‘Não gosto de parabéns antes do tempo’


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‘VIM PARA GANHAR’ - O técnico da Francana, José Fernando Polozzi, 53, no apartamento que divide com outros membros da comissão técnica. Antenado, seu laptop está sempre conectado em sites sobre futebol
‘VIM PARA GANHAR’ - O técnico da Francana, José Fernando Polozzi, 53, no apartamento que divide com outros membros da comissão técnica. Antenado, seu laptop está sempre conectado em sites sobre futebol
<p align="left">Aos 53 anos, quase 40 deles dedicados ao futebol, como técnico e atleta, José Fernando Polozzi afirma que a carreira de treinador é a mais ingrata que existe neste esporte. Segundo ele, até mais do que a de goleiro. A única forma de não sofrer pressão de ninguém é ganhar sempre, o que não é tarefa fácil. Mas, por enquanto, à frente da Francana, o ex-zagueiro de Ponte Preta, Palmeiras e seleção brasileira só vive de glórias e é o responsável pela melhor campanha do time nos últimos quatro anos. </p> <p align="left">Sob seu comando, foram seis vitórias em sete jogos disputados. Com isso, Polozzi e seus jogadores fizeram com que o desacreditado torcedor da Francana - sentimento potencializado com a queda para a Série A-3 em 2005 - voltasse ao Lanchão. E feliz. O técnico, que está nesta função há 16 anos, assumiu a Veterana na 6ª rodada do Campeonato Paulista da Série A-3 deste ano, na semana do Carnaval. Ele, que mora em Birigui e trabalhou na 1ª Divisão do futebol cearense até o início de 2009, entrou no lugar de Edson Boaro, que deixou a Francana para assumir as categorias de base do São Bernardo. </p> <p align="left">Desde então, passaram-se sete rodadas e Polozzi acumulou seis vitórias, um empate e a liderança isolada da competição, com folga de, até o início da rodada deste fim de semana, cinco pontos sobre o adversário mais próximo, o Pão de Açúcar. O comandante da Feiticeira ainda conseguiu outro feito: fez com que os atacantes do time marcassem gols - o que não ocorreu nas últimas temporadas -, melhorou o rendimento do lateral-direito Índio e tem sabido utilizar Elivélton. Tanto que o meia, principal jogador da Francana, aos 37 anos, é o artilheiro do grupo com oito gols e jogou os 90 minutos em todas as partidas disputadas até agora. </p> <p align="left">O treinador assegura que o segredo para a boa campanha é manter sempre a serenidade e a humildade. Polozzi diz que quando anda na rua faz questão de ficar de cabeça baixa para não ser reconhecido. Também pede para que não o parabenizem pela campanha. Pelo menos por enquanto. “Não ganhamos nada e não chegamos a lugar algum”, afirmou. Atrás de uma pequena mesa de madeira, com o próprio laptop conectado a um site com resultados de futebol, o treinador recebeu a reportagem no apartamento que divide com a comissão técnica do clube, no 9º andar de um prédio do Jardim Francano, na noite de quinta-feira, e falou de seus planos para a Veterana. </p> <p align="left"><strong>Comércio da Franca - Quando você chegou na Francana, seu auxiliar e coordenador de futebol, Almir Dionísio, falou que a sua chegada era o começo de uma nova era. O que você mudou no time?<br />José Fernando Polozzi</strong> - Tive a oportunidade de ver o jogo contra o Olímpia (0 a 0, dia 20 de fevereiro de 2009). Na verdade o que mudamos naquele time: foi colocado um atacante e tirado um zagueiro. O time se tornou um pouco mais ofensivo que o do Edson (Boaro, treinador que saiu da Francana antes da 4ª rodada), que também não era uma má ideia. Tanto é que o time não estava mal colocado, mas não estava na liderança. Em pouco tempo os jogadores assimilaram muito bem o que a gente queria, como aquelas surpresas de sair volante de trás para fazer cruzamento pelo setor direito. De sair zagueiro de trás para fazer cruzamento pelo setor esquerdo. Dei um pouco mais de liberdade e o jogador com mais liberdade desenvolve um futebol melhor. E só. </p> <p align="left"><strong>Comércio - Antes de você assumir, o Silva Rossato era o interino e os jogadores chegaram a pedir à diretoria para que ele permanecesse. Como foi sua chegada, o que você conversou com os jogadores, com o Silva?<br />Polozzi</strong> - A conversa que a gente tem sempre quando se apresenta é aquela de pensamento positivo, de alcançar o título. Eu só falo em título, a minha primeira conversa é em ser campeão, não em fazer uma boa campanha. Se você tem por objetivo só fazer uma boa campanha, na verdade não se consegue atingir. Agora se pensar no maior, no melhor, pelo menos a boa campanha vai chegar. Além disso, eu já conhecia o Carreta, o Índio, o Pitarelli e o Elivelton e isso me ajudou a trabalhar bem com a equipe. </p> <p align="left"><strong>Comércio - O mérito da Francana de estar em tão boa fase se deve ao fato de ter três jogadores experientes que os adversários não têm, no caso Elivélton, Índio e o Pitarelli?<br />Polozzi -</strong> Uma equipe que tem três jogadores desse porte, conhecidos, entre eles quem já foi campeão mundial, já está partindo do princípio que quer ser campeão. Isso é um fator muito positivo nesta divisão. Já é uma preocupação muito grande para o adversário em relação a esses três jogadores, principalmente os dois que são da linha. Agora, falando dos outros, eles completam. Porque se eles não completassem, não ia adiantar nada que os três não iam resolver nada. Além disso, apesar da idade do Elivélton (37 anos) e Índio (29 anos), o condicionamento físico deles é invejável. E não são estrelas, são pessoas que foram estrelas, mas são operários, muito humildes. Você vê a vibração do Índio ao fazer um gol (aos 49 minutos do segundo tempo, na vitória da Francana sobre o Campinas, dia 25 de março de 2009), parecia um moleque. O Elivelton, no segundo gol diante do Força, ele saiu em uma vibração que parecia um garoto. Os caras estão jogando para um grupo, para uma torcida. </p> <p align="left"><strong>Comércio - Como é o trabalho do treinador em um time com três jogadores com essa bagagem?<br />Polozzi</strong> - É mais fácil o trabalho. Pergunto para o Índio, às vezes, se ele está cansado, com alguma dor e ele nunca tem nada. O Elivélton nunca quer sair. A partir do momento que os jogadores que são considerados as estrelas do grupo têm esse pensamento profissional, os outros precisam acompanhar. Ninguém tem moleza. Eles têm de entrar na linha da A-3. </p> <p align="left"><strong>Comércio - Como fazer para controlar o ego dos atletas a partir de agora, que a Francana está em alta?<br />Polozzi</strong> - Depois daquele jogo contra o União Mogi, que ganhamos só de 1 a 0 e poderíamos ter feito mais gols, nós comentamos sobre a vaidade e o orgulho. Não chegamos a lugar algum e não ganhamos nada. E sobre servir, um servir o outro. É assim que funciona o futebol e eu tomei esse jogo como exemplo porque aconteceu, e não foi um lance só, de jogador querer decidir sozinho. Depois, na nossa cara, foi mostrado que podíamos ter empatado, ou até perdido, porque eles tiveram a chance de empatar e fomos nós que demos a chance a eles. Naquela semana, antes do jogo do Força (3 a 1, dia 22 de março de 2009), veio acontecer que a equipe de cima perdeu o coletivo. Estava sendo mostrado na nossa cara. Às vezes a vaidade e o orgulho falam mais alto e não podemos ter isso. </p> <p align="left"><strong>Comércio - No futebol há ocasiões em que um time que está bem perde rendimento porque a diretoria não fixa prêmios por vitória. A Francana 2009 pode sofrer este tipo de problema?<br />Polozzi</strong> - Se a premiação é definida desde o começo não. Eles (a diretoria) definiram de pagar 50% e a outra metade para quando o time se classificar. Está combinado e acabou. Em algum momento eles fazem uma surpresa que é pagar o integral. A cada três rodadas eles pagam o “bicho”. Isso estava definido quando chegamos aqui. Na outra fase é outra conversa e outra premiação. Não está tendo problema com relação a isso. </p> <p align="left"><strong>Comércio - A diretoria da Francana é formada por pelo menos 20 pessoas, sem cargos exatamente definidos. Você encontra dificuldade para se relacionar com tantos diretores?<br />Polozzi</strong> - A relação entre jogador e diretoria é feita pelo Almir (Dionísio, coordenador de futebol e auxiliar técnico). A comissão técnica e a diretoria têm uma reunião a cada dez dias. Quando se vem de derrota, as reuniões são maiores. Em vitórias, na verdade, a gente... Na verdade, com as vitórias a gente nunca aprende. Ela é muito importante mas só estaciona. A gente aprende com as derrotas. Principalmente no futebol, porque a gente aprende que no futebol só se vive de vitórias. Estou no futebol há 38 anos e tem muito parabéns aqui, muito parabéns ali e isso não é bom negócio. Volto a frisar que não ganhamos nada e não chegamos a lugar algum. </p> <p align="left"><strong>Comércio - O Almir Dionísio, coordenador de futebol, parece ter uma relação próxima com você. Ele é o seu braço direito?<br />Polozzi</strong> - O Almir sempre foi meu auxiliar. Conheci ele em 2004, a primeira vez que trabalhamos juntos, no Primavera, de Indaiatuba. Ele recebeu uma proposta do Guaratinguetá, quis me levar, mas não fui porque o Primavera estava indo bem. Na outra fase, o Primavera não fez um investimento para segunda fase e acabei indo para o Guaratinguetá nas duas últimas partidas, onde nós acabamos subindo (da Série A-3 para a A-2). O Almir está no futebol há mais de 20 anos e a gente fica sempre trocando informações. </p> <p align="left"><strong>Comércio - Aparentemente, seu estilo denota um treinador que mantém certa distância dos jogadores, digamos “linha-dura”. Você é assim?<br />Polozzi</strong> - A gente usa de uma expressão mais forte quando é necessário. Grito bastante durante o jogo, mas jamais xingo o jogador e sim oriento. Sou daquele princípio que jamais gosto de perder para mim mesmo. Quando o adversário nem fez por merecer a vitória e acaba ganhando pelos nossos erros aí você está perdendo para si mesmo e quando isso acontece eu pego pesado. </p> <p align="left"><strong>Comércio - A torcida da Francana acostumou-se a ver o time nadar, nadar, nadar e morrer na praia. O que fazer para terminar a primeira fase à frente de todo mundo e não naufragar na segunda fase?<br />Polozzi</strong> - O campeonato vai começar, na verdade, na outra fase. Quando ficarem as oito equipes, as mais fortes, aí sim é que a coisa vai pegar fogo. E quando acabar tudo e a Francana for campeã, aí será hora de receber os parabéns. Tenho acompanhado isso (cair de produção na fase decisiva) há muito tempo. E não só no Campeonato Paulista, mas em vários outros. No Cearense, o Ceará foi campeão no primeiro turno e é um finalista. Nesta fase (segundo turno) o time está lá embaixo. O Campinas, quando estava na B-1, sempre teve boas campanhas na primeira fase. Na etapa seguinte ele ficava fora por causa de saldo de gols, uma ou outra coisa. Por isso eu não gosto de parabéns antes do tempo.</p> <p align="left"><strong>Comércio - A torcida de Franca já pegou no seu pé no jogo que o Força começou ganhando, por 1 a 0, e senhor revidou (gesticulando com as mãos para o torcedor). Logo depois o time virou o jogo e venceu. Já dá para o senhor definir como é a torcida da Francana?<br />Polozzi</strong> - Em todo lugar que vou falam que a torcida é exigente. Ninguém gosta de perder e a gente sabe que o torcedor é impaciente. Jogo a gente não ganha em 10 minutos, ganha-se em 90, às vezes até em 95. Campeonato não se ganha em cinco, seis jogos, só depois de todas as partidas. Como tomamos o gol primeiro, eu nem reclamei e o que fiz foi apontar assim (faz sinal com o dedo indicador em riste). Quis dizer que nós estamos em primeiro lugar. Não tem porque ficar nervoso. Depois, quando fizemos o gol do empate e o da vitória eu não virei para a torcida e perguntei: “e agora?”. Escutei alguém me chamar de burro e a mesma voz, depois, chamar-me de inteligente e eu fiz sinal de positivo.</p> <p align="left"> <strong>Comércio - Quais foram as maiores pressões que você sofreu como jogador e treinador?<br />Polozzi</strong> - Como jogador, a maior pressão de torcida que sofri foi no Palmeiras. Passei uma fase meio (...) Eu não, o Palmeiras passou uma fase difícil e a pressão foi muito forte. O time ficou 14 anos sem título e eu estava no meio disso. Fui em 1979 para o Palmeiras, que tinha sido campeão em 1976. Passei cinco anos lá e não ganhamos nada. A pressão era forte, de jogador levar no pé do ouvido (risos). Graças a Deus eu não, porque tinha um bom relacionamento com a torcida. Como treinador, a pressão é constante. Você só vive da vitória e por isso que é bom. </p> <p align="left"><strong>Comércio - Você busca muito apoio na família para seguir no futebol?<br />Polozzi</strong> - Tenho quatro filhos, dois casamentos, e o contato com os filhos é mais pelo MSN (programa de envio instantâneo de mensagens) porque por telefone está meio caro. A gente sempre se fala, eles acompanham através da internet. Não sou como marinheiro, mas quase igual. Quando os filhos estão pequenos você não os vê, o contato com a mulher fica complicado. A profissão é muito difícil. Você sofre pressão da família, porque nunca está junto, e de toda a torcida do clube. Por outro lado, a satisfação de ver esse monte de gente no estádio é muito grande. Eu já tive dez vitórias seguidas, não sei se o Santos teve isso. Foi no União Barbarense, na Copa Paulista (em 2002, conseguiu o vice-campeonato). </p> <p align="left"><strong>Comércio - Por enquanto sua campanha foi de seis vitórias e um empate. Já se preparou para a derrota?<br />Polozzi</strong> - Não. Isso eu nem preparo, não penso em derrota de jeito algum. Para mim, se acontecer derrota é surpresa. Sempre foi. Não gosto de me preparar para isso porque eu só me preparo para a vitória.  </p>

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