele lugar tinha peculiaridades que deixaram saudade, até mesmo do cheiro de peixe ainda na memória por muitos.
No que pude aproveitar daquele espaço, aproveitei. Aproveitei até que veio sua demolição, varrendo do centro da cidade um lugar de histórias como se fosse estorvo para comunidade. Transformaram-no num grande estacionamento que contemplaria direitos de... automóveis!
Nunca consegui entender quais foram os reais motivos da demolição mas são águas passadas. Cada um responde pelos seus pecados.
Observar tudo à volta é salutar, por isso, observo bem mais de perto quando algumas castas daqui da província não perdem a oportunidade em criticar a vizinha Ribeirão Preto, talvez por ser aquela cidade bem vista e respeitada política e economicamente, tratada tanto por governos quanto por empreendedores com ampla deferência.
Deixam transparecer um “quezinho” de ciúmes, indisfarçável. Mas lá, há "porquês". O povo é, em parte, diferenciado, quando zela e revela paixão por suas raízes. Lá ainda existe um “Mercadão Municipal” intocável; bom lugar para fazer amizades, falar de história e realizar compras em boas circunstâncias.
Voltando ao nosso extinto mercado municipal, lembrei-me, outro dia, da supervitamina “mista” que sempre tomava lá, acompanhada por um pastel. O dono da pequena lanchonete sempre me era simpático ao servir, alertando sobre o ar quente que estava dentro do pastel e cuidando para que não me queimasse ao mordê-lo. Recordo-me ainda que os copos dos liquidificadores eram de vidro, densos, transparentes, o que nos dava a sensação antecipada daquela suculenta e saborosa vitamina que ganhava coloração especial a partir de nacos de beterraba. Embora o saudosismo nos invada a alma com as lembranças, é preciso considerar à necessidade de “avanços”.
Certamente nos falta o “zelo e a paixão” dos ribeirão-pretanos quando o assunto é manutenção e defesa de riquezas culturais e legados históricos. O Teatro Pedro II, de lá, também não me deixa mentir. Nosso Hotel Francano foi, literalmente, ao chão. Tal levante raramente é adotado por nosso povo apesar das riquezas históricas e culturais que possuímos. Parece que o que já passou não representa mais muita coisa na visão daqueles que se assentaram, no passado em cadeiras legislativas ou tronos executivos.
Tiraram do seio francano o “Mercadão”, mas jamais conseguirão arrancar as boas e saudáveis recordações nutridas por milhares e milhares que um dia, pisaram no chão e respiraram o ar misturado dos mais variados cheiros daquele ambiente, bem como privavam da companhia de tantos que ajudaram a construir ensinamos bons para o comércio da cidade.
Ricardo Gallo Veríssimo
Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e deste jornal
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