<b>Priscilla Sales</b>
<i>Editora do Local</i>
<b>Irinéa Donizete</b>
<i>da Redação</i>
Na madrugada deste sábado, a dura realidade dos moradores do subsolo do prédio inacabado da Avenida Major Nicácio, ganhou, pelo segundo dia seguido, contornos de violência. Oito, das doze pessoas que sobrevivem ali, afirmam ter sido surpreendidas e agredidas por policiais militares. O saldo: um rapaz de 18 anos com o solado de uma bota militar desenhado com marcas de vergões no pescoço e um corte profundo na cabeça, um jovem de 25 anos com os braços tomados por escoriações ainda sangrando e um senhor de 41 anos com pelo menos três grandes hematomas que lembram o formato de um cassetete nas costas. Nos demais, escoriações e vergões se espalham pelo corpo.
Segundo os moradores, eram por volta das 4 horas deste sábado quando cinco viaturas da Polícia Militar pararam em frente ao local. Os policiais desceram dos veículos e, segundo os relatos, sem qualquer aviso prévio, invadiram o “piscinão”, onde as oito pessoas dormiam. “Acordei com uma pancada na cabeça dos policiais. Isso não é vida para ninguém. Ninguém merece sofrer isso”, disse o rapaz de 18 anos, que na manhã de sábado trazia marcas em seu corpo.
As agressões, segundo os moradores, duraram cerca de 15 minutos. “Foi um pesadelo. Só ouvíamos os gritos e sentíamos a dor das pancadas. Depois, os caras saíram e nem olharam pra trás. Deixaram a gente aqui, caído no chão. Estava tão escuro, que nem deu para ver quantos eram”, disse o senhor de 41 anos. “Só conseguimos descobrir o número de viaturas porque um dos nossos amigos estava na pracinha aqui em frente quando viu os caras (policiais) chegarem”.
Feridas e com medo de novos ataques, as pessoas não procuraram a polícia para registrar a ocorrência, que só foi descoberta com a visita do novo bispo de Franca, Pedro Luiz Stringhini, ao local, na manhã deste sábado.
Esta não foi a primeira vez que o grupo que mora no buraco da Major Nicácio se diz vítima de agressões por parte da PM. “Só nesta semana, foi a terceira vez. Eles entram, batem na gente e saem como se não tivessem feito nada. A gente não está mais agüentando tanta pancadaria”, disse o senhor de 41 anos.
Para o novo bispo, a polícia deveria ajudar na segurança dos seres humanos que estão tão fragilizados. “É preciso apurar quem foram os responsáveis por estas agressões. Se forem mesmo policiais, como os moradores afirmam, acho lamentável”, disse o bispo ao ouvir relatos e ver as marcas mostradas pelas vítimas.
<b>O CAPITÃO</b>
Ao tomar conhecimento das denúncias, o comandante do 15º Batalhão da Polícia Militar, em Franca, coronel João Paulo Macedo Brandão Júnior, se mostrou preocupado. “Nenhum policial militar pode entrar naquele espaço porque se trata de propriedade particular. Necessitaríamos de mandado judicial para fazer isso. Como não o temos, não há orientação ou determinação de operação no interior do imóvel. Se houve essa invasão por parte de policiais, isso me preocupa e precisa ser averiguado com cuidado”.
O comandante da Polícia Militar deve instaurar uma investigação preliminar para saber o que houve na madrugada deste sábado e nas outras ocasiões em que os moradores afirmam ter sido agredidos por policiais.
Para que haja total isenção nas apurações do processo investigatório, o coronel deve pedir ajuda à OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). “Não tomaremos os depoimentos dos moradores. Pediremos à OAB para evitar que se afirme que depoimentos possam ter sido conseguidos sob pressão ou constrangimento. A OAB também deverá acompanhar os exames de corpo de delito e os depoimentos internos que o comando da PM fará”.
<i>Colaborou Luiz Neto, editor de Opinião</i>
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