Dudu tem 14 anos, é fascinado por jogos do Playstation, não dispensa um bom prato de arroz e feijão e odeia ficar parado. Laira, aos 10, tem a agenda lotada de atividades, mas o que mais gosta de fazer são aulas de natação e brincar com sua coleção de anjos em miniatura.
A vida aparentemente normal e divertida de Dudu e Laira nem de longe indica o terror que viveram há sete anos, em 26 de março de 2002. Os dois são os únicos sobreviventes da "chacina de Batatais", um dos episódios mais tristes e chocantes da história daquela cidade.
Luís Henrique Faccion e Laira Fernanda Faccion Rodrigues, tio e sobrinha, assim como outros cinco membros da família, foram agredidos na cabeça com golpes de uma barra de ferro. Tiveram as caixas cranianas abertas e perderam massa encefálica, mas sobreviveram.
De lá para cá, os garotos foram submetidos a dezenas de cirurgias e intermináveis sessões com fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos, terapeutas ocupacionais e nutricionistas. Tudo isso para que tenham uma vida o mais próximo possível da normalidade.
Quem acompanhou o noticiário da época ou chegou a vê-los nos meses seguintes à chacina dificilmente imaginaria que Dudu e Laira, à época, respectivamente, com 7 e 3 anos, sobrevivessem e superassem o trauma. Mas conseguiram. A reportagem do Comércio passou um dia inteiro com essas crianças para saber como é a rotina de ambas, que lembranças têm daquele dia e descobriu que, em que pese o terror do qual foram vítimas, conseguem levar uma vida feliz.
<b>DUDU</b>
No dia 14 de março teve festa para o Luís Henrique, apelidado pelo falecido pai de "Dudu". Figuras do ogro Shrek e sua turma decoraram o salão e as piscinas do clube da AABB de Batatais. O garoto pulou, brincou, correu, nadou e dançou. Algo inimaginável para quem esteve tão perto da morte sete anos antes.
As sequelas físicas em decorrência das agressões sofridas são nítidas. O adolescente não tem o olho esquerdo, sofreu afundamento no crânio do mesmo lado e apresenta deficiências motoras e mentais que o impediram, por exemplo, de ser alfabetizado.
A dona de casa Márcia Helena Botelho, 41, é tia de Dudu e o adotou após a chacina. Acompanhou sua internação e a série de cirurgias pela qual passou. Hoje tem orgulho da evolução do sobrinho. "Ele entende perfeitamente as ordens, sabe quando está fazendo algo certo ou errado, é muito observador e falante", disse Márcia.
A afirmação é ratificada por Heleni Regina Stoppa, professora de Dudu na Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Batatais, onde o adolescente passa a maior parte do dia. "Ele frequenta as atividades de informática, música, participa de ações socioeducacionais e está perfeitamente integrado", disse.
A reportagem esteve na sede da entidade, acompanhou a rotina de Dudu e presenciou um comportamento, no mínimo, surpreendente. Ele intercala momentos em que parece não compreender (ou não se concentrar) no que lhe é dito. Em seguida, mostra capacidade de interatividade e liderança entre os colegas.
Também provou ser cavalheiro e educado. Na despedida, deu um beijo na mão da repórter e disse, calmamente: "Muito obrigado pela presença".
<b>LAIRA</b>
Até os 3 anos de idade, Laira, filha de Elaine Faccion e sobrinha de "Dudu", levava uma vida normal na casa dos avós. O que a salvou da morte após os golpes que sofreu na cabeça, segundo a perícia, foi a barriga de nove meses da mãe, que caiu morta sobre ela. Com isso, a menina saiu do campo de visão dos criminosos.
Com isso, as sequelas de Laira são bem menores que as de Dudu.
Resumem-se a uma pequena dificuldade para andar. Agora, aos 10 anos, a garota frequenta normalmente as aulas da quarta-série da Escola Municipal "Professora Anna Bonagura de Andrade", na esquina de sua casa, no Jardim Helena, onde vive como "filha única" dos tios, a manicure Maria Aparecida das Graças Rodrigues, 49 (irmã de seu pai, o pedreiro Luís Fernando Rodrigues, 33), e o barbeiro Olegar Rocha, 52.
Laira contou que as suas atividades preferidas são "nadar e brincar em seu quarto". As aulas de natação são feitas no complexo esportivo do Ceuclar (Centro Universitário Claretiano), onde ela recebe também acompanhamento de fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e psicopedagogia. Outra paixão de Laira é sua coleção de anjos de resina, gesso e louça. "Outra coisa que ela adora é recortar tudo o que vê pela frente”, disse Maria Aparecida.
Ao ser questionada sobre as suas aspirações para o futuro, Laira afirmou sem pensar duas vezes. "Quero ser autora de novela", para, logo em seguida, corrigir sorrindo: "autora, não, quero ser atriz de televisão".
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