Sentada em um banco na garagem de sua casa ainda inacabada, no Jardim Palmeiras, Eliana Eugênia da Silva Rodrigues, 36, tenta juntar forças para trabalhar e conseguir recursos para custear as despesas da casa onde mora com os dois filhos, uma garota de 13 e um rapaz de 18 anos. Todos os dias, ela acorda por volta das 7 horas para pegar no batente, costurando sapatos até o corpo não mais aguentar. Às vezes, por mais de 12 horas seguidas. A rotina de sapateira não foi sempre assim. Um acidente de trânsito, há três anos, lhe tirou as duas pernas e, junto, a vida confortável e ativa que Eliana levava. Hoje ela depende de uma cadeira de rodas, está separada do homem com quem foi casada por 18 anos e não encontra trabalho fixo. Para sobreviver, conta com a ajuda de sua mãe e de uma vizinha.
O trabalho informal de costura rende R$ 100 mensais. Eliana ainda recebe um benefício do INSS de R$ 465. O dinheiro não é suficiente para pagar a prestação do imóvel de R$ 180, água, luz e ainda alimentação para a sapateira e seus dois filhos. O resultado: uma dívida acumulada de mais de R$ 5 mil. “Estou desesperada. Já perdi tanto na vida e agora ainda tenho que lidar com isso. Não vejo saída. Preciso de ajuda”.
Sua vida foi transformada no dia 23 de maio de 2007. Ao ajudar o ex-marido a empurrar o carro da família que transitava pela Avenida Antônio Barbosa Filho, Eliana foi atropelada por uma Kombi e teve as pernas prensadas entre os dois veículos e precisou amputá-las. “Entrei em depressão. Não conseguia aceitar o que me aconteceu. Para mim, isso ainda é difícil. Passei a não me ver mais como mulher e acabei perdendo o homem que amava”.
<b>SOZINHA</b>
Depois da separação, a vida de Eliana foi só obstáculos. Além de passar a conviver com as limitações físicas, ela enfrenta a ausência do marido. Sem a figura paterna dentro de casa, ela diz que os filhos não a respeitam. A sapateira tem medo dos filhos sofrerem na vida por falta de orientação, limites e regras. “Eles acham que só porque eu não tenho pernas, perdi também a autoridade”. Tomada pelo desespero, Eliana, desde que sofreu o acidente, tentou, por duas vezes, pôr um fim à sua vida, tomando remédios. “Meus filhos se revoltam diante das nossas dificuldades. Meu ex-marido se mudou para Campinas e quase não temos contato. Ele, pelo que eu soube, tem até uma nova família. Agora eu sou mãe e pai dos meus meninos e não sei como suportar tanta responsabilidade”. Eliana diz não ter ressentimentos do ex-companheiro. “Não podia obrigar meu marido a viver com uma pessoa cheia de problemas como eu. Sofro pela minha família, mas não o culpo por nada que ocorreu”.
A casa financiada pela Prohab, há cinco anos, está com mais de dois anos de parcelas em atraso. Quatro talões de energia elétrica que somam R$ 403,41 estão vencidos. As contas de água não são pagas há dois meses. O filho de Eliana está desempregado e também não encontra trabalho fixo. Segundo a sapateira, seu ex-marido não a ajuda financeiramente. “Ele liga de um número restrito. Sei muito pouco dele”. O <b>Comércio</b> tentou encontrá-lo, mas seu nome não consta na lista telefônica de Campinas disponível na internet.
<b>AJUDA</b>
O único apoio que Eliana recebe vem de sua mãe, Aparecida Fogazza, 56, e de sua vizinha Ângela de Fátima Castro, 50 anos (companhia desde a época do acidente). “Dedico a minha vida para ela. Dói ver um filho nessa situação”, disse Aparecida com os olhos marejados. A vizinha Ângela mora no mesmo quarteirão que Eliana e estreitou as relações com ela e seus familiares logo após a tragédia. Foi contratada pelo ex-marido de Eliana para ajudar nos cuidados com ela na hora do banho, com a casa e os filhos. Depois da separação do casal, Eliana não pode mais continuar pagando a vizinha, mas ainda assim, Ângela continua ao lado dela diariamente. “É difícil ver uma mulher forte e sempre tão batalhadora pela metade. Ela se revolta com a sua situação e eu sempre procuro estar por perto e tentar amenizar essa dor”, disse Ângela.
<b>O ESPORTE</b>
Para ter mais tempo de costurar sapatos, Eliana abriu mão de praticar esportes, atividade que a ajudou a se sentir viva e capaz depois que perdeu as duas pernas. Como ela mesma diz, encontrou nos jogos de basquete de cadeirantes um meio de ter momentos felizes novamente. “Com o esporte, vi que não fiquei tão limitada quanto imaginava”.
Depois de um ano que começou a jogar, participou de competições de deficientes e foi campeã. Em sua última participação nos Jogos Regionais de Franca, em 2009, ela conquistou medalha de ouro na corrida de cadeira de rodas. No ano anterior, havia viajado para competir em São Caetano e foi vice-campeã na corrida de 400 metros entre cadeirantes. Ela deseja voltar a integrar o time francano de basquete de cadeirantes, fazer natação, participar de corridas de cadeirantes e arremessar dardos. “O esporte é um refúgio na minha vida. Ajudou a lutar contra a depressão”. Enquanto não retorna às atividades, relembra os momentos que a fizeram se sentir feliz olhando as medalhas conquistadas que estão guardadas na estante da sala de sua casa.
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A filha mais nova também procura meios de ajudar a mãe, mas para isso deixaria de conviver com Eliana. Pretende ir morar com o pai em Campinas (SP) para diminuir os gastos, arranjar trabalho como modelo e ajudar no sustento da família. “É muito difícil ter que decidir por isso. Eu não quero ficar sem meus filhos por causa da falta de minhas pernas. Bastam os limites físicos para o meu sofrimento”, disse Eliana, que perdoou o homem que quase lhe tirou a vida. “Não tenho ressentimentos do motorista. Foi algo do destino, que não tinha como ser evitado”.
Com a esperança de que dias melhores virão, Eliana deposita em sua fé suas perspectivas para uma vida melhor e de menos sofrimento. “Agradeço por poder viver o dia de hoje, porque o passado já passou e o futuro pertence somente a Deus”.
<b>SERVIÇOS</b>
Quem quiser ajudar a sapateira com alimentos ou o pagamento das contas deve ligar para (16) 9263-8253.
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