Já há algum tempo minha esposa vem me solicitando escrever sobre a importância do trabalho desempenhado por garis e lixeiros – segundo o dicionário Aurélio, os significados dos termos se confundem – na vida de uma cidade e das pessoas que nela habitam, e, por consequência, sobre a falta de reconhecimento ao trabalho deles.
Em uma sociedade consumista como a que vivemos na atualidade estima-se que uma família de classe média – com cinco membros –, acumule mais de 150 quilos de lixo doméstico por mês. Não há como, portanto, deixar de reconhecer a importância do trabalho desempenhado pelos lixeiros, denominação que embora seja de uso corrente para designá-los, não é, em minha opinião, a mais adequada e nem a politicamente correta.
São estes profissionais, na verdade, dedicados operários que desempenham serviço essencial para a sociedade e principalmente ao bem estar e a saúde das pessoas, muito embora mal remunerados e maltratados.
Pode-se, aliás, avaliar a importância do trabalho deles, imaginando-se o caos que a cidade e as pessoas vivenciariam se esses dedicados funcionários da limpeza deixem de recolher, por apenas uma semana, o lixo que haveríamos de acumular em nossas residências. A nossa vida se tornaria insuportável.
O jornalista Boris Casoy parece que esta entre aqueles que, infelizmente, teimam em não reconhecer a relevância do trabalho deles. Todos certamente tomaram conhecimento do episódio, repercutido no Brasil e no Exterior, em que o mencionado apresentador do Jornal da Band, na edição de 31/12/09, não percebendo que o áudio se encontrava aberto, cunhou a preconceituosa frase ‘Que merda! Dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras. O mais baixo da escala do trabalho’.
A frase, como bem ponderou o articulista Luciano Pires neste Comércio (http://www.comerciodafranca. com.br/materia.php?id=52322), ‘é um desastre no conteúdo e na forma’. Não pretendo politizar e nem polemizar. O jornalista é um ser humano como qualquer um de nós, se desculpou publicamente e acabou obtendo o perdão dos dois garis. Com isso transformou o episódio em mero ato falho.
O problema é que a opinião do apresentador televisivo pode ser a que predomina no seio da sociedade. Confesso que já assisti prêmios sendo entregues a pessoas dos mais variados setores da atividade humana. Prática comum e que considero saudável, pois retrata o reconhecimento da sociedade àqueles que se destacam no respectivo ramo de atuação profissional. Contudo, infelizmente, nunca presenciei ainda nenhum coletor de lixo sendo premiado em razão da função que exerce.
O deslize do jornalista, para ficarmos com o mínimo, pode servir para que as pessoas e o conjunto da sociedade façam uma reflexão sobre a importância do trabalho desempenhado por esse abnegado operário que presta, diariamente, valiosíssimo trabalho para a sociedade. Assim, se os fins justificam os meios, conduta infelizmente defendida por muitos, talvez neste momento garis do Brasil estejam agradecendo o apresentador pelo infeliz comentário, uma vez que o fato prestou para motivar o debate e com isso, quem sabe, melhorar a imagem que a sociedade tem desses laboriosos trabalhadores da limpeza pública. Sabidamente ‘do debate nasce à luz’.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca
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