Francano ilustre pode ser indicado ao Nobel da Paz


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<b>RUMO À INDICAÇÃO</b>- Em imagem de arquivo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao lado de Abdias Nascimento. Ele pode ser indicado oficialmente ao Prêmio Nobel da Paz
<b>RUMO À INDICAÇÃO</b>- Em imagem de arquivo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao lado de Abdias Nascimento. Ele pode ser indicado oficialmente ao Prêmio Nobel da Paz
Abdias Nascimento, francano nascido em março de 1914, pode ser indicado oficialmente pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, ao Prêmio Nobel da Paz em 2010. Nascimento completa nos próximos meses 96 anos de uma vida inteira dedicada à defesa da cultura negra e do respeito às tradições afrobrasileiras. Autor de inúmeros livros sobre os “filhos da mãe África”, maneira como chama muitas vezes os afrodescentes, artista plástico, poeta, político, economista, ator que usou o teatro na luta contra o racismo e um dos principais militantes no combate à discriminação racial no País, Abdias é um dos únicos brasileiros convidados a participar de eventos ao redor do mundo que discutem o negro e a sua influência na sociedade - em muitos deles como o único representante da América Latina. O francano é filho de um sapateiro-músico, “Seu” Bem-Bem, e de uma doceira, Dona Josina, que foi por muitas vezes ama de leite em fazendas ao redor da cidade. Ele saiu de Franca em 1930, com 15 anos, para se alistar no Exército em São Paulo, mas presenciou ainda aqui na cidade a primeira atitude de solidariedade racial de que tem memória. Foi em Franca, nas ruas ainda de terra, que Nascimento aprendeu a lutar pela defesa do seu povo. Desde o dia em que presenciou, ao lado da mãe, uma mulher branca espancando um órfão negro no meio da rua, nunca mais deixou uma ofensa racial sem resposta. Assim como fez a mãe em meados de 1900, que saiu em defesa da criança que nem ao menos conhecia, Abdias fez, a partir de então e durante os últimos 70 anos, com cada atitude preconceituosa que presenciou. Essa luta em defesa dos negros vem sendo reconhecida em todo o mundo e, agora, no Brasil, com a possível indicação ao Nobel da Paz. O francano ilustre é professor emérito da Universidade de Nova York, deu aulas na Universidade Yale, Wesleyan e Temple, nos Estados Unidos, e na Universidade de Ifé, na Nigéria. Denunciou o racismo do Brasil em diversas partes do mundo, mas foi em terras tupiniquins que escreveu seu maior legado. Foi protagonista da Frente Negra Brasileira, que tinha como objetivo a luta contra o preconceito e a integração racial; criou o Ipeafro (Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros) em 1981 e, por meio dele, fez congressos como o da Cultura Negra das Américas. Participou ativamente da fundação do Movimento Negro Unificado e do Memorial Zumbi contra a discriminação racial, e ajudou na criação de vários núcleos de defesa em todo o País. Hoje vive no Rio de Janeiro onde é casado com Elisa Larkin Nascimento, uma doutora em Psicologia e mestre em Direito e em Ciências Sociais pela Universidade do Estado de Nova York. Assim como Abdias, é também autora de obras sobre o negro e suas raízes e culturas. Apesar da boa saúde, Nascimento vem pouco a Franca atualmente. Tem na cidade apenas um grande amigo e parentes longínquos. O amigo poeta Carlos de Assumpção lembra com saudade dos bate-papos que tinha com Abdias. “A última vez que falei com ele foi por telefone há mais de dois anos, mas acredito que ninguém mais do que meu irmão Abdias mereça esse Nobel. É o maior batalhador pela igualdade racial”. Carlos conta que, além dele próprio, o outro grande amigo de Nascimento era Hugo Bettarello. “Gostavam muito um do outro. Era um respeito bonito”. É justamente esse respeito pelo ser humano que pode ser premiado e reconhecido com a maior honraria de Paz do mundo: o Nobel.

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