Sete quilômetros separam a Rodovia Cândido Portinari do bairro rural Alto Porã, em Pedregulho. Um lugar de vida pacata onde o tempo parece passar mais devagar. Todos os moradores se conhecem. O orgulho da população é o café produzido aos arredores do bairro. Até chegar ao local, o motorista é brindado por uma bela paisagem. Do lado esquerdo, um vale e do outro a represa da Jaguara vista do alto.
Ninguém sabe ao certo quantos anos tem o bairro de Alto Porã, mas o motorista Agostinho Luiz Vicente está lá há 56 anos. "Nasci e sempre morei neste bairro. Eu adoro isso aqui principalmente por causa do sossego. Somos uma grande família". Entre os lazeres de Agostinho, está o banco de madeira instalado estrategicamente em frente a sua casa e embaixo de uma enorme árvore. "Esse é o banco da fofoca", brinca o motorista.
Um dos amigos de Agostinho é o funcionário público João Donizete Dias, 51, que atravessa todo o bairro em cima de sua bicicleta. Sempre que encontra um amigo ele para para conversar. É dele a responsabilidade de cuidar do campo de bola logo na entrada do vilarejo onde são realizados campeonatos de chacrobol. Para João, o bairro é perfeito, só não anda tão sossegado como antigamente. "De vez em quando, alguém vem aqui roubar. Dia destes um ladrão atirou em um morador". Assustados os moradores estão elaborando um abaixo-assinado solicitando policiamento no bairro.
A dona de casa Vilma Lúcia Ferreira, 53, mora em uma rua mais parada e nem vê os carros que chegam ao bairro. Está lá há 14 anos. Mudou-se com o marido e um filho de 18 anos quando não conseguiu mais trabalhar na roça devido a problemas na coluna. Hoje divide o dia entre os afazeres domésticos e a fornalha improvisada em frente à casa para torrar café para os vizinhos. Por 4 litros de café torrado, cobra R$ 3. "Faço isso para ajudar meu marido que trabalha na roça".
Para ela, o bairro tem três problemas: falta emprego, uma farmácia e um posto de combustível. Do contrário, o bairro seria um paraíso. "O básico a gente tem aqui, só faltam essas coisas mesmo".
Vilma é vizinha de Gonçala Aparecida Felipe, 56, que mudou-se para o bairro há quase um ano. Trocou Guariba, na região de Ribeirão Preto, com 32 mil habitantes por Alto Porã, com 500 moradores. "No começo eu estranhei por causa da tranquilidade, hoje gosto muito daqui e não penso em mudar", disse Gonçala, que foi atrás das plantações de café. "Só tem emprego durante a colheita".
Jéssica Aparecida Lúcia, 18, sabe bem o que é isso. Terminou o ensino médio e não está trabalhando. Sonha em ir embora para Franca ou Campinas onde moram três irmãos. "Os jovens vão embora porque não tem emprego aqui", afirma a adolescente que tem como lazer conversar com os amigos no banco da Praça São Benedito, a única da cidade. "Aqui só tem uma festa por ano que acontece no Salão da Igreja em julho".
Quem não pensa em deixar Alto Porã é o aposentado Alvecino Cândido da Silva, 81. Viúvo, mora sozinho. Mas não se sente só. Passa boa parte do dia sentado no banco em frente a sua casa. A tarde é dedicada aos amigos de boteco. "A gente fica lá tomando umas cachacinhas. Se eu não vou, eles me buscam", brinca o aposentado que adora bater um papo.
<b>Veja mais imagens do lugar, tiradas pela fotógrafa Gina Mardones</b>:
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