Na celebração eucarística de hoje, somos conduzidos pelo Espírito Santo para o encontro com Jesus. Como aconteceu com Nicodemos, nos recolhemos na sombra do silêncio que envolve o mistério da
comunidade reunida para a oração.
Pelos cantos e orações, no ouvir a Palavra e na prece eucarística, penetramos no sentido da liturgia. Ela nos apresenta o anúncio da paixão e da entrega de Jesus como prova do seu amor à humanidade. A primeira leitura é do 2º livro das Crônicas. O livro das Crônicas foi escrito depois do exílio da Babilônia.
Passaram-se mais de duzentos anos depois que Nabucodonosor, no ano de 587 a.C., destruiu a cidade de Jerusalém e mandou para o exílio os que escaparam da morte, reduzindo todos à escravidão.
Depois de muitos anos, os israelitas voltam à terra dos antepassados, porém algumas perguntas continuaram atravessadas na garganta: por que o povo foi castigado com uma desgraça tão grande? Por que Deus permitiu que o Templo e a cidade de Jerusalém fossem arrasados pelos inimigos?
A resposta é dada pelo autor do livro: tudo aconteceu por causa da infidelidade de Israel, dos chefes, dos sacerdotes e das lideranças. O Senhor amava o seu povo, enviava profetas para indicar-lhe o caminho do bem. Mas o povo não acolhia. Diante da crescente maldade, a interpretação feita foi que Deus irritou-se e a punição foi dolorosa e longa.
A segunda leitura é da Carta aos Efésios. Mostra que o homem sozinho não consegue livrar-se das situações embaraçosas e complicadas. Deus, contudo, em sua infinita misericórdia, vem ao seu encontro para libertá-lo, ou seja, o ressuscita em Cristo para uma vida nova.
O evangelho é um trecho escrito por São João. O evangelho fala da serpente de bronze erguida no deserto. Na penosa passagem pelo deserto, acontecia de tudo: o sol quente, a sede, a falta de alimentos, as murmurações, os desânimos, as críticas dos insatisfeitos e, para coroar a lista dos infortúnios, aparecem as serpentes que picam mortalmente as pessoas. Moisés desesperado dirige-se ao Senhor. Ele lhe manda erguer uma serpente num poste. As pessoas picadas deveriam olhar para a serpente para serem curadas. Parece algo muito mágico.
Jesus recupera essa imagem como sinal de tudo que lhe iria acontecer. Ele também será levantado numa cruz e todos que o contemplarem encontrarão a salvação para as suas vidas. Na prática, o que isso significa?
Olhar para Jesus "levantado" numa cruz significa crer nele. Crer nele significa acolher a mensagem que Ele, do alto da cruz, dirige a todos os homens: a única maneira de realizar a própria vida é doá-la por amor como Ele fez. Crer, numa palavra, é identificar a própria vida com a vida de Cristo, ou seja, vivê-la a serviço dos irmãos. Este é o único caminho para conseguir a salvação. Estando bem próximos da Páscoa, quais as lições oferecidas, neste domingo, para nós?
Do livro das Crônicas concluímos: a história de amor entre Deus e o homem nunca termina como uma condenação. Tal como aconteceu com os israelitas, o homem que se afasta de Deus mete-se em complicações e desajustes e torna-se escravo dos ídolos. Mas Deus nunca o abandona. Não há situações desastrosas nem forças resistentes que possam impedir o poder de seu amor misericordioso. Contudo é grande a responsabilidade do homem que, ao negar-se a seguir o caminho de Deus, se condena e se destrói.
Na carta aos Efésios, aparece claramente que não é o homem a causa da sua salvação por suas boas obras. As boas obras são uma resposta ao amor e à ação de Deus. São sinais que indicam que a graça de Deus conseguiu penetrar e produzir frutos no coração do homem e da comunidade. Nós nada fazemos para merecer a salvação.
As nossas ações maldosas nos trazem a condenação, mas Deus nos ama e salva gratuitamente. Do evangelho de hoje colhemos um ensinamento: é salvo quem tem a coragem de doar a sua vida como fez Jesus.
O julgamento não acontece só no final do mundo, mas já no hoje da história. Cada instante é tempo de salvação ou condenação. Depende da adesão a Cristo, pregado na cruz e ressuscitado.
As boas obras são a resposta ao carinho de Deus e opção pela verdade que é Cristo. Assim, a comunidade e o mundo veem que nossa conduta está de acordo com a vontade de Deus e com nossa condição de renascidos em Cristo, pela força do Espírito Santo.
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br
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