Em sã consciência, ninguém quer uma doença. É preciso ser muito doido para querer ser acometido por uma moléstia. Aproveitando fevereiro, todo mundo deseja sambar. Dorival Caymmi mostra a dicotomia entre sanidade física e mental, na letra do ‘Samba da Minha Terra’, com o refrão: ‘Quem não gosta de samba bom sujeito não é / É ruim da cabeça ou doente do pé’.
Na realidade, a população gosta do ritmo africano de dançar, mesmo assim fica doente. Com isso, enfrenta um verdadeiro samba do crioulo doido e vê o quanto é doído o atendimento médico. Ou você pensa que toda pessoa tem um médico especialista esperando por ela no aeroporto? Não, esse aparato todo quem tem é somente o presidente da República!
Aliás, o presidente gosta de se apresentar a caráter em qualquer ocasião. Se visita um canavial, empunha um facão. Se vai a Barretos, já leva um berrante a tiracolo e monta na estátua do boi Bandido. Em Franca (não duvide, neste ano tem eleição e ele virou cabo eleitoral), não teria preocupação com o estado de seus sapatos. Sabe que ganharia dúzias de pares para mostrar às câmeras. Na semana passada, como precisou ir às pressas a um hospital de Recife, vestiu-se logo de médico. E assim, todo de branco, chegou a São Paulo.
No mesmo horário, uma mulher de quase 80 anos adentrou o ambulatório do Hospital Regional. A senhora diabética e hipertensa sofreu uma queda acidental pouco antes das 8 horas. Com suspeita de fratura no ombro, apresentando pressão altíssima e descontrole insulínico, só conseguiu ser medicada por volta das 10h30. Continuou esperando até as 15 horas para ser avaliada por um médico ortopedista. Que na verdade não foi ao plantão. Ela teve de se deslocar ao consultório – ainda bem que fica em frente –, para ser examinada e enfaixada.
No mesmo dia em que um cardiologista esperou pelo avião presidencial no aeroporto de Congonhas, outra mulher também diabética dirigiu-se a uma UBS (Unidade Básica de Saúde) por volta das 5h30. Precisava marcar consulta com um clínico geral para que este a encaminhasse a um endocrinologista. Somente um especialista da saúde pública pode assinar um laudo médico recomendando tratamento na Casa do Diabético. Apesar de se levantar pela madrugada, a senhora não conseguiu pegar senha para ser consultada.
Atendimento médico, tanto na saúde pública quanto nos convênios particulares é de longa espera. E isso, exatamente no momento de sofrimento físico do paciente. Custaria um pouco mais de atenção por parte de recepcionistas e dos próprios médicos? Não é tão difícil resolver a situação. Basta melhorar o canal de comunicação. Se o plantonista não permanece no hospital, deve comparecer assim que é solicitado.
Quanto à marcação de consultas, bastaria agendar os atendimentos em qualquer horário do expediente da UBS. Acabariam as filas. Não haveria concentração logo na abertura da repartição de saúde. Tudo fluiria sem tumultos. Lamentavelmente, os dirigentes da área de saúde pública não pensam assim.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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