Dias longos, anos curtos


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O momento exato da compreensão, não sabemos. Os indícios são sutis e delicados, como se delicadamente nos preparassem para a interiorização e aceitação da descoberta. A dificuldade de usar um salto bem alto, pensando bem, talvez seja o primeiro clarão. De repente pegamos um par de sapatos de verniz vermelho com evidências de uso, salto agulha com bem mais de sete centímetros e meio e damos risada imaginando como ‘conseguíamos’ equilibrar em cima deles. No instante em que usamos o verbo no passado, dá o gelo na espinha e a sensação de que algo nos fugiu do controle. Então percebemos: há algum tempo fizemos opção pelo conforto. Depois, olhando par por par, observamos que sete entre dez são baixinhos: a mudança foi lenta, a ponto de ser imperceptível. Abatidas, constatamos a semelhança da nossa, com a sapateira das nossas avós... Apavoradas, como se tivéssemos perdido alguma coisa muito importante, vamos correndo ao guarda-roupas. De repente, sentimos falta. Cadê as saias mais curtas? Cadê os decotes? Cadê os vermelhos, os estampados, os coloridos? Respirando curto, boca seca, percebemos certa horrível e indesejada sobriedade nas preferências. Tudo bem, justificamos, muito antes da imperiosa moda do pretinho básico pela manhã, à tarde e também à noite, essa tendência já manifestáramos desde meninas. Nada errado com nossas roupas em termos de cor, que continuam quase totalmente escuras. Mas no corte... quanta diferença! De repente, nos damos conta: ficaríamos embaraçadas se o ginecologista perguntasse o mês da última menstruação - esquecemos até o ano. Com a suspensão da produção hormonal que nos dava certo equilíbrio em tudo, começaram as perdas - algumas parciais, outras totais: do viço da pele, dos contornos do rosto, da quantidade de cabelos, da libido, dos pés-de-galinha em torno dos olhos. Em contrapartida, também os ganhos - alguns parciais e outros totais: dos quilos a mais, da barriguinha, dos efeitos da força da gravidade atuando em vários pontos do corpo. De repente, o desânimo e o medo. A queda vertiginosa no abismo da velhice parece iminente. Sem os saltos altos, sem o desembaraço da juventude, sem nossa auto-permissão para ousar - e errar se for o caso - eis-nos caindo na conformidade dos parâmetros maternos. Olha a gente virando a mãe da gente... Também de repente a lamentosa musiquinha de fundo destas revelações é interrompida. Depois do profundo silêncio, o raciocínio lógico vai voltando. E aí percebemos o outro lado da situação. Perdas, ganhos ... e desde quando a vida é um jogo? O que há de errado com nossa inteligência que sempre soube definir o ser humano como um organismo vivo que nasce, cresce, reproduz, envelhece e morre? Qual o problema em estar nessa fase da trajetória que cumprimos até com bastante eficiência? E aí, também de repente, o início da percepção do valor da maturidade: chegamos a um invejável patamar de qualidade de vida. Começa que aprendemos a discernir o já e o ainda. Já fomos jovens; já fizemos besteiras; já gastamos horas sem proveito achando que o pote não tinha fim. Já esbanjamos saúde; malbaratamos afetos; já desaproveitamos tempo e, tristeza, já compreendemos o sentido de irreversibilidade em muitos aspectos. Porém ainda temos condições de consertar alguns estragos; ainda temos o direito de ir e vir - que esbanjamos; ainda olhamos pela janela com esperança de ver o dia amanhecer. Ainda sonhamos com o amanhã; ainda temos saúde que nos permite planejar o futuro. Ainda amamos - e sabemos amar. Nesse momento maravilhoso alcançamos a compreensão de que já é apenas vantagem, e ainda é continuidade. É privilégio. Mais adiante dirão que somos teimosos, mas ninguém pode mais nos obrigar a nada. Logo, logo, nossa auto-estima sofrerá baques contundentes, mas teremos discernimento suficiente para superá-los. Já, já, perceberemos a inutilidade de recusar o assento reservado aos mais velhos, olhando feio quem ofereceu: melhor aproveitar a oportunidade. Numa hora próxima perderemos a vontade de disfarçar a chegada da terceira idade e deixaremos de insistir em usar fantasia de ‘filha’ quando já somos avós. Depois da força da Primavera, do calor do Verão, do conforto do Outono, hoje, nesse momento de transição, a gente consegue olhar para trás e concluir que se muitos dos dias vividos foram longos, os anos foram curtos. Bem que podiam ter demorado mais. <b>ASPAS </b> ‘A verdadeira arte de viver talvez seja tentar ser o que você é, o que naturalmente é muito difícil” (Domingos de Oliveira). <b>INDELICADEZA</b> A música mais deprimente para qualquer mulher que não se encontra mais no esplendor da juventude é a Panela Velha, referência a uma mulher ‘madura que já tem mais de trinta anos’, diz a letra. E ainda há quem cante (e dedique a canção) como se estivesse homenageando a ‘muito coroa’. <b>ENCERRANDO </b> ‘Esses moços pobres moços... Ah! Se soubessem o que eu sei! Não amavam, não passavam aquilo que eu já passei. Por meus olhos, por meus sonhos, por meu sangue, tudo enfim, é que eu peço a esses moços que acreditem em mim. Se eles julgam que a um lindo futuro só o amor nesta vida conduz, saibam que deixam o céu por ser escuro e vão ao inferno à procura de luz. Eu também tive nos meus belos dias essa mania que muito me custou. E só as mágoas eu trago hoje em dia e essas rugas o amor me deixou!’ (Lupicínio Rodrigues, Esses Moços, uma das minhas Cem Músicas.) <b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b> <i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i> luciahelena@comerciodafranca.com.br

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