Saber viver


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A vida, salvo melhor juízo, é feita de descobertas às quais nos deparamos na efêmera estrada existencial reservada a cada um. Inúmeras situações do dia-a-dia são capazes de demonstrar que o aprendizado é constante. Faz-nos refletir sobre coisas e hábitos bem simples, que parecem não ser de grande importância para que nos tornemos tão inteligentes, como julgamos ser. Das citações de Platão se extrai que “só sei que nada sei”; e isso pode representar muito bem a ideia do que somos, como meros atores postos no palco da vida, onde a cada um se confiou um papel segundo o acaso evolucionista; ou, indo mais além, conforme a predestinação criacionista. O desempenho humano está, porém, muito aquém de dominar os saberes, sejam eles os mais elevados e sublimes; sejam os mais medíocres e rasos. Neste processo de autoconhecimento descubro coisas que chegam a ser desconsertantes, de tão triviais. Pense, por exemplo, sobre o simples ato mecânico de respirar. Segundo estudiosos, um recém-nascido consegue fazê-lo corretamente usando o diafragma e ritmando a entrada e saída de ar nos pulmões. Para outros (e me incluo aqui), o estresse e a tensão acumulada fazem a respiração ficar cada vez mais curta e rápida, armazenando pouco ar, atrofiando aos poucos a capacidade pulmonar. Outra coisa que se percebe é o modo inadequado de “falar”. A tonalidade da voz vai se elevando à medida que o diálogo avança e quando se percebe, o som emitido está nas alturas batendo em decibéis insuportáveis para o interlocutor. Mais um ponto preocupante: a má alimentação. Vivemos um processo de “auto-flagelamento voluntário” e mastigamos tudo que nossos olhos gulosos desejam. E dá-lhe suco gástrico para auxiliar na digestão das verdadeiras “bombas” que deglutimos. Tal comportamento nos aproxima do avestruz; bicho de apetite insaciável e estômago de ferro. Parece-me ainda, que nos dias atuais o “racional” de algumas pessoas não vai muito bem. As cabeças andam perturbadas e intolerantes, deixando o resto do corpo tencionado. Basta prestar atenção nas reações nada fraternais entre pessoas, nas situações limites do cotidiano. Têm-se a nítida sensação de que estamos todos em um campo de batalha, disputando vaidades. Por fim: estamos nos transformando em seres “alcoólicos”. Esquecemo-nos de viver a vida de cara limpa. Sem ressaca ou más lembranças dos períodos alcoolizados é bem melhor. O pensador sempre esteve convicto de sua sentença “só sei que nada sei”. Ou seja, alguns de nós se esforçam em esquecer o que tem feito pela vida. Desperdiçamos a vida. Nos valemos de feitos nem um pouco virtuosos. Talvez já se aproxime o tempo de sabermos que não estamos sabendo viver. E fazer algo... Ricardo Gallo Veríssimo Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e deste jornal

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