A história que o Comércio trouxe à tona na última quinta-feira mexeu com a cidade. O drama de doze pessoas que vivem em condições sub-humanas num prédio abandonado e inacabado da Major Nicácio suscitou manifestações de centenas de leitores indignados com a situação. Os moradores, todos viciados em drogas, moram num ambiente fétido, alagado e cheio de lixo. Por parte de muitas das autoridades que poderiam de alguma forma tentar modificar essa dramática situação, no entanto, as manifestações se limitaram a muitos lamentos e pouca ação. A maioria lavou as mãos para o destino dos moradores, que continuam sem assistência. A única ação efetiva partiu do bispo Dom Pedro Luiz Stringuini que acabou de chegar à cidade. Ele visitou o grupo, foi conhecer a situação de perto, levou uma palavra de consolo e prometeu estudar uma forma de ajudar.
Em meio à inoperância das demais autoridades, nunca é demais lembrar que no buraco estão homens e mulheres que até a última quinta-feira sequer se atreviam a esperar qualquer ajuda, por mínima que fosse. Agora que deixaram de ser invisíveis, entendem que suas vidas não são como lixo descartável. Manifestam, ainda timidamente, querer emergir. O primeiro grito foi contra a violência da qual relatam que são vítimas rotineiras. Ainda é um som abafado e que muitos teimam em não ouvir. Começam a acreditar também que podem conseguir mudar de vida. Alguns ousam até a sonhar. Se livrar do vício das drogas e alcançar um espaço no mundo dos vivos, deixando o universo dos moribundos, é desejo que se faz presente. É exatamente assim que se sente o “sonhador”. Aos 19 anos, despertado para sua própria existência, clama por uma chance: “Quero muito mudar de vida”, é o que consegue balbuciar. Ao ser ouvido, descobre que tem voz. Esquece por alguns momentos a dor dos hematomas espalhados pelo corpo e fala de si.
<b>Comércio - Como você chegou até o crack pela primeira vez?</b>
<b>Sonhador</b> - Peguei da mão de um amigo. Foi só para experimentar. Quando vi... não conseguia mais parar.
<b>Comércio - Quais foram as primeiras sensações que você teve com a droga?</b>
<b>Sonhador</b> - Não tem como explicar. Mas se eu soubesse que seria assim, tinha recusado na primeira vez que aceitei.
<b>Comércio - Depois que você experimentou, quanto tempo demorou para se tornar um viciado?</b>
<b>Sonhador</b> - Foi muito rápido. Em um mês virei minha vida de cabeça para baixo.
<b>Comércio - Por que decidiu vir morar aqui?</b>
<b>Sonhador</b> - Não podia ficar em casa com a minha mãe e meus irmãos que não tem nada haver com meus problemas. Vim para ficar perto do meu pai (chora). Eu estou matando minha mãe de tristeza. Ela não aceita meu sofrimento.
<b>Comércio - Quais são seus planos? Qual é seu desejo?</b>
<b>Sonhador</b> - Quero me regenerar. Eu tenho um filho de dois anos (...) queria poder ficar perto dele. Ao invés de eu ficar aqui levando paulada de polícia eu quero poder ficar com a minha mãe, meu filho e reconquistar a minha ex-namorada que eu quero que seja a mãe dos meus próximos filhos (chora).
<b>Comércio - Você ainda mantém contato com a sua ex-namorada?</b>
<b>Sonhador</b> - Quando ela passa por aqui e me vê eu fico com muita vergonha. Mas eu tenho fé e vou mudar isso.
<b>Comércio - Você já tentou se livrar do vício?</b>
<b>Sonhador</b> - Sim, mas deu um minuto de fraqueza e eu voltei. Por isso eu preciso de ajuda.
<b>Comércio - Você tem alguma passagem pela policia?</b>
<b>Sonhador</b> - Não. Já tentaram me forjar de várias maneiras. Eu só quero entender o motivo que eles agridem tanto a gente. Só porque eu sou menino de rua?
<b>Comércio - O que você que poderia ajudá-lo a sair dessa vida?</b>
<b>Sonhador</b> - Quero ir para uma clínica de reabilitação. Você me ajuda? Quero muito mudar de vida.
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