Vidas descartáveis


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<b>MEU DOMICÍLIO</b> - Em meio ao lixo, jovem morador mostra caixote onde guarda panelas e os tijolos usados como fogão
<b>MEU DOMICÍLIO</b> - Em meio ao lixo, jovem morador mostra caixote onde guarda panelas e os tijolos usados como fogão
<i>Joelma Ospedal</i> <b>Editora chefe</b> <i>Irinéa Donizete</i> <b>da Redação</b> No dia da publicação de uma reportagem que provocou reações distintas na cidade - intensa e espontânea de algumas centenas de leitores que se manifestaram através de e-mails e telefonemas, praticamente nenhuma das autoridades consultadas - a sensação na caverna (o subsolo do prédio inacabado da Major Nicácio) é de apreensão. Os moradores que ocupam o lugar há anos têm agora medo de perder o quase nada que lhes serve de abrigo. Receiam ainda agressões da polícia. E se preocupam com a possibilidade de que a população, despertada para sua existência, fique contra eles e, de uma hora para outra, cesse a pouca ajuda que lhes reserva. “As pessoas não precisam ter medo da gente”, suplica um dos residentes permanentes do buraco. Os temores não parecem despropositados. Todas as autoridades que poderiam de alguma forma atuar para tentar modificar a dramática situação em que se encontra aquele grupo de pessoas limitaram-se a lacônicos lamentos e inúteis pesares. O prefeito da cidade, Sidnei Rocha, recusou-se a qualquer pronunciamento pessoal. Através de sua assessoria disse apenas que existe um processo na Justiça e que “a prefeitura não pode fazer nada sobre o assunto”. Seu secretário de Desenvolvimento Humano e Ação Social, Roberto Nunes Rocha, declarou-se “tocado” por todas as histórias retratadas na edição de ontem do Comércio, mas descartou qualquer perspectiva minimamente otimista. “Não podemos entrar no local para tirar as pessoas dali ou fazer uma limpeza. Ficamos muito limitados (...)”. A secretária de Obras, Valéria Marson, apenas relatou que a prefeitura pode fazer pouco, uma vez que o processo judicial sobre o prédio ainda está em andamento. O secretário da Saúde, Alexandre Ferreira, preferiu transferir a responsabilidade para seu colega do Desenvolvimento Humano e Ação Social. O mesmo que disse nada poder fazer. O capitão da Polícia Militar, Lídio Guariglia Costa Júnior, disse que só atua em caso de risco à população, excluindo, aparentemente sem perceber, os moradores dos escombros do grupo de cidadãos. O promotor da Habitação, Carlos Henrique Gasparoto, através de sua assessoria, disse que o processo referente àquela obra, movido pelo Ministério Público, foi arquivado há anos e, agora, foi reaberto. Nenhuma palavra adicional. O juiz da Vara da Infância e Juventude, José Rodrigues Arimatéa, avisou que só falaria depois do envio de um e-mail que formalizasse o agendamento de uma entrevista. O novo bispo de Franca, Dom Pedro Luiz Stringhini, recém chegado à cidade e que tem nos excluídos seu foco declarado de ação, não foi encontrado para se pronunciar. Por enquanto, a única medida apresentada tem eficácia duvidosa. Antônio Carlos Martins Ribeiro, diretor da Habitat Construções, empresa juridicamente responsável pela obra, promete demolir os escombros que estão lá há mais de uma década. Se levada a cabo, a medida, um tanto quanto tardia, terá como conseqüência provável uma versão francana da diáspora (dispersão dos judeus pelo mundo depois da destruição de Jerusalém, em 135 d.C). Vai espalhar o grupo - que além dos 12 moradores fixos, reúne outros tantos eventuais - por toda a cidade, sem que nenhum apoio ou suporte seja ofertado a eles. Numa Franca onde autoridades lavam as mãos para o destino de algumas dezenas de vidas, um buraco sujo e fétido segue como única opção de abrigo para quem não tem esperança de nada. Nem mesmo de despertar compaixão em pessoas que, bem mais afortunadas, poderiam, ainda que de forma limitada, agir para tentar transformar a realidade dramática desse grupo. Na rotina do buraco, a vida segue no limbo. “Não tem ninguém para olhar por nós”, profetiza um outro morador dos escombros, como se tivesse acompanhado o périplo da equipe de reportagem durante toda a quinta-feira em busca de uma posição oficial das autoridades municipais. Os habitantes da caverna não estão mortos - ainda - para serem esquecidos, nem têm vidas tidas como relevantes a ponto de serem consideradas por quem podia lhes estender as mãos. São um incômodo que a maioria preferiria ignorar. É inútil. Eles existem. <b>AS AUTORIDADES</B> <I>"Não posso fazer nada enquanto o juiz não deliberar o que pode ser feito na área. Sempre intimamos eles (grupo Habitat). Devem fechar a área. Agora, a Vigilância Sanitária pode entrar no caso (sobre a sujeira do local)” </I> <b>Valéria Marson, Secretária Municipal</b> <i>"Quem tem de tirar as pessoas dali, ver quem são e trabalhar com elas é o pessoal da Ação Social. Moradores de rua são com eles. Sobre o terreno sujo, eu não posso multar o proprietário por uma coisa que não foi ele quem deu a causa"</i> <b>Alexandre Ferreira, Secretário de Saúde</b> <i>"Não podemos entrar no local (subsolo do prédio inacabado na Avenida Major Nicácio) para tirar as pessoas dali ou fazer uma limpeza. Então o que a gente faz? Ficamos muito limitados na questão da solução deste problema"</i> <b>Roberto Nunes Rocha, Secretário de Desenvolvimento Humano e Ação Social</b> <i>“Em tese, eles são apenas pessoas que optaram viver de maneira diferente das demais. A PM só pode dar suporte a qualquer tipo de ação do poder público. Qualquer tipo de ação policial que resulte em força excessiva, ela é objeto de apuração”</i> <b>Capitão Lídio Costa, Coordenador do 15º Batalhão da PM</b> <i>"Vamos expulsá-los de lá (os moradores de rua) quantas vezes for necessário. É uma propriedade particular. A pessoa ficar debaixo de um pontilhão, é diferente. Ali (no pontilhão) não tem dono. Lá onde eles estão tem dono e eles não podem ficar"</i> <b>Antônio Carlos Martins Ribeiro, Diretor do Grupo Habitat</b> O promotor disse, através do oficial Roberto Utsunomya, que o processo movido pelo MP, referente ao “piscinão”, foi arquivado há anos. Por conta da repercussão da matéria e dos problemas que vão além da estrutura física do que seria um prédio, ele será aberto novamente <b>Carlos Henrique Gasparoto, Promotor de Justiça</b>

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