Ser um sujeito pacato, de bons modos, manso ao falar, provavelmente pode trazer dissabores circunstanciais ao longo da vida.
O Zé é homem de bem, singelo de coração e simpático demais. Ninguém melhor do que ele para se enquadrar como fazedor de amigos.
Desde rapazote sua querida mãezinha o advertia com a frase: “Olha a trouxa, Zé!” Se lembra da primeira vez que a ouviu, ocasião em que desejava ficar noivo da moça do quarteirão detrás. A donzela era de enfeitiçar qualquer mortal. Sua graciosidade o estonteava de tal maneira que decidiu pedi-la em noivado. Dia e a hora foram marcados para segunda-feira, depois do jantar e antes do histórico programa radiojornalístico Repórter Esso.
Chegado o dia, o nervosismo tomava-lhe conta dos sentidos, não parava quieto andando de um lado para o outro. Ao passar pela sala de sua casa sua mãe doce e calmamente lhe disse: “Olha a trouxa, Zé!” Não havia tempo para perguntas, pois as horas já se iam e seu compromisso se aproximava. A ansiedade beirava ao desequilíbrio emocional. Assim, lá se foi o Zé pedir o seu anjo em noivado.
Ao quebrar a esquina pôde avistar agrupamento de pessoas nas proximidades da casa da pretendida. Apertou o passo e à medida que chegava mais perto observou que eram rapazes da sua idade.
Não demorou muito para ficar sabendo que os que ali estavam seriam candidatos ao mesmo “anjo”. Naquele fatídico dia foi “sem chance” para o mancebo Zé. Nem conseguiu ser entrevistado pelo pai da moça; também, concorrer com o filho do prefeito da pequena cidade seria muita presunção.
O detalhe da história toda é que sua mãe e quase toda a vizinhança sabiam que só se escolheria um; e que os pedidos da mão da moça seriam abertos à coletividade. Bem que tentou avisá-lo do jeito dela: “Olha a trouxa, Zé!”
A partir de então a frase sempre estaria presente. Ele contou-me que nos dias de hoje ainda consegue ouvir (em pensamento) sua mãezinha dizendo “olha a trouxa, Zé!” ao se deparar com algumas situações do cotidiano.
A mais recente foi durante a pequena viagem que fez para cidade vizinha, descobrindo que os combustíveis lá comercializados estavam quase 30% mais baratos que onde mora “Olha a trouxa, Zé!”. Outra situação é vivida numa padaria que segundo ele, a mocinha atendente se aproveita de sua velhice para `enfiar-lhe` pãezinhos menos frescos deixando os melhores e mais corados para clientes exigentes “Olha a trouxa, Zé!”. Disse-me que na sua idade torna-se inevitável não frequentar “certas” farmácias e ser engolido pelo estratégico discurso sobre medicamentos genéricos e similares, que na verdade envolve comissões disputadas pelos vendedores “Olha a trouxa, Zé!”.
No alto de sua velhice, chegaria a uma simples conclusão: desfazer a cara e o jeito de “trouxa” não daria mais. E outra coisa curiosa, sua mãe apenas o advertia, mas nunca disse para que deixasse de se passar por tolo. Às vezes, agindo de tal forma (como ababocado), saberemos das reais intenções das pessoas que nos rodeiam... Olha a trouxa!
Ricardo Gallo Veríssimo
Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e deste jornal
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