Um exemplo de superação e fibra


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<b>ERAÇÃO </b>- A advogada Silvana de Andrade Prado teve síndrome do pânico depois de perder dois filhos ainda bebês. Ela estudou a doença e conseguiu superá-la
<b>ERAÇÃO </b>- A advogada Silvana de Andrade Prado teve síndrome do pânico depois de perder dois filhos ainda bebês. Ela estudou a doença e conseguiu superá-la
<p>Depois de ter perdido dois filhos bebês, ter enfrentado duas separações, sofrer com a síndrome do pânico e ser vítima de câncer de mama, a advogada Silvana de Andrade Prado, 51, quase desistiu de viver. Esteve muito próxima da morte. Os médicos e ela própria não acreditavam na sua recuperação. Chegou a fazer seu testamento, deixando a herança para a única filha, para as pessoas mais próximas e para o Hospital do Câncer de Franca. Silvana ficou em choque quando descobriu o tumor no seio esquerdo em fevereiro de 2008. Demorou a contar para os familiares que estava com a doença e duvidou da existência de Deus. “Tirei Deus da minha vida. Tinha certeza de que ia morrer”. Hoje, depois de vencer a doença, Silvana comemora cada minuto de sua vida e sempre reflete sobre as lições que tirou de todas essas experiências.</p> <p><br />O desejo de Silvana é aproveitar seu aprendizado para ajudar pessoas que enfrentam problemas parecidos. Para isso, o Grupo de Autoajuda Apoiar, que, como sua idealizadora, esteve morto, irá renascer. A entidade foi criada depois que Silvana voltou dos Estados Unidos para o Brasil. Naquele País, onde morou com o segundo marido (de quem se separou quando retornou do exterior) e a filha Lilian (do primeiro casamento), ela teve crises de pânico e aprendeu, sozinha, a controlar a doença. Quando voltou para Franca, dezenas de pessoas que conheciam sua história começaram a procurá-la em busca de apoio para vencer a síndrome do pânico, ansiedade e depressão. Assim nasceu o Apoiar, que funcionou durante sete anos, desde 2001, e chegou a atender 400 pessoas por mês.</p> <p><br />Por falta de verbas, Silvana fechou o Apoiar em setembro de 2008, mas agora conseguiu patrocínio de uma empresa de São Paulo - Brascola - para retomar o trabalho. Além dos problemas emocionais, o atendimento será estendido aos pacientes com câncer. A equipe oferecerá aulas de meditação, atendimento com psicólogo, sessões de reiki, ioga e acupuntura. Além de manter o site <a target="_blank" href="http://www.apoiar.org.br/" target="_blank">www.apoiar.org.br</a>, a entidade continuará publicando o jornal Mente Livre. O dinheiro com publicidade ajudará a manter o Apoiar.</p> <p><br />Silvana relata detalhes sobre a fase que enfrentou a síndrome do pânico no primeiro livro que escreveu - O Prisioneiro do Medo. A advogada se dedica ao segundo livro no qual fala sobre o câncer de mama que enfrentou. “Passei por tanta coisa triste, mas também extraordinária que quero escrever para as pessoas saberem que tem uma saída e que há esperança”. </p> <p><strong>Comércio da Franca - A senhora perdeu dois filhos. Como foram essas experiências?<br />Silvana Prado -</strong> Do meu primeiro casamento, tive a Lilian. Depois me separei e conheci outra pessoa, com quem me casei e engravidei do Rafael. A gestação foi superbem, mas o ultra-som não apontou os problemas de saúde que ele teria. Só soubemos depois que nasceu porque tinha um inchaço grande na barriga. Nesta época, morava em Belo Horizonte. Os exames apontaram que tinha os dois rins policísticos; eles eram como uma peneira. É um problema genético. O Rafael chorou durante os cinco meses em que viveu. Ele morreu no meu colo. Estava sofrendo demais. Não suportava mais vê-lo daquela forma. Quando ele partiu, foi um alívio. O sofrimento chega a um ponto em que você abre mão do que mais ama para não tê-lo mais. Como queríamos muito um filho juntos, eu e meu ex-marido decidimos arriscar e engravidei de novo. Desta vez, de uma menina. Só fiz ultra-som no sétimo mês e identificamos o mesmo problema. A Claudinha nasceu saudável e não sofreu tanto como o Rafael. Ela estava bem e o médico achou que sobreviveria até um ano e meio para fazer o transplante de rim, mas ela teve pneumonia e faleceu aos oito meses. <br /></p> <p><strong>Comércio - Quando descobriu que sua filha teria o mesmo problema e que certamente viveria muito pouco, pensou em abortar?<br />Silvana -</strong> Em nenhum momento. Quando tomamos a decisão de ter mais um filho, disse para meu ex-marido que eu era contra o aborto e, se acontecesse o problema, não abortaria. <br /></p> <p><strong>Comércio - Depois das mortes, vocês se mudaram para os EUA. Como foi essa fase?<br />Silvana -</strong> A empresa onde meu ex-marido trabalhava achou que era momento de nos tirar do Brasil, daquele sofrimento porque estávamos na casa onde tínhamos perdido as crianças. Para mim, a mudança foi um alívio. Fomos para Michigan. Mas eu sofri um estresse muito grande com a perda dos meus filhos e ainda tinha de me adaptar em outro país. Achava que entendia inglês, mas cheguei lá e vi que não falava nada. Seis meses depois, comecei a ter as crises de pânico.<br /></p> <p><strong>Comércio - Como foi a primeira?<br />Silvana -</strong> Foi dentro de uma loja de artigos esportivos. Meu ex-marido estava viajando e minha filha tinha vindo para o Brasil passar férias, mas meus pais foram me visitar. Já estava me sentindo esquisita de vez em quando e, naquele dia, comecei a me sentir mal, mas não foi como das outras vezes. Foi aumentando, meu coração foi disparando e comecei a transpirar. Senti que eu ia cair morta. Saí correndo da loja para respirar. Cheguei em casa e fiquei deitada no chão achando que ia morrer. <br /></p> <p><strong>Comércio - Como diagnosticou que era pânico?<br />Silvana -</strong> Tive mais uma crise dentro do supermercado e foi muito ruim. Depois não queria voltar ao supermercado de jeito nenhum. Fui a uma médica que disse que estava com depressão. Mas fiquei em dúvida porque sabia que depressão não dava as crises que tinha. Um dia, mexendo em uma pilha de revistas, tirei uma que falava sobre a síndrome do pânico. Lembro perfeitamente porque tinha foto de uma mulher com expressão de medo e logo me identifiquei. A matéria se chamava “Crise do pânico: a terrível doença mental”. Falava da sensação de sentir que estava morrendo, do coração disparado, de não conseguir respirar, transpirar demais e ter dormência nas pontas dos dedos. Era o que eu sentia. Fiquei contente de descobrir o que tinha. A revista indicava livros e sites sobre pânico. Passei a estudar tudo sobre o assunto.<br /></p> <p><strong>Comércio - O que essa doença tem de pior? Como sua família lidou com isso?<br />Silvana -</strong> Tudo era horrível da hora que acordava até a hora que ia dormir. Tinha medo de morrer. Tinha crises na rua, em casa, na farmácia, na livraria. Eu praticamente não tinha amigos lá porque fazia muito pouco tempo que estava nos EUA. Meu ex-marido viajava constantemente e não pode me dar muito apoio. Minha filha entrava na escola às 7 horas e só saía às 16 horas. Foi algo que enfrentei com Deus. <br /></p> <p><strong>Comércio - O que aprendeu nos sites e nos livros sobre a doença?<br />Silvana -</strong> Na época não estava nem saindo de casa por medo de morrer e me lembro de ter lido que era para andar em frente à casa por 20 minutos num dia, aumentar mais um quarteirão no outro e assim fui fazendo. Graças a Deus, tive a síndrome do pânico nos Estados Unidos. No Brasil não tinha livros sobre o assunto. Quando tive as crises, falaram que teria de tomar medicamentos e não aceitei aquilo porque eu tinha vivido até os 33 anos sem o pânico e não queria aceitar que teria isso para o resto da vida. Comecei a estudar a doença. <br /></p> <p><strong>Comércio - Depois que voltou para Franca, a senhora montou o Apoiar para ajudar pessoas com depressão e pânico. Como surgiu essa ideia? <br />Silvana -</strong> Após ter as crises, escrevi o livro Prisioneiro do Medo e muitas pessoas no Brasil conheceram minha história. Quando retornei, elas me procuraram. Começamos o Apoiar em 2001 com uma reunião entre 50 pessoas e chegamos a atender 400 por mês. Os médicos se tornaram as pessoas que mais indicavam o Apoiar aos pacientes. <br /></p> <p><strong>Comércio - No Apoiar, os usuários aprendem sete passos. Como foram criados?<br />Silvana -</strong> Nos Estados Unidos, segui os chamados 12 passos, uma adaptação do AA (Alcoólicos Anônimos), e decidi modificar alguns detalhes para deixá-los mais funcionais. Queria passos mais objetivos para ajudar a pessoa a se recuperar rapidamente da depressão, fobias, pânico. Criei os sete passos, que são sete coisas básicas que a pessoa deve fazer para vencer não só o pânico, mas a ansiedade, a depressão. O primeiro passo é eliminar o que não faz bem para você, como a cafeína. Uma pessoa que está com crise do pânico muito severa pode desencadeá-la ao consumir bebidas com essa substância. O segundo passo é fazer exercícios porque têm efeito muito melhor que os antidepressivos pois fazem o corpo liberar substâncias importantes, como endorfina e serotonina, que são o que os remédios fazem. Só que o corpo libera na dose certa, sem efeitos colaterais e de graça. O terceiro passo é aprender a fazer meditação e respirar certo porque é possível cortar uma crise de pânico respirando corretamente. Sei que funciona porque eu fiz. Outros passos são mais específicos. Faz oito anos que ensino as pessoas e elas contam que funciona. <br /></p> <p><strong>Comércio - O Apoiar está fechado desde setembro de 2008, mas deve ser reaberto. Como está esse projeto?<br />Silvana -</strong> A empresa Brascola irá patrocinar o Apoiar. Estamos procurando um imóvel para alugarmos como sede da entidade e reiniciarmos em breve.<br /></p> <p><strong>Comércio - O que desencadeia o pânico e depressão?<br />Silvana -</strong> Existe o fator genético em primeiro lugar, mas o estresse e personalidade da pessoa podem desencadear estas doenças. <br /></p> <p><strong>Comércio - Em fevereiro de 2008, a senhora descobriu que estava com câncer. Como enfrentou mais essa dura batalha?<br />Silvana -</strong> Estava passando creme no corpo e vi um caroço na mama esquerda e estava muito grande. Fiz a biopsia e vimos que era muito sério. Fiquei muito decepcionada, mas achei que Deus estava me testando e, como sempre acreditei que a mente é capaz de tudo, resolvi fazer um teste e provar isso. Numa das consultas, escutei um médico falando que tinha paciente com câncer que, mesmo fazendo todo tratamento, não resistia. Saí de lá chocadíssima. Estava trabalhando 12 horas por dia e de repente me vi morrendo. Falava que não ia enfrentar a quimioterapia para morrer em seis meses. <br /></p> <p><strong>Comércio - Então parou com o tratamento?<br />Silvana -</strong> Resolvi fazer um teste. Não tenho medo de morrer, estava pronta para partir porque achava que tinha cumprido minha missão na Terra. Parei de trabalhar e comecei a tomar um monte de vitaminas, comer só alimentos naturais e a fazer meditação mais vezes por dia. Fazia ultra-som a cada dois meses e o tumor estava diminuindo. Mas no sexto mês, por uma razão que ninguém conseguiu explicar ainda, ao fazer o ultra-som, descobri que o tumor tinha triplicado de tamanho. Foi um choque tremendo. Achei que morreria mesmo. Até cortei minha relação com Deus na época. Pensava que Deus não existia porque não era possível uma pessoa que fazia tudo que fazia, do jeito certo, passar por aquilo. A época mais difícil para mim foi quando achei que Deus não existia. Tirei Deus da minha vida. Tinha certeza de que ia morrer. Cheguei a fazer meu testamento. Queria deixar algo para as pessoas que mais amo e para o Hospital do Câncer também. Procurei um advogado e fiz o testamento. Só neste momento contei para as pessoas que estava com câncer na mama. Mandei um e-mail com o assunto “notícias muito ruins”, relatando toda a doença. Até então, apenas meu advogado, os médicos, minha irmã e uma melhor amiga sabiam que estava com câncer. Nem minha filha sabia. Ninguém acreditou no que estava acontecendo.<br /></p> <p><strong>Comércio - E depois disso, aceitou o tratamento convencional?<br />Silvana -</strong> Meus médicos não eram daqui, mas fiz a quimioterapia no Hospital do Câncer de Franca e elogio muito o amor com que me trataram lá dentro. Em setembro de 2008 comecei as sessões. A mastectomia fiz no dia 3 de outubro, em São Paulo.<br /></p> <p><strong>Comércio - Como foi perder um seio?<br />Silvana -</strong> Meu irmão trabalha na Brascola e o chefe dele viu ele chorando quando soube que eu estava com câncer. Ele deu o telefone de um dos maiores oncologistas de São Paulo e meu irmão conseguiu falar com esse médico. Foi onde comecei a sentir a presença de Deus na minha vida de novo. Não do jeito que queria, mas do jeito que Deus achava que tinha de ser. Esse médico não atende telefone, não tem horários vagos, mas quando meu irmão ligou, foi ele quem atendeu a ligação. No dia, a secretária não tinha ido trabalhar. Meu irmão chorava contando a história. O médico agendou uma consulta para mim. Ele era do Hospital Albert Eistein, mas não podia pagar a operação lá e o médico foi com toda equipe dele para fazer a cirurgia de retirada da mama em outro hospital de São Paulo. A operação foi muito longa porque o câncer tinha se espalhado. Tirei a mama e fiz parte da reconstrução dela. <br /></p> <p><strong>Comércio - E a recuperação?<br />Silvana -</strong> Eu me sentia muito culpada. O paciente com câncer sente culpa. Pensa que fez alguma coisa errada para ter de enfrentar a doença. Pensava que minha mãe morreria por me ver com câncer. Ela estava com problema sério de saúde, mas sarou para cuidar de mim. Muitas pessoas, de várias religiões, rezaram por mim. Minhas amigas criaram um pseudônimo para mim porque eu era muito conhecida e os médicos aconselharam a não divulgar o problema para evitar especulações. Meu pseudônimo era Rafaela de Andrade e em muitos lugares rezavam por mim. Soube que tive uma moratória, que, para os espíritas, é quando seu tempo na Terra acaba e Deus decide lhe dar um tempo maior de vida. Numa noite, sonhei que estava num lugar muito bonito ouvindo alguém falar que estavam rezando muito por mim. E uma pessoa, que parecia um anjo porque tinha muita luz, perguntava se eu gostaria de ficar mais tempo aqui. Comecei a deixar de sentir que estava morrendo. Estou muito bem. Descobri que, para saber o que é o câncer, você tem que passar pela quimioterapia, perder um seio e ficar com ele deformado. Mesmo não tendo um homem, como não tenho neste momento, é uma experiência trágica. Mas fui vendo que você não é menos do que Deus lhe fez. Não tive o milagre que eu queria, mas o que eu precisava. Deus permite o nosso sofrimento, mas não nos deixa desamparados.<br /></p> <p><strong>Comércio - E o futuro? O que espera dele?<br />Silvana -</strong> Esse é o momento de realizar tudo que eu puder, principalmente em favor dos outros porque acho que o sofrimento que passei me dá condições de ajudar a quem está passando por isso. Tenho três sonhos: terminar meu segundo livro, transformar o Apoiar em algo maravilhoso e ganhar um netinho da minha filha.</p>

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