A vida ensina. E cobra. Há pessoas bem postas, vitoriosas, bem problemas, que doam tempo a cuidarem da miséria humana, sem saber bem por quê. Algo as impulsiona. E se sentem ainda melhor do que poderiam ser.
Ontem conversei com um dentista miliardário, como ele mesmo se define. Não, a palavra não está dicionarizada. Miliardário seria alguém multi e hiper milionário, gente para quem dinheiro, de tanto em disponibilidade, passou a não fazer mais nenhuma diferença; pessoas que sublimaram o ter, em privilégio do ser.
E lá vou eu de novo, diria você que se cansa de discursos humanistas. Mas insisto: lá vou eu de novo. Meu amigo dentista miliardário continuou: "tenho uma família linda. Meus filhos não me dão problemas – só os próprios da idade –, minha mulher me respeita e eu a respeito, temos saúde e, riqueza suprema, tenho mais amigos sinceros que dedos nas mãos". Perguntei-lhe sobre dinheiro. Ele sorriu e disse: "dá para o gasto. Posso comprar um sorvete para meus filhos quando me pedem, andar em carro que me dá poucos problemas mesmo não sendo um `zero`; colaborar na compra de final de semana de minha casa; abastecer o automóvel, colocar a família dentro e ir visitar uma amizade que mora fora".
Repliquei. Miliardário sem perfumes importados, roupas de grife, restaurantes caros, viagens para qualquer lugar do mundo e a qualquer hora? Ter recursos até para comprar o que não falta, não faz cócegas? O amigo dentista sorriu o riso do rico que ri à toa: "Faz nada. Ao que parece, você não está entendendo nada".
E pôs-se a explicar. "Há um tempo na vida no qual você descobre que nada do que o dinheiro pode comprar você levará consigo quando se for. E há – e a gente só descobre isso quando sofre – um momento, um só, e você precisa estar atento para observar, que ensina toda a diferença entre ser, realmente, miliardário ou dono de alguns parcos milhõezinhos ou bilhõezinhos de reais, ou de dólares, de liras, libras, yens, seja lá o que for: nada é igual ao calor íntimo de saber-se catalisador da alegria do outro".
Lembrei-me de Patch Adams, fundador dos Doutores da Alegria, na hora. Mais do que qualquer remédio, o nariz de palhaço, o sorriso largo e a presença convincente frente ao doente, valem mais que mil remédios. Compreendi – mais uma vez, aliás – o valor da lágrima que o plantonista do CVV derrama quando ouve a história do atendido que quis dividir com alguém, mesmo com um desconhecido, o conhecimento da doença incurável do filho. Diverti-me novamente com a lembrança do grande empresário, responsável por centenas de empregos, que contava sobre o dedo queimado na panela de sopa que, voluntária e anonimamente, cozinhava uma vez por mês em instituições de bairro. Refortaleci-me ao lembrar que convivo com um jovem empreendedor, duro e firme condutor de empresa, capaz de decisões difíceis sem nenhum vacilo, tentando esconder o nó da garganta, o soluço e até a lágrima ao assumir e manter, às expensas de sua empresa, sem nada em troca, cuidados com o futuro de centenas de crianças.
Entendi, finalmente, ao que o amigo cirurgião dentista se referia. Há mais de 20 anos ele se dedica a cuidar de gente que jamais teria condições de adentrar um consultório dentário moderno no equipamento e nos preços. Mas "só isso" não lhe bastava. Soube-o cuidando agora, também de senhoras idosas, asiladas.
Pesquisou e descobriu que pneumonia pode tomar conta de organismos idosos, gerada por má escovação, por assepsia oral mal feita. Passava, dia destes, em frente a uma instituição e, não se contendo, bateu, entrou, encantou-se. Contou-me: "Mal de Parkinson, Alzheimer, depressão, saudade da família que some, conduzem pessoas a se destratarem. Ensino hoje a quem poderia me ensinar tudo, a reaprender a escovar os dentes, higienizar adequadamente uma dentadura, mas faltam escovas e dentaduras".
Propôs-me um desafio: "lá, onde já estou e em outros asilos, há vagas para voluntários dentistas e, principalmente, protéticos. Quem sabe, você me ajuda a encontrar protéticos que queiram doar, cada um, um par de dentaduras por mês. Ou quem queira doar a chamada escova automática Brown, que pessoas sem domínio sobre o próprio corpo possa usar sem problemas. A recompensa estará, certamente, nos sorrisos novos que se produzirão nos rostos doces de quem hoje já não sorri com tanta frequência".
Ajudo sim. Sei o poder de multiplicação deste Comércio. E sei que há pessoas buscando formas para também experimentar o gostinho da riqueza. Feliz do mundo novo que haveremos de produzir juntos.
</b>SORRISO NOVO</b>
Indico, como rumo a ações do tipo "sorriso novo", o Lar de Leonor, na Ponte Preta e o Núcleo Assistencial Avelina Maria de Jesus, no Jardim Aeroporto. Feliz riqueza nova!
<b>E MAIS</b>
Para agregar-se a ações voluntárias na área da educação, música, artes, esportes, busque o Veredas, no Jardim Elimar. Ou então, integre-se ao CVV, que formará plantonistas novos em dois cursos, um, nos dias 23 e 24 e outro, entre 25 e 28 de janeiro.
<b>OU ENTÃO?</b>
Escolhe um caminho. Reuna seus amigos e forme grupos de solidariedade anônima. Vá as bairros. Emocione-se. Crie soluções. Pratique-as. Motive mais pessoas a fazerem o mesmo. Multiplique-se. Você vai se surpreender como o tempo também se multiplica.
<b>MAS, CUIDADO</b>
Separe o joio do trigo. Há muita gente por ai vivendo da solidariedade dos menos avisados. A diferença que você, bem intencionado, pode fazer, não deve se perder. Em dúvida, pergunte à Secretaria de Promoção Social da Prefeitura, que cadastra ações e pessoas que realmente precisam de auxílio.
<b>Luiz Neto</b>
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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