Uma semana depois do terremoto no Haiti ainda nos surpreendemos e ficamos chocados com as imagens da destruição e do desamparo de milhares – senão milhões – de haitianos em face do horror de um desastre natural inevitável. Disse o narrador de um programa televisivo que `a fúria cósmica de nossa mãe natureza sabe como nos colocar em nosso devido lugar`.
Não há como não se comover em face de tanto sofrimento. Pequenos sobreviventes e órfãos que sequer saberão onde a mãe foi sepultada porque não há como providenciar sepulturas individualizadas. O pouco que aquele povo sofrido possuía já não existe mais. Apenas a dor, a lembrança de momentos que por certo povoarão o imaginário não só deles, mas de quase todas as pessoas deste mundo. Indiscutível a necessidade de mobilização para o envio de ajuda humanitária.
Lá e cá, pois o brasileiro também vive suas tragédias diárias. No final do ano uma cidade inteira – São Luiz do Paraitinga – foi completamente destruída pelas águas. Tudo se perdeu, inclusive os documentos arquivados em Cartórios, além de todo o patrimônio histórico e paisagístico. Alguém viu ou ouviu o Presidente do Brasil em rede nacional dizendo que enviaria alguns bilhões de dólares para reconstruir essa cidade e amenizar o sofrimento daquela população? Aqui o povo que sobrevive às tragédias recebem pequenas `esmolas`, tais como uma pequena quantia equivalente a um aluguel, cujo valor irrisório aumenta ainda mais o desespero das vítimas.
Angra dos Reis, Cunha e outras númeras cidades brasileiras foram e são afetadas tanto pela falta de infraestrutura como pela falta de educação ambiental que faz com que todo tipo de resíduo seja despejado em galerias pluviais, entupindo-as e provocando inundações, sem contar, é claro, com a negligência do Poder Público que autoriza a construção de casas em locais impróprios o que transforma esses eventos em tragédia anunciada.
Por aqui, além da violência e mortes no trânsito, nas periferias e nas favelas, têm ocorrido frequentes `tremores` e temores. Esses `abalos` racham as estruturas, já por si mesmas frágeis e débeis.
Não nos enganemos. O terremoto do Haiti foi `providencial` para desviar a atenção da população e das mídias dos desastres que estão ocorrendo no Brasil, como o Plano Nacional de Direitos Humanos, ou de `direitos dos manos`. As emissoras a cabo, diga-se, alguns canais de certa forma isentos, os quais não veiculam nem ganham fortunas com a propaganda do governo, já denunciam a volta da censura no País.
Temos tragédias administrativas que provocam terremotos e tsunamis em nossa sociedade, tais como a falta de investimento em Educação, Saúde, Infraestrutura e uma dívida interna de quase um trilhão e meio de reais. Tudo isso sem contar com a nomeação de mais de 100 mil companheiros para cargos em comissão, em verdadeiro aparelhamento do Estado. Essa `brincadeira` provoca o aumento de 70% no Orçamento apenas em despesas destinadas aos salários dessa turma.
Mas tudo vai bem, obrigada. A mesma falta de identidade pela qual padecem nossos irmãos haitianos, padecemos nós, em meio a essa enorme onda de propaganda ao estilo Goebbels, que faz tudo o que é mentira se transformar em verdade por meio da repetição.
Nadir Ap. Cabral Bernardino
Advogada formada pela FDF, pós-graduada em Política e Estratégia e Direito Ambiental
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