A folha do bloco de papel em que o clínico geral Ângelo Presotto Netto, 73, prescreve seus medicamentos e receitas chama a atenção, mas não mais que seu consultório de simplicidade franciscana. Abaixo de seu nome, no alto da folha, aparecem os nomes de Hungria, Itália, Portugal, Alemanha. São os países que o médico francano conheceu atrás de aperfeiçoamento e "doutoramentos", como disse, sempre atraído pelos maiores expoentes da medicina mundial.
Presotto pode até parecer, a princípio, um homem de poucas palavras, mas numa conversa que durou pouco mais de 90 minutos falou com propriedade sobre vários assuntos. E como impressiona seu conhecimento sobre arte, cultura e história. Para seu interlocutor, poder gastar preciosos minutos com quem já viveu e percorreu boa parte do globo praticando medicina, mas principalmente ouvindo relatos sobre suas experiências em lugares tão distantes, é um momento para ser aproveitado como poucos.
Dono de um linguajar absolutamente polido e de uma elegância ímpar, Presotto poderia estar em qualquer canto do planeta, mas, como o leitor perceberá mais à frente, foi praticamente forçado a ficar em Franca. Sorte de seus pacientes, que encontram no médico e no homem um tipo de pessoa que está ficando cada vez mais raro.
Viajante e escritor, com "uns 15 livros publicados", sobre, obviamente, medicina, mas também sobre biologia e viagens, deixou na gaveta guardada para os filhos sua principal obra: a história da família Presotto, que começou em 1893, com a vinda do avô de mesmo nome. "A história da minha família é muito bonita, como é a de outras famílias. Vovô, de quem tenho a honra de ter o mesmo nome, saiu da roça e construiu um império de honestidade e dignidade. Papai era também um homem maravilhoso. Morreu cedo, infelizmente". Política, medicina, práticas médicas - e críticas a algumas delas, viagens, livros e história foram os tópicos desta entrevista.
Comércio da Franca - Como era o contexto em que se deu sua entrada na faculdade de medicina?
Ângelo Presotto Netto - Eu entrei na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1955, chamada de Universidade do Distrito Federal. Naquele tempo existiam 11 faculdades e entrar em uma não era fácil. Eram 180 candidatos para uma vaga, com exames práticos, escritos e orais. Colocavam um esqueleto na sua frente e mandavam você falar sobre(risos). Formei-me em 1960, com o paraninfo sendo o Juscelino Kubitschek (ex-presidente da República), e arrumei uma bolsa para estudar na Argentina. Em 1961 voltei para o Brasil. Quando meu pai morreu tive que voltar para Franca.
Comércio - Em outro momento da conversa, o senhor falou que não era o momento de vir para Franca...
Presotto - Eu não estava psicologicamente preparado para voltar a Franca. Eu saí com 14 anos para morar em Ribeirão Preto. De lá fui para São Paulo para fazer cursinho. Note que, quando me formei, mais de dez anos tinham se passado. Nesse tempo tive sorte de viver com catedráticos importantes. Eram semideuses, uma coisa fantástica. Eu me preparei para ficar no Rio e em 1959 houve um concurso para médico da ONU (Organização das Nações Unidas). Sempre quis trabalhar na África, na Ásia. Prestei o concurso, que era no mundo todo, e passei em primeiro lugar. Assinei o contrato e iria para o Congo Belga, depois para a Nigéria fazer um curso de medicina tropical. Após quatro anos passaria por Cingapura e Miami. No Brasil eu viria para Campo Grande. Então, veja, eu tinha traçado toda a minha trajetória, mas o papai morreu e eu tive que voltar. Não é que eu não gostasse de Franca. É que eu não estava preparado para isso. Eu me retraí um pouco e tive muitos problemas em relação a isso.
Comércio - A medicina que o senhor viu naquela época ainda existe atualmente?
Presotto - Acho que a medicina continua sendo a mesma, mas as técnicas que a rodeiam mudaram um pouco. Antes você fazia um diagnóstico clínico do paciente e pedia um exame para confirmar esse diagnóstico. Hoje o médico não olha na sua cara e te manda fazer todos os exames; aquele que der positivo, muito bem. São todos especialistas. Aí chegamos à definição de Albert Einstein para o especialista: é o indivíduo que sabe cada vez mais de menos, até conseguir saber tudo de nada. A medicina está evoluindo, mas me refiro àquele grupo que estuda, que pesquisa. Sobre o outro grupo eu não tenho que me referir. A meu ver faltam conhecimentos de clínica médica.
Comércio - Mas a falha está onde? No profissional ou na sua formação?
Presotto - A falha está na faculdade. A clínica médica era uma cadeira que durava três anos; hoje dura três meses. Eu tive um professor que fazia diagnóstico pelo cheiro. Conhecia a doença pelo cheiro. Hoje isso não existe mais. A medicina hoje está ligada a aparelhos, ressonâncias, computadores.
Comércio - Com tantos avanços tecnológicos e as descobertas de novos medicamentos, como o senhor vê a medicina brasileira em seu atual estágio?
Presotto - A medicina vai bem, mas o problema é quando é que se coloca para a população todos os seus avanços técnicos? Aqui é muito difícil. Ela é pouco acessível. Na década de 1960, o Brasil chegou a ser referência de cirurgia no mundo. A medicina melhorou muito, mas volto a frisar que as coisas mudaram apenas para uma pequena parte da população. Aquela que pode pagar. Antes de falar em medicina no Brasil é preciso perguntar de qual medicina está se falando. A de São Paulo ou a do interior do Piauí?
Comércio - O doente sabe bem o que é isso?
Presotto - O doente brasileiro virou um número. Você olha na ficha dele e vê o número 578. Aí diz que ele tem a doença I 1660. Esse é o doente hoje. É incrível, mas é verdade. É um número, apenas isso. Sabia que 72% das pessoas que vão ao consultório vão por distúrbios psicológicos e não doenças? Sabia que 92% dos exames pedidos nos consultórios dão negativo? Foram pedidos inutilmente? Eu não sei como se conserta isso.
Comércio - A mercantilização da medicina está afastando os médicos de juramento de Hipócrates (feito pelos médicos quando se formam)?
Presotto - Creio que existe um grupo imbuído de respeito pelo trabalho e dignidade pelos outros, enquanto há outro que não preza nada disso. Quero que fique claro que é um problema humano e não apenas da medicina. Se eles usam a profissão para fazer mercantilismo, bem, é a profissão deles. Como é o advogado, o dentista. Isso existe em todas as profissões. O problema está na origem do indivíduo que faz isso. A família que não sabe educar não dá bons frutos.
Comércio da Franca - Mudando o foco da conversa, quando começou sua paixão pela escrita?
Presotto - Minha primeira experiência foi quando escrevi o livro da minha família. Desde menino eu sempre perguntava a meus avós de onde eles vieram, até que fui à Itália e busquei dados. Cheguei a 1.380 (familiares identificados). Esse livro eu não publiquei e nem vou publicar. Foi feito para que meus filhos e netos saibam de onde eles vieram, a origem simples que tivemos.
Comércio - Qual o enredo de seus livros?
Presotto - Eu tive uma série de boas e más impressões nos meus 50 anos de medicina, dentro e fora do Brasil, nos países onde eu fiz os meus doutoramentos e especializações. E alguns fatos me calaram muito fundo, porque me pareceram inéditos. Alguns fatos notáveis, de muita moral, muita ética, galhardia, muita dignidade; outros, profundamente lamentáveis. Então eu peguei todas as coisas que vinham à minha cabeça e resolvi editar um livro (referindo-se à sua última publicação, Medicina, Contos, Crônicas e Narrativas) abordando a medicina como eu vi.
Comércio - O senhor fala com muita reverência a seu avô.
Presotto - Meu avô, Ângelo, de quem eu honro ter o nome, construiu um império com honestidade e dignidade. Um homem que saiu da enxada e chegou a ser por 25 anos vice-cônsul italiano e que recebeu do presidente da Itália o título de cavalheiro é, para mim, um exemplo. Meu avô chegou ao Brasil em 1893. Em Franca chegou em 1904. Em 1914 a Ford veio para o Brasil e, mais tarde, um amigo dele, que era representante de pneus da Pirelli para bicicleta, disse que a Ford procurava alguém para ser agente. Mesmo sem dinheiro, ele acabou sendo o primeiro agente Ford da América do Sul, aqui em Franca... A história começou assim.
Comércio - O senhor acredita que o tempo em que vivemos permitiria grandes transformações familiares como essa que a sua viveu?
Presotto - Eu acho que sim. Acho que não é possível negar um processo evolutivo e cultural. Conheço algumas famílias com história de duas gerações que conseguiram se projetar. Mas são famílias que vivem nos moldes mais antigos, com uma hierarquia e respeito absolutos entre pai e filho. Estritamente patriarcais. Mas vamos corrigir um erro histórico que é não destacar o papel da mulher nessas conquistas. O homem não faz nada se não tiver uma grande mulher por trás dele. No entanto não se toca no nome da avó.
Comércio - O senhor já exerceu algum cargo político?
Presotto - Não, nunca.
Comércio - E o que acha da política?
Presotto - Acho que vivemos em um país com inversões sociais preocupantes. Onde um catedrático de medicina da USP ganha R$ 4 mil por mês e um alguém que fala "nóis vai, nóis foi" tem um salário de R$ 32 mil. Nas pequenas cidades do interior, onde 99% da população é inculta e nunca viu um jornal ou revista, é o Joãozinho da Leiteira quem manda. Eles não precisam de médicos, advogados. Você não tem o menor valor para um político. É a verdade nua e crua. Mas eu acho o Brasil o melhor país do mundo para se viver. Eu posso te afirmar isso porque conheço dezenas de países, de norte a sul, de leste a oeste.
Comércio - Mesmo com todas as nossas mazelas?
Presotto - Eu quero dizer que para nós, que já estamos formados, é um ótimo lugar para viver. Para quem está se fazendo agora é um país extremamente difícil. Mas isso ocorre em todo o terceiro mundo. Eu trabalhei na China e na Índia desenvolvendo pesquisas sobre controle de natalidade e me permita contar o que vi em Pequim. Com a lei de que nenhum casal poderia ter mais que um filho, se a segunda criança fosse mulher, seria jogada em praça pública até morrer de fome. Depois vinham os lixeiros para pegá-la. Eu vi crianças morrendo. Você saía de manhã e encontrava aquela judiação.
Comércio - Como, para quem viajou tanto, é estabelecer comparações ou aceitar a realidade de países tão diferentes?
Presotto - Fui vendo o mundo como ele é, mas nem sempre a visão da gente é a visão dos outros. Ela vem um pouco deturpada pelos nossos hábitos e educação, pelos nossos costumes, mas foi assim que eu vi o mundo e ele se introduziu na minha mente desse jeito.Têm coisas boas, mas têm coisas horríveis, como em Darfur, onde estive em 1981 com os Médicos Sem-Fronteiras. É dez vezes pior que um campo de concentração e o mundo inteiro fica olhando, porque lá não tem diamantes, não tem petróleo. Não interessa. A mola propulsora do mundo é o poder econômico. Vem revestida das mais diferentes bandeiras, de humanismo, de religião, de nação, de bondade, mas no final da história aparece o pratinho com o dinheiro.
Comércio - Nos países que conheceu, há algum choque pelo lado positivo do que viu?
Presotto - Ah, tem. A França, por exemplo, é um país maravilhoso. A Inglaterra também. A Itália, com algumas ressalvas ao temperamento do italiano, é um país de gênios. Meu pai dizia que a sorte do mundo é que os italianos são briguentos, porque se prestassem mais eles dominariam o mundo. A melhor arte do mundo é deles, a melhor arquitetura, o melhor carro do mundo.Tem também os países nórdicos, que são maravilhosos.
Comércio - Na ida para esses países, como o senhor via esses lugares com olhos de brasileiro?
Presotto - Eu nunca tentei fazer parâmetro entre o Brasil e outros países. Eu sempre tratei de levar e mostrar aos meus filhos, amigos e família essas diferenças. Em 1966, por exemplo, estive na Hungria, depois na Itália e Inglaterra no mesmo ano. Vi como era o atendimento e assistência médica nesses países. Mostrei a realidade deles para os meus colegas e eles nem quiseram ouvir. Lá, quem ganha 10 salários não paga nada e tem toda a assistência, mas quem ganha 100 salários paga 20% do que gasta e quem ganha mil salários, paga 50% do que gasta. Aqui, a diferença do atendimento se dá pelo dinheiro que a pessoa tem.
Comércio - Como a arte e a cultura desses lugares o tocaram?
Presotto - A arte sempre me empolgou muito, assim como a história (...). O arquiteto desconhece a arte que precede sua técnica. O médico dá a vacina, mas ele não sabe o quanto Pasteur sofreu para desenvolver seus estudos. Tudo tem uma história e um homem para poder viver na atualidade não precisa só conhecer o presente e tentar pensar no futuro. Não existe presente sem passado. Falta muito disso nas nossas escolas. Não é só apertar botão de computador, não, porque isso qualquer macaco faz. É preciso mais; é preciso ter cultura. Precisa pesquisar, precisa ler, precisa ir lá.
Comércio - Há quem diga que o alienado vive mais feliz, pois não tem olhos para as dores do mundo. Com base nisso, a filosofia e a arte o ajudam a fugir um pouco dessa realidade dura?
Presotto - Ajuda, claro. Um de meus gurus é Schopenhauer (Arthur, filósofo alemão - 1788/1860), que escreveu o livro cujo nome você falou, Dores do Mundo. O homem vai crescendo e deve cuidar do físico, da parte econômica e financeira, olhar pela família, mas não deve nunca descuidar dele próprio. Ele não pode descuidar de si para cuidar dos outros, para poder dar, para poder ajudar.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.