A pergunta que dá título a este texto foi o refrão utilizado pelo compositor Martinho da Vila para estruturar o samba enredo da Escola de Samba da Vila Isabel, no carnaval de 2010. O próprio autor, em diversas entrevistas, respondia dizendo: ‘pela vila, junto com a gente’.
Como se vê, o conceito de imortalidade está presente no pensamento popular e se revela em todas as manifestações culturais. O homem, no seu entender, não pode aceitar que tudo acabe ao final da vida material. É ilógico. É duvidar da Existência e da Sabedoria Divina. É anti-científico, contrário ao princípio da conservação da energia. Sem falar que, no sentimento religioso que se manifesta em toda a população, o conceito da imortalidade permeia lendas, crenças, tradições, etc. Por isso, tem muito cabimento a pergunta do sambista: ‘Por onde anda Noel?’.
O Espiritismo, doutrina espiritualista que admite a continuidade da vida após a morte, nos ensina que, após a passagem do espírito pelo corpo, este, terminada a vida material, ascende à vida espiritual, procurando as regiões compatíveis com seu estágio evolutivo. Mas continua ele mesmo. A chamada morte não transforma ninguém. Nem em santo, nem em demônio. Somos nós mesmos perante a própria consciência, que nos mostrará onde erramos e onde acertamos. O que deve ser aproveitado no nosso caminho evolutivo e que deve ser abandonado, por prejudicial.
Entretanto – repetimos –, somos nós mesmos! Com nossos vícios e nossas virtudes, com as nossas derrotas e as nossas vitórias. Com nossos amores e nossos desamores. Continuamos a gostar das pessoas, dos lugares, das atividades que exercíamos com prazer, quando participantes da vida material. Por isso, o espírito permanece vinculado aos lugares que frequentou, os ambientes a que se acostumara, ligado às pessoas que amou. E se continua a amar as pessoas por que não pode se aproximar delas? Podendo aproximar-se, por que não pode entrar em contato com elas? Transmitir-lhes suas notícias, suas emoções? E esta vinculação será tanto mais demorada quanto mais apegado estiver o espírito nos valores materiais. Um espírito mais emancipado logo procurará outros planos, outros ambientes, dando continuidade ao trabalho que se deve realizar na grande obra da Criação.
Aqueles que ainda se comprazem com as motivações terrenas, sentem intensamente as homenagens que lhes são prestadas. Vibram, quando recebem a manifestação carinhosa das pessoas.
É o caso do ‘Poeta da Vila’, Noel Rosa! Certamente que se sensibiliza com a lembrança feita pelo outro poeta, Martinho da Vila. Agora que se comemora o centenário do nascimento de Noel, indubitavelmente que ele está atraído pela manifestação popular. Está sentindo as emoções sinceras, as alegrias puras do povo simples da Vila. E, está presente, como disse Martinho da Vila, participando das comemorações da comunidade. Até porque, muito do que ali se faz, pode ser de sua inspiração. Ele mesmo que, psicografando uma música, assim se expressou: ‘Pois, a malandro velho se ensina evangelho com samba canção’.
Felipe Salomão
Bacharel em Ciências Sociais e diretor do Instituto de Divulgação Espírita de Franca (IDEFRAN)
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