Atrás do picadeiro


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A casa tem exatos seis metros quadrados por uns dois de altura. Um banheiro com 50 centímetros de largura, mesa que vira cama, roupas espalhadas, televisão pequena com sinal de satélite. Há vasinhos de flor ancorados na parede, fruteira com abacates e bananas, cortina de renda, lustre no teto. Sobre rodas, acompanha os proprietários a reboque, aonde quer que vão. O trailer é da família de Nilton Rodrigo, com 21, e Aline Novais, 20, mais as crianças Lívia, 3, e Lavína, de 1 ano e meio. O sobrenome é Gatica Vidal, herdado do pai de Nilton, o portenho Carlos Octavio, 76, casado com Solange de Oliveira, 58, de Pirajuí, ao lado de Bauru. A história de Nilton, Aline, Lívia e Lavínia não existiria se Carlos não tivesse deixado Buenos Aires com o famoso Circo Garcia e decidido vir para o Brasil em 1963, conhecido Solange, com quem casou e teve quatro filhos. Um deles é Chuvisco, o palhaço magricela e agitado encarnado por Nilton todas as noites no picadeiro do circo Rakmer, de passagem por Franca e de onde partirá domingo, rumo a Uberaba. Em quase 50 anos, a família Gatica Vidal pouco conhece de outra realidade que não seja o mundo do circo. Os filhos de Solange e Carlos cresceram sob a lona, a ponto de os quatro terem seguido a profissão dos pais. Ela, que já foi partner e cantora, parou há um ano. Carlos, de fala tranquila e mansa, parou antes, cinco anos atrás, por causa de um câncer de próstata, mas não por causa das incontáveis quedas e ossos quebrados que colecionou em anos de trapézio. A casa-trailer em que vivem é o lar e o refúgio. Nada diferente do que qualquer família pretende para si ou qualquer pai quer para os filhos, apesar das dificuldades e das incertezas que cercam o dia-a-dia. Não é uma vida melhor nem pior, apenas diferente. O CIRCO Ao todo, perto de 50 pessoas trabalham para o circo Rakmer que, como outros tantos no Brasil, não consegue imaginar como será a próxima parada. Desde que a apresentação de animais, a maior atração dos circos, passou a ser proibida, a arrecadação despencou. “Não há palhaço que substitua um animal treinado, por mais engraçado que seja”, diz Jeferson Rakmer, dono da companhia e do maior trailer, montada menos de dois anos atrás. Uma das formas de cultura mais antigas do mundo sobrevive com dificuldades. Lotar as cadeiras e os camarotes é coisa que ficou na lembrança. Mas é pelo riso fácil, pelas brincadeiras ingênuas de Chuvisco e Nenê, pelo risco calculado do trapezista Miguel Vasquez, que também é adestrador dos poodles Jimmy e Nick, que o circo ainda atrai gente como o industrial José Reinaldo Barbosa, 54, cujas gargalhadas superavam em muito a dos filhos que o acompanhavam. “Aqui a gente volta a ser criança”. Mas Nilton diz que seus dias de Chuvisco estão contados. “O circo não tá muito legal, não, e eu preciso pensar no futuro das minhas meninas e da minha mulher”. Solange, a mãe, ao lado, afirmou nunca ter dito aos filhos o que fazer. “Se quiser sair, pode”, disse ela. “Eu já saí, me arrependi e voltei”. Carlos Octavio concorda com a cabeça. Nilton ficará nessa até os 25 anos, embora ainda não tenha ouvido a mulher sobre sua decisão.

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