O erotismo sempre foi o ingrediente maior do Carnaval. A provocação começa pela pouca roupa das passistas até chegar aos movimentos reveladores. Aproveitando o momento, principalmente para quem aprecia a beleza e as reentrâncias da língua portuguesa, eis a paródia de uma narrativa de autoria desconhecida, que circula na internet.
Era um substantivo próprio, masculino, maiúsculo e plural, pois já se ligara a variadas preposições. Num período composto por carnaval, surgiu aquela interjeição apelativa. Encontraram-se pela vez primeira no térreo de um ponto de exclamação. Não teve jeito! Entraram juntos no elevador.
O substantivo, com seus vícios de linguagem e seus textos ortográficos, de cara curtiu a situação: os dois ali sozinhos, sem ninguém para ver ou ouvir. Sem perder tempo, declinou algumas interrogações, puxando verbalmente uma conversa. A interjeição deixou as reticências de lado e permitiu um pequeno índice remissivo.
De repente, o elevador parou. O substantivo bateu cabeça e conseguiu alguns sinônimos. Daí a pouco, já estavam praticamente entre parênteses, quando o elevador recomeça a movimentação. Em vez de descer, sobe até o andar do substantivo. Ele encena uma flexão verbal só para levar a interjeição ao seu aposto. Lá, ouvem uma fonética clássica, tomam uma sintaxe simples, acompanhada de um hiato com gelo.
Conversa vai, conversa vem, sentados no acento circunflexo, ele volta a se insinuar. Ela foi deixando, sentia aquele adjunto adverbial, sem vírgula. Toda oxítona, viu-se diante do imperativo de um transitivo direto. Virou agente da passiva perante a voz ativa daquele substantivo. Estavam sem pontuação nenhuma, na posição de primeira para segunda pessoa do singular, quase em ênclise. A interjeição já soltava exclamações de regozijo!
Nisso, abriram a porta. Não foi um sujeito indeterminado. Era o verbo auxiliar do edifício. Não usou vocativo e entrou distribuindo adjetivos e numerais nos dois.
Eles se encolheram num travessão, cheios de conjunções e locuções. Ao ver a interjeição de corpo tão jovem, com curvas tônicas e átonas, o verbo auxiliar mudou a acentuação e propôs um particípio na trama.
O substantivo e a interjeição entreolharam-se. Para evitar uma metáfora por todo edifício, aceitaram. O verbo auxiliar mostrou logo o seu predicativo, que mais parecia um objeto direto. Nem pensou em ditongo decrescente, pois tinha fixação na mesóclise, com base no tritongo.
Ainda impôs condições. Não haveria som oral, muito menos nasal. Iria diretamente ao gerúndio e depois penetraria no infinitivo pessoal.
Ao ver que acabaria por se transformar num artigo indefinido, o substantivo resolveu pegar o verbo auxiliar pelo conectivo e o jogou janela afora. E, como não havia mais clímax para voltar ao trema da interjeição, colocou o ponto final na história.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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