Toda vez que as nuvens ficam carregadas e os ventos começam a soprar forte, os três filhos e a mulher do motorista Ricardo Barsanulfo Santos, 30, se escondem no banheiro da casa. O cômodo é o único que tem lajota e não foi atingido no temporal que assustou Franca durante o Carnaval de 2009. À época, o imóvel localizado no Jardim Luiza ll ficou destelhado. Com os fortes ventos, as telhas “voaram” pelo bairro e quatro cômodos (sala, cozinha e dois quartos) foram tomados pela água que levou guarda-roupa, colchões, armário e o material escolar das crianças.
Ricardo conseguiu recobrir a casa e, aos poucos, foi comprando a nova mobília. Hoje, quase um ano depois, a família ainda tenta se recuperar do trauma. O motorista colou e parafusou todas as telhas, ainda assim teme novos temporais. “Às vezes, começa a chover de madrugada e logo estão todos no banheiro. Se eu não conseguir lajotar a casa, terei que mudar. Não dá para viver com esse medo”, disse.
Pelo menos 17 tempestades causaram destruição em toda a cidade de janeiro de 2009 até agora. Durante os temporais, carros ficaram ilhados, dezenas de bairros sem fornecimento de água ou energia elétrica enquanto seus moradores observaram a erosão levar embora parte das ruas de suas casas. A cada tempestade, Franca amanhecia devastada. Grandes operações de faxina tinham que cortar árvores derrubadas pelo vento, limpar as avenidas cheias de terra e as lojas que ficam em suas margens tomadas pela lama.
Não há dados oficiais de quantas famílias tiveram prejuízos por conta da chuva forte, mas dezenas de famílias sentiram o drama de ter suas casas invadidas por água e esgoto, destelhadas, ver muros derrubados e móveis perdidos. Foram casos acompanhados pelo <b>Comércio</b> e registrados na central do Corpo de Bombeiros.
Os casos mais frequentes acontecem nas residências construídas abaixo do nível da rua; em vias com declive e próximas a bocas-de-lobo em que a sujeira não deixa a água escoar. Já em bairros altos, como é o caso do Jardim Luiza, os ventos fortes atingem facilmente os telhados. Quem passou pela situação de medo sempre acende o sinal vermelho a cada temporal.
Nos sete anos em que mora na Rua Mestre Inácio, na Vila Santa Terezinha, a dona de casa Lourdes Euripidina Tristão, 61, viu o imóvel inundado pela enchente pelo menos quatro vezes. A mais recente foi na noite de 19 de outubro. Menos de uma hora de chuva foi o suficiente para perder comida e móveis, além do trabalho que teve para tirar a água e limpar a sujeira que vazou do esgoto. Cansada, ela decidiu fazer uma barreira de concreto na porta da sala e na entrada da garagem. “Não desejo para ninguém o que passei. Não sei se o que fiz vai resolver, mas Deus tem me dado força e creio que Ele não vai deixar acontecer de novo”. Após o último alagamento, Lourdes passou uma semana lavando roupas e tentando tirar o mau cheiro de esgoto da casa.
Na mesma rua, a Mestre Inácio, moram Ivanilda Aparecida da Silva, o marido e um filho. No temporal de outubro, a casa onde moram foi invadida por água, lama, além das baratas que saíram das bocas-de-lobo. Solidários, vizinhos e parentes se mobilizaram para ajudar. Chegavam com rodos e baldes para retirar a água. “Juntamos oito pessoas e limpamos tudo”, disse.
Hoje, a cada chuva forte, ela teme que o imóvel seja novamente alagado. “A gente nunca sabe se a casa vai encher de novo. Dá muito medo”.
<b>Veja quadro abaixo</b>
<p style="text-align: center;"><a target="_blank" href="http://gcncomunica.files.wordpress.com/2010/01/mapa-das-enchentes-1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3264" title="arte/comerciodafranca" src="http://gcncomunica.files.wordpress.com/2010/01/mapa-das-enchentes-1.jpg" alt="" width="300" height="446" /></a></p>
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