Tratar os problemas do trânsito francano (e de todo o Brasil) como mera questão gerencial, estabelecendo sinalização, aberturas e ampliações de ruas e avenidas e limitações de circulação, é ação apenas paliativa na contenção do caos crescente gerado pelo excesso absurdo de veículos particulares e na garantia de segurança aos usuários da vias públicas.
A intervenção necessária é outra. Ela está em outro ponto desse problema em que se tornou o simples ato de se locomover pelas cidades. Na verdade esse `ponto` se subdivide em dois aspectos: um conjuntural e outro estrutural. Dizem respeito ao transporte público. O conjuntural nos fornece triste panorama da nossa realidade. Somos `neo-civilizados` e como todo `novato` somos, ainda, ignorantes na prática de viver solidariamente. Todos os dias cidadãos tensos levam seus carros para passear. Da mesma casa é comum sair pai, mãe e filhos, cada um no seu próprio carro, para irem a um mesmo local de trabalho. Se na família não há solidariedade em compartilhar um mesmo carro, difícil imaginar que haverá entre vizinhos ou colegas de trabalho.
A sociedade brasileira vive um momento de ascensão econômica e o carro é o seu principal objeto de desejo de consumo e de status social. Esse aspecto cultural (conjuntural) tem origem, também, no aspecto estrutural porque nossa sociedade foi levada, nas últimas 5 ou 6 décadas a ver o transporte coletivo como próprio dos pobres e merecedor apenas de tímidos investimentos e melhorias. Se quisermos mudar essa realidade será necessário trabalhar as próximas gerações oferecendo outro conceito de transporte público. Isso é possível? Certamente. Nações que alcançaram o seu desenvolvimento, superando equivocados valores culturais aprendem a valorizar o transporte público, utilizando-o desde os primeiros anos escolares.
Os governos precisam liberar financiamentos para a reestruturação radical do transporte coletivo no Brasil. Se hoje o trânsito é caótico tornar-se-á, em poucos anos, insuportável. A sociedade e os governos precisam exigir, também, que as empresas que exploram através de concessões o transporte coletivo, invistam na melhoria (qualidade, pontualidade e conforto) dos seus serviços. Algumas pessoas dizem que temos, em Franca, uma das melhores estruturas de transporte público do Brasil, comparando-a, em geral, com outras estruturas falidas e obsoletas. Temos que compará-la sim, mas com o que há de melhor e não nos contentar com o pouco que é dado. Precisamos lembrar que o transporte público é o único setor econômico em que se paga à vista pela sua utilização e muitas vezes, como em Franca, antecipadamente (quando o usuário carrega seu cartão de Passe Fácil). Portanto, vamos olhar o transporte público de outra forma exigindo que ele se torne ideal e não apenas razoável.
Com melhorias reais poderíamos transformar, por exemplo, a Avenida Brasil em mão única, reservando, para os ônibus, uma faixa exclusiva. Isso sim é política pública e não mero gerenciamento de trânsito.
Cassiano Pimentel
Agente de exportação e Transporte Público
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