Desde o último 17 de fevereiro – minha amiga escreve –, encontro-me num período especial de vida que ela chama de Inferno Astral. Tremi nas bases: segundo ela, nele permanecerei até o dia do meu aniversário.
Sem ser exatamente virgem, muito menos vestal, lá de cima do seu oráculo particular ela vaticina: serão trinta e um dias complicados, de muita tensão, de muitas mudanças, de muita ansiedade. Credo! Aliás, “credo!” é a expressão que muita gente usa quando assumo e me declaro amiga dela, mas não me importo... e até concordo quando avaliam que, no meio de muitas outras probabilidades muito mais interessantes, eu teria chance de escolher pessoas mais soltas, mais descomprometidas com a tristeza.
Dizem que ela é meio pesada para carregar, eu sei e concordo. Ela é baixo-astral, dizem e confirmo. Ela está sempre apontando o ruim, o amargo e a cica de tudo que acontece ao seu redor. Mas combinamos bem: ela vem com seu pote de ruindade, eu dou um jeito de quebrá-lo; ela começa a lamuriar, eu interrompo e lhe mostro o voo de um pássaro, dou uma gargalhada, aponto-lhe uma flor. Ela me olha, não sei se me entende, mas ainda continua gostando de mim. Ela lê Paulo Coelho e eu a perdoo. Eu garanto que Lindomar Castilho compôs Princesa pensando em mim e ela acredita... Respeitamos nossos limites e, na relação, temos bem definidas nossas próprias zonas de conforto onde somos autônomas, independentes, rainhas e aquela, só nossa, onde nos respeitamos e nos aceitamos exatamente do jeito (ruim) que somos... Fico tiririca quando comentam que a vassoura estremece quando ela passa perto, mas já vi isso acontecer, não posso negar.
Pensando bem, não foi dentro da circunscrição ditada pelas similaridades que aprendi sobre Amizade. Pelo contrário. Foi com as surpreendentes escolhas, seleções nada plausíveis, com as dessemelhanças elegidas que fui aos poucos entendendo que Amizade é sentimento deflagrado por milhões de razões, entre elas algumas de natureza absurda. E o mais bonito: embora dependa de duas pessoas para começar, na maioria das vezes admite ampliação para formar um grupo: basta que se tenha definido um propósito, um objetivo claro, contanto que seja comum.
Mas, dizia, ela escreveu para me passar medo... Segundo seus estudos, no período que antecede nosso aniversário sofremos grandes mudanças interiores marcadas por dores, desacomodação, desgastes, ansiedade. Esse período – na tradição astrológica chamado de Inferno Astral – é final de um ciclo e, como qualquer término de diferentes naturezas (fechamento de uma empresa, rompimento de um relacionamento, morte, fim da adolescência...) é tenso, embora seja sinal e estágio preparatório para o recomeço incipiente de uma nova fase. No caso, o aniversário marca o fim do caos e é o começo de um novo ciclo.
Até poético. Mas não, não acredito nisso, nessas resoluções astrológicas. Acredito no que quero acreditar; vejo o que quero ver; ouço o que quero ouvir; entendo o que quero entender: acho que isso se chama bom-senso e essas pré-determinações não são racionais, daí não acreditar nelas. Igualmente, não tenho predisposição para a negatividade e quando faço aniversário comemoro com alegria o final de mais uma volta pessoal em torno do Sol. Outra coisa, em termos de vaticínio, tenho uma certeza: paz e felicidade dependem direta e proporcionalmente de minhas próprias atitudes anteriores: o que plantei nos dias, meses e anos anteriores, sou e serei obrigada a colher, óbvio que os chineses veem afirmando há muito tempo.
<b>PERSPECTIVA</b>
Blota Júnior, advogado, locutor, apresentador e produtor de televisão mostrava-se excitado, eufórico e feliz na festa de aniversário de 60 anos. Questionado pelos amigos, que não viram essa mesma disposição na festa dos 50, explicou que quando chegou aos 50, entendeu que chegava à velhice da infância e que aos 60 dava início à infância da sua velhice. Ele nasceu a 3 de março de 1920 e faleceu em 22 de dezembro de 1999.
<b>FRALDAS</B>
Toda a programação da Globo é retransmitida para a Europa através de parcerias com emissoras de vários países, um deles, Angola, cujo idioma oficial é o Português com grandes, imensas e inimagináveis diferenças deste falado no Brasil. Claro, os comerciais são locais e um deles me fez engasgar. De susto. Um monte de crianças engatinhando daqui para lá, de lá para cá e ao som de uma voz feminina advertindo: ‘Fraldas Pampers, para que os rabinhos de seus putos fiquem sempre fresquinhos!’. Bonitinho, né?
<b>PIRATARIA</b>
Tempos que exigem repensar conceitos. Pirataria, por exemplo. No setor calçadista o que houve e há de cópia não está no gibi. Há empresas francanas que foram lá fora, copiaram até o nome do produto, lançaram-no aqui, fizeram o maior sucesso, fazendo-nos acreditar que eram, de fato, criações originais. Isso é o quê, exatamente? Ai você procura um filme, acha-o na Internet, disponível para ser gravado. Você o grava e vende a cópia. Onde está a pirataria nisso?
<b>REGISTRO </b>
Peço licença para registrar neste espaço o aniversário de Olga de Faria, a Veia, como é conhecida pelas gerações que ajudou a formar. Integridade, comprometimento, dedicação, força, coragem, disposição são os traços dessa pessoa que tanto admiramos e amamos. Professora de Educação Física, preparadora de ginastas de competição, seu nome está registrado não apenas na história esportiva de Franca, mas no coração de quem convive com ela.
<b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b>
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras -<i>luciahelena@comerciodafranca.com.br</i>
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