Vidas invisíveis


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<b>“CAVERNA”</b> - Nas ruínas ecuras do que um dia seria a garagem de um prédio, lixo, drogas e gente se confundem; ao fundo, de verde, uma das 12 pessoas que fizeram do lugar fétido a sua casa
<b>“CAVERNA”</b> - Nas ruínas ecuras do que um dia seria a garagem de um prédio, lixo, drogas e gente se confundem; ao fundo, de verde, uma das 12 pessoas que fizeram do lugar fétido a sua casa
<i>Joelma Ospedal</i> <b>Editora chefe</b> <i>Irinéa Donizete</i> <b>da Redação</b> A pouco mais de 200 metros de um bonito shopping a céu aberto, do fórum da cidade e de duas faculdades, 12 pessoas vivem num buraco, como se fossem ratos num esgoto. São homens e mulheres que desistiram da vida que convencionamos chamar de normal e se sujeitam, há anos, a dormir, comer e namorar num ambiente encharcado de água imunda, cheio de lixo, escuro e fétido, exatamente como num esgoto. O local foi projetado para abrigar carros no que um dia seria a garagem de um prédio que jamais existiu, a não ser na imaginação de engenheiros e construtores. Hoje, acolhe gente quase invisível numa das mais movimentadas avenidas de Franca, a Major Nicácio. Apesar da localização, a vida que se esconde ali é tão subterrânea que passa despercebida. A quem ignora sua existência fica até difícil acreditar que por ali more alguém. Mas mora. Gente como “o homem mais velho do grupo”, de 41 anos, há pelo menos quatro no local. Alcoólatra, perdeu tudo que tinha - emprego, casa, família - e, mesmo assim, não consegue se livrar do vício. Tem junto com ele um dos três filhos, o primogênito, 19 anos, viciado em crack. Ou gente como “o garoto malhado” que, aos 21 anos, bonito e simpático, tem família em Franca, uma boa casa, carinho dos pais. Mas que, impotente diante das drogas, fez dos escombros sua caverna. Ali permanece hibernado. Os raros intervalos em que desperta são reservados para buscar mais crack. Até poderia se recuperar mas, cansado do entra e sai das clínicas de reabilitação, simplesmente desistiu. “Isso é uma doença”, repete à exaustão, como se deste mantra viesse a cura. Há ainda pessoas como o arisco e surpreendente “filósofo”. Aos 27 anos, é o mais antigo morador do buraco. Reverenciado como o mais inteligente do grupo, está lá há 18 anos. Era ainda criança quando se mudou para o local. Bem informado, lê jornal todos os dias e usa o msn em Lan Houses para contatar a família. Tem uma visão cáustica de si mesmo e da sociedade e, pessimista convicto, sonha que um meteoro atinja o planeta e destrua os homens. De pé ficariam as árvores, os riachos, alguns animais. Da raça humana, nada. O senso comum classificaria o grupo como “um bando de bêbados e drogados”. É um terrível engano. Não que não bebam ou não se droguem. Mas é que, como qualquer um de nós, são complexos, cheios de nuances, sombras, contradições. E, como todo grupo, não há um termo único que os defina. Há os bem informados, os revoltados, os irônicos, os resignados... Nenhuma redução simplista se aplica a essas pessoas, que não se queixam da falta de conforto, de comida ou de segurança. A dor geral é falta de carinho. A distância da família e o rombo na alma criado pela ausência de afeto são as grandes queixas, quando não as únicas. Ninguém ali aceita o rótulo de ser um “incômodo” para a sociedade. Se pudessem, prefeririam nem serem notados. Como é impossível, desejam apenas não serem vistos como um problema. São auto-expatriados. Gente que fez de um terreno abandonado e cheio de lixo o seu país e construiu ali sua família. Tal como em qualquer família, seus membros se protegem, se cuidam, se defendem. Vencer a barreira imposta aos que são estranhos ao grupo exige paciência, prudência e respeito. O “homem mais velho de todos” tem aparência improvável para um morador de rua: pele clara, porte ereto e, como traje, uma bem conservada camisa do São Paulo, calça Adidas e chinelos de dedo. Ele só concordou em falar depois de muita insistência. Imóvel nas primeiras horas da manhã desta quarta-feira, deitado no que restou de um sofá quase que submerso num amontoado de lixo, nem seus olhos de azul límpido podiam ser distinguidos. Despertou com alguma dificuldade. Reservado e preocupado em preservar a intimidade do ambiente que lhe serve de casa, cedeu aos chamados para conversar depois de algum tempo, mas com ressalvas: entrevistas só na “sala de estar”, o banco do ônibus em frente aos escombros. No “quarto da família” não recebe ninguém. Impossível saber se os anos difíceis comprometeram, se a rotina desgastou ou se os goles exagerados de pinga prejudicaram a memória. O fato é que ela não é precisa. Ainda assim, mantêm registrada passagens sobre sua vida em Maringá (PR), lugar onde nasceu e passou a infância. Um convite do irmão mais velho que lhe acenou com uma vida melhor o trouxe a Franca quando tinha 15 anos. Na cidade, trabalhou em indústrias de calçados e numa transportadora. Casou-se, teve três filhos, se separou. Não pensa mais em se casar. Família, hoje, são seus companheiros de buraco. Observador atento, fixa em seis os moradores vitalícios dos escombros. Outra meia dúzia vive ali há alguns meses. Umas duas dezenas de pessoas passam dias por ali, dormem eventualmente, usam drogas no local, vão embora. O vaivém é intenso. [FOTO2] A vida sem esperanças de um amanhã redentor é uma vida de poucas necessidades, o que não significa dizer que seja uma vida desprovida de todo e qualquer cuidado. Eles conseguem, em meio ao caos aparente, manter uma rotina mínima. Tomam café da manhã, almoçam. O cardápio depende da generosidade de quem doa. No diminuto banheiro da rodoviária, três reais dão direito a uma chuveirada. Vivem num mundo particular, mas não desconectados do que os faz humanos. Têm saudades da família, gratidão por quem os ajuda ou os olha sem discriminação. Apesar da desconfiança com que avaliam os “estrangeiros”, o grupo tem alguns amigos. O Gilson (de Souza, deputado estadual), que sempre leva comida e que “o homem mais velho de todos” imaginou um dia se tratar do governador; o Solimões (cantor), da dupla com Rionegro, que “sempre nos dá alguma coisa e para até para bater um papo”; e (Adair) Carvalho administrador do Abrigo, eternamente disposto a acolher mais um. Medo não existe. Nem do amanhã, nem do frio, nem de doença. Seus desejos são tão modestos quanto suas expectativas. Não almejam uma vida melhor. Contentam-se com sapatos, roupas, cobertores e comida. Nessa condição sub-humana em que sobrevivem é até difícil imaginar qual a ajuda possível para quem nada almeja, nada quer, nada espera. A prefeitura diz que pouco pode fazer. O prédio é propriedade particular e o grupo se nega a ficar no Abrigo Provisório, único local para o qual o poder público poderia levá-los. Enquanto isso, mais um dia recomeça no buraco em meio ao lixo, à água imunda, à escuridão. Sem esperanças, sem ambições. Sem futuro.

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