Passados quase 14 anos do seu arrendamento a empresas privadas, as ferrovias brasileiras – patrimônio constituído com o dinheiro do contribuinte – está subutilizado. Dos 28,9 mil quilômetros de linhas existentes, apenas 3 mil são usados plenamente. Em contrapartida, as rodovias estão superlotadas por caminhões carregando as cargas que deveriam estar nos trens, nas embarcações fluviais e até nos aviões.
A estrada de ferro foi implantada no Brasil através dos fazendeiros que precisavam escoar sua safra de café (o principal produto brasileiro de então), e pelo governo. Com o passar dos anos, aquelas que eram privadas foram encampadas pelo governo e todas passaram a ser estatais. Ficaram suscetíveis a todos os desmandos, interferências e instabilidades políticas vividas pelo País. Também se tornaram palco ideal para a luta ideológica de classes, que produziu greves mais políticas que reivindicatórias e abrigou, inclusive, os movimentos da chamada Guerra Fria.
Desde os anos 50, quando a indústria automobilística se desenvolveu, inexplicavelmente, pouco se fez pela manutenção e modernização das ferrovias. Há quem diga que isso foi proposital. O resultado disso é que, por falta de competitividade, o trem perdeu passageiros para o ônibus e carga para o caminhão.
Nos anos 90, dentro da onda burra de privatizar por privatizar, o governo arrendou as ferrovias para empresas particulares, mas, com raras exceções, estas, com interesses apenas imediatos, não cumpriram suas metas e abandonaram estações, linhas e um imenso patrimônio imobiliário, hoje sucateado. Ao mesmo tempo aumentaram as estradas onde proliferam os pedágios e, em consequência, o trânsito rodoviário é oneroso e cada dia mais caótico.
Agora fala-se em rever os arrendamentos e buscar condições para que as linhas voltem a ser utilizadas de forma empresarial, racional e competitiva. É um dever que os omissos órgãos estatais de controle deixaram de cumprir ao logo dessa quase década e meia de arrendamento. Hoje é mais difícil, porém necessário, recolocar tudo em boas condições, pois além do desgaste do uso, ainda há a consequência do abandono e da depredação. Mas não é impossível. Fica mais barato do que construir ferrovia nova.
Responsável pelo desbravamento de regiões e o surgimento de muitas cidades ao final dos séculos dezenove e vinte, a ferrovia não deve ter se transformado em algo inviável da noite para o dia. É preciso que governo, sociedade e operadores decidam o que dela pretendem fazer. Apesar de contar com grandes pólos de desenvolvimento e economia pujante, o Brasil ainda tem muito o que concretizar.
Recuperar a ferrovia e fazê-la voltar a produzir é medida de interesse geral. Mas isso há de ser feito em consonância com os outros meios de transporte rodovia, hidrovia e aerovia para que cada qual cumpra a sua vocação e a sociedade seja a grande beneficiada. A intermodalidade é a solução ideal, já provaram os países mais desenvolvidos do mundo.
Uma coisa é certa. Do jeito que está, a ferrovia não pode continuar. E a solução tem de ser inteligente e... urgente.
Dirceu Cardoso Gonçalves
Tenente, dirigente da Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.