O espírito do Carnaval


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Dentre minhas boas lembranças de infância está a convivência familiar na varanda onde minha mãe fazia seus bolos de encomendas. Meu pai, sentado no degrau da escada, ligava o rádio transistorizado e segurava o fio-terra para melhorar a transmissão. A gente ficava por ali, sob vigilância, brincando e ouvindo os programas de final de semana da Rádio Nacional, que apresentava as marchinhas do carnaval quando ele se aproximava. Tinha concurso e, como hoje, nem sempre a favorita era a campeã. Tínhamos preferências com relação a músicas e artistas: `a minha, a sua, a nossa favorita` Emilinha Borba - a Favorita da Marinha - já entrava com os aplausos da família inteira. Cantávamos com ela Chiquita Bacana, Pó de Mico, Com jeito vai... Meu pai tinha uma quedinha pela Marlene: mas dela eu só gostava mesmo de Lata D`Água e nunca soube que ela fora a única cantora brasileira a se apresentar no Olympia, em Paris, levada por Edith Piaf que lhe reconheceu o valor... Minha mãe chegava às lágrimas ouvindo Dalva de Oliveira cantar Bandeira Branca... Eu não chorava porque não entendia o sentido da música, nunca havia sofrido uma desilusão amorosa, não sabia o que era tristeza ou saudade. Obediente à tradição familiar, sempre gostei de carnaval. Numa época em que o divertimento em dançar da moça estava subordinado à sua escolha por um rapaz - e nem sempre ela era escolhida por quem queria - era muito bom entrar num salão e ficar livre para ir e vir. Aliás, ficar livre, pra mim, sempre foi sinônimo de alegria... Já perdi um monte de namorados nessa época e achei outros, o dobro daqueles. Sinto saudade de entrar num salão fingindo ser uma odalisca, a mulher do pirata, a dançarina espanhola, uma havaiana, anjinho com asas e tudo. Fantasio um salão feericamente decorado com brilhos metálicos, coloridos, uma orquestra tocando marchas, marchinhas e sambinhas... Imagino serpentinas cortando minha frente, confetes sendo jogados como homenagem, sinto o cheiro de lança-perfumes no ar e o arrepio gelado de seu líquido nas minhas costas... e aí acordo: isso não existe mais. Imprimindo uma cadência mais lenta, cantei marchas de carnaval para embalar os filhos. Cantei até para os netos. Ficava engraçado cantar como se fosse uma berceuse, a música que Zéca Baleiro ressuscitou: `Eu sou o pirata da perna de pau, do olho de vidro, da cara de mau. Minha galera, dos verdes mares não teme o tufão; minha galera só tem garotas na guarnição. Por isso, se outro pirata tenta abordagem eu pego o facão e grito, do alto da proa: Opa! Homem, não!`. Melhor que cantar boi da cara preta, né não? Não. O carnaval não é invenção brasileira. Não. O carnaval não é festa pagã, obedece ao calendário cristão e foi instituído pela Igreja Católica. Não. O carnaval não dura quatro dias: na verdade são três, os que antecedem a quarta-feira de cinzas (felizmente ampliados para quatro e para quarenta, na Bahia). Não. O carnaval não é modelo estático. Evoluiu, modificou, transformou-se ao longo do tempo e nos diversos lugares onde é comemorado. Não, não serviu de modelo para a política brasileira: é levado muito a sério por quem participa de suas manifestações. Lá um belo dia lá pelo século XI, a Igreja Católica, que já implicava com a alegria, com a felicidade alheias, inventou mais quarenta dias de tristeza - a Quaresma, anunciada como período de privações, de continências, abstrações de prazeres, castidade, constringência e constrição. Nada mais natural que os dias que antecediam essa perspectiva sombria de ausência de lazer e prazer, fossem de farra absoluta. Dias da festança do adeus à carne - carne vale - expressão que evoluiu para carnavale, pulinho para carnaval... Período de brincadeiras populares, não sei se aquelas de jogar xixi e farinha nas pessoas. Em contraste com os outros subsequentes, de sombra e tédio, privação e penitência, estes seriam dias que concentrariam atividades ligadas ao prazer e à alegria - dias `gordos`, dos quais nossa terça-feira ainda mantém o aposto... Encontro aqui nestas explicações a justificativa para a inspiração do autor, nos versos `é hoje que eu vou pra farra, ninguém me agarra, eu vou me acabar`. Ninguém se acabou. O que acabou foi o espírito do carnaval de antigamente. Infelizmente, aliás. <b>CARNAVAL</b> O modelo carnavalesco adotado por Nice, New Orleans, Toronto e Rio de Janeiro - com carros alegóricos, riqueza, boniteza, manifestações feericas de esplendor - foi exportado por Paris. (Sempre achei aqueles shows do Moulin Rouge e do Folie Bergère muito familiares e agora sei o motivo...). Em 2005 o Carnaval de Salvador, Bahia, Brasil, apareceu no Guinness Book como a maior festa de rua do mundo. Recife, Pernambuco, tem o maior bloco de carnaval do mundo, o Galo da Madrugada. <b>MARDI-GRAS</b> Nos Estados Unidos a expressão francesa mardi-gras - terça-feira gorda - é sinônimo de carnaval. Em New Orleans, estado americano de influência francesa é a festa realizada na terça-feira de carnaval, quando são feitos desfiles de ruas com bandas (na maioria, de escolas) tocando jazz antes de carros alegóricos transportando pessoas que jogam moedas, colares e pulseiras para o público. Bebe-se muito e, para demonstrar participação, adota-se o uso de três cores nas vestimentas: rosa, lilás e verde. <b>TRADIÇÃO</b> Os bailes de máscaras, ricas fantasias e carros alegóricos surgiram durante o Renascimento. Nos palácios, as festas majestosas; nas ruas, a farra da festa popular... Festa de origens antigas, diferentes dependendo dos lugares do mundo onde se instalou mas ainda respeitando o propósito religioso, no mundo contemporâneo pode ser considerada festa bastante tradicional: vem persistindo com o mesmo aspecto ao longo de séculos e séculos. Amém! <b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b> <i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i> luciahelena@comerciodafranca.com.br

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