A evolução de produtos na indústria de calçados passou e passa por diversos estágios. Já ultrapassamos o estágio de qualidade, estamos superando a fase do conforto e estamos nos encaminhando para a fase da saúde dos pés dos consumidores.
Cada vez mais a ciência está acompanhando a experiência pragmática dos sapateiros e o embasamento científico da produção de calçados está se refletindo em cada vez maior obediência aos mandamentos da anatomia e da biomecânica. Será que ainda hoje algum balconista tem coragem de dizer ao cliente que se queixa que o calçado tem um calce meio apertado, que com o uso o calçado vai `lacear`? Há trinta anos, isso era comum. É verdade, que há uma faixa entre 60 a 65 por cento dos consumidores que podem calçar, com relativo conforto, calçado feito na forma comum e que o resto da população irá sentir em grau menor ou maior um certo desconforto, mas mesmo assim, com uso de palmilhas pré-moldadas, calçados acolchoados com espuma e outras técnicas para maximizar o conforto, calçar um calçado novo pode ser tão confortável como aquele par `laceado` durante anos de uso.
Fatores que contribuem para o conforto são numerosos. Podemos enumerar necessidades biomecânicas, propriedades físicas do cabedal, propriedades termo-fisiológicas, peso, rigidez ou flexibilidade, absorção de choques, contorno da palmilha e tipo de construção do calçado.Relativamente pouca atenção tem sido dedicada pelos nossos curtidores e produtores de calçados para o aspecto termo-fisiológico. Muitos calçados poderiam levar o apelido de `micro-ondas` pelo desconforto que causam pelo calor excessivo e não absorção da umidade exsudada pelos pés. De pouca valia é o uso de forro de couro acabado com polímeros que transformam a propriedade do couro de absorver a umidade e transferi-la para a atmosfera, igual a um plástico comum.
E, pela tecnologia cabocla, que capricha em aplicar cola em abundância para colar este couro-sintético sobre o couro genuíno de cabedal, o último vestígio da natureza do couro vai para o espaço. A cola cria uma camada isolante onde a umidade é impedida de ser absorvida. A umidade criada pelos pés fica presa dentro do calçado, quando seria de toda conveniência que fosse despachada para o espaço através da porosidade do couro.
Como é fácil deduzir, com os requisitos apontados (e que podem ser estendidos para bastante mais), não é fácil de atender ao conforto integral que possa satisfazer o maior número possível dos compradores. A indústria se esforça e muito para que o conforto esteja atingido no seu grau máximo, mas os resultados nos mostram, que isso nem sempre é fácil e nem sempre é conseguido.
Os aspectos ergonômicos seguem outros critérios, mas são da mesma importância, mormente quando se trata de calçado profissional, ou de uso diário por longas horas, pelos profissionais que trabalham em pé ou são forçados a caminhar bastante, ou para o calçado de desempenho desportivo, usado para corridas ou caminhadas.
Há algumas semanas publiquei artigo sobre a importância da correta altura do salto para a postura saudável do corpo e para facilitar o ato de caminhar. Os mesmos critérios são válidos para aspectos ergonômicos, acrescidos da importância da flexibilidade do cabedal e, mais ainda, da baixa rigidez de sola. Com os materiais disponíveis, hoje temos uma série de opções para produzir solados ergonômicos que vão ajudar na eliminação da fadiga precoce, bem como ajudar no andar ergonomicamente impecável.
Como atingir a máxima perfeição possível? Existe um único caminho que, infelizmente, não é seguido por praticamente nenhuma indústria. O caminho poderia ser descrito como: (1) Obediência absoluta aos mandamentos anatômicos mas, infelizmente, poucos são os produtores de formas que tem conhecimentos suficiente da anatomia e da bio-mecânica do pé. (2) Escolha cuidadosa de materiais sob todos os aspectos pertinentes ao conforto, principalmente ao conforto térmico. (3) Aplicar tecnologia que respeite estes requisitos. (4) Testes práticos sobre esteiras rolantes, com observação de deformações que o calçado sofre no ato de caminhar. A prática usual de aprovação de forma, modelo, solado ou material, onde a pessoa escolhida a dedo dá alguns passos e declara que o calçado calça bem, é risível e pouco compatível com métodos do terceiro milênio.
Repito, estamos saindo do estágio evolutivo de simples conforto para o estágio de conforto aliado à saúde do pé e, por tabela, do corpo inteiro. E quanto mais cedo isso seja compreendido, aceito e posto em prática, tanto melhor para saúde, tanto dos pés como das empresas.
<b>UM DOS PIORES ANOS</b>
A Associação Espanhola de Componentes e Máquinas para Calçados (AEC) declarou que o ano de 2009 foi um dos piores anos do setor, principalmente devido aos efeitos da crise econômica e financeira na Espanha. O diretor geral da AEC, Álvaro Sánchez, disse que a produção espanhola de calçados declinou o que prejudicou a venda de componentes e de máquinas e que a situação de alguns associados era tão séria que temiam não poder funcionar mais, devido à falta do capital e falta de cooperação dos institutos de crédito.
<b>MENOS CALÇADOS E ARTIGOS DE COURO</b>
O jornal parisiense Le Figaro, citando a agência Eurostaf, disse que o setor de artigos de luxo teve um crescimento de 7,5% ao ano entre 2003 a 2007, mas que em 2008 o crescimento caiu para 0,3%. Espera-se que o ano de 2009 terá um resultado negativo. O setor de calçados ou de artigos de couro de alto luxo, incluindo Louis Vuitton, Gucci, Hermes e similares sofrerá bem menos que os setores de champagne, relógios, jóias e louças caras.
<b>Zdenek Pracuch</b>
<i>Sapateiro, shoemaker</i>
pracuch@comerciodafranca.com.br
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