Quarta-feira, 21h30. A dona de casa Márcia Gomes, 34, chega à porta da UBS (Unidade Básica de Saúde) do Parque do Horto acompanhada de um casal de filhos. Traz um colchão, cobertor e cadeira. Seu objetivo: passar a noite no local para, às 7 horas do dia seguinte, agendar o tratamento dentário para ela e o filho de 9 anos. Por pouco não perdeu a oportunidade. Foi a oitava a ocupar a fila de espera - número exato de vagas abertas para adultos naquela unidade. Quem chegou depois de Márcia teve de ir embora e deverá aguardar um mês para tentar agendar o tratamento.
Como o portão da UBS permanece fechado durante a noite, os pacientes se ajeitam na calçada, ao sereno. A maioria senta no chão e utiliza o alambrado do prédio para encostar-se. Com a experiência de quem já passou outras noites no local para agendar tratamento para a mulher e o filho, o sapateiro Luiz Donizete Silva, 43, foi preparado. Conseguiu o primeiro lugar na fila - às 20 horas - e levou café, leite e pães. Não demorou muito e já contava com a companhia de outras sete pessoas. "Depois de nós, muitos já vieram e voltaram para a casa porque sabem que o número de vagas é limitado. Nem adianta essas pessoas voltarem de manhã".
Os pacientes relataram ao Comércio que, se não passarem a noite na porta da unidade, não conseguem o atendimento. Como as vagas são poucas, quem não tem condições de pagar não tem alternativa a não ser a de dormir no local. "É uma humilhação, mas temos de ficar. Já tentei outras vezes vir quando abre a UBS, mas não consegui agendar", disse Márcia. "Eles não dizem nada. Apenas colocam os cartazes com o número de vagas. Temos de vir o quanto antes. É uma coisa que me deixa indignado, mas fazer o quê? Estou desempregado, dependendo do seguro-desemprego, não posso pagar", completou Luiz Donizete.
Situação semelhante é a da dona de casa Iranilda Alves, 42. Moradora no Jardim Paineiras, quase dois quilômetros distante do Parque do Horto, ela precisou recorrer ao atendimento público por conta da dificuldade financeira da família. Quando chegou à UBS na quarta-feira, três pessoas já estavam no local. Iranilda levava apenas moletom e sombrinha. Disse que pensou em voltar para casa para buscar outro agasalho e um lanche, mas temeu perder o lugar. "Precisei ficar porque o salário que a gente (família) ganha não dá para pagar dentista. Infelizmente estou passando por esse constrangimento pela primeira vez na minha vida".
COMO FUNCIONA
O agendamento para os pacientes que precisam de tratamento dentário na rede pública é feito apenas uma vez ao mês. No caso da UBS do Parque do Horto, os usuários devem procurar a unidade na última quinta-feira de cada mês. Após o início do tratamento, a pessoa recebe um cartão onde são marcados o dia e o horário em que será atendida.
As poucas vagas disponíveis para dentista na unidade são disputadas por moradores de, pelo menos, seis bairros -City Petrópolis, Ipanema, Paineiras, Miramontes, Cambuí e Horto.
Procurado para falar sobre o assunto, o secretário de Saúde, Alexandre Ferreira, não atendeu a reportagem e não respondeu aos recados deixados.
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