Bóris não cometeu gafe


| Tempo de leitura: 3 min
No Jornal da Band de 31 de dezembro p.p. foram mostrados dois garis dizendo sorridentes: ‘Feliz Ano Novo, muita paz, muita saúde, muito trabalho. Feliz 2010’. Em seguida, antes da entrada dos comerciais, o apresentador Bóris Casoy, rindo com deboche, sem saber que o som estava aberto, afirmou: ‘Que merda, dois lixeiros desejando felicidades... do alto das suas vassouras... Dois lixeiros... o mais baixo da escala de trabalho’. O vídeo caiu na internet e, claro, causou indignação geral. Por isso, na edição do dia seguinte, Bóris declarou solene: ‘Ontem, durante o intervalo do Jornal da Band, em um vazamento de áudio, eu disse uma frase infeliz, que ofendeu os garis. Por isso, quero pedir profundas desculpas aos garis e aos telespectadores’. Bóris errou feio; não foi simplesmente uma frase infeliz. O pedido de desculpas não valeu, é capenga diante do erro. A imprensa considerou o ocorrido uma gafe. Só posso pensar que foi para proteger um dos ícones do jornalismo. Dizer que foi gafe é reduzir o fato a uma coisa ínfima, insignificante. Gafe, rata, mancada é uma falta menor, sem gravidade, um pecadilho, uma indelicadeza. É um ato, no mais das vezes involuntário, irrefletido, imprudente, quando se é traído pelo inconsciente, pela memória, pelo impulso. Exemplo: o Luciano do Valle, narrando um jogo de futebol, disse Globo quando queria dizer Band. Gafe é errar ou não lembrar o nome da pessoa que nos cumprimenta (acontece muito comigo), é soltar um palavrão em hora e local impróprios, coisas assim. Basta um ‘foi mal’, um ‘falha minha’, no máximo um mea-culpa, e tudo entra nos eixos novamente. O Bóris não cometeu gafe. Foi muito além. Chegou ao cúmulo do escárnio, do desdém, do desrespeito. E isso num dia em que as pessoas tentam resgatar o espírito de comunhão, de aproximação, de votos recíprocos de um ano bom! O pedido de desculpas só veio porque a indecência vazou para o Brasil, para fora do ambiente em que ocorreu. Defendendo o Bóris, a colunista da rádio BandNews, Bárbara Gancia escreveu em seu blog: ‘O microfone estava aberto quando não deveria estar. O apresentador do Jornal da Band disse o que disse sobre os garis para a sua equipe, não para o público nem em público...’. Vem-me à mente a música Cala a boca, Bárbara, de Chico Buarque. Pouco importa se Bóris falou para a equipe ou para o Brasil. O problema não é o vazamento do que foi dito. O problema é o que foi dito. Mesmo que só ele, Bóris, tivesse ouvido, seria o caso de retratar-se. Vai dizer que nunca ocorreu a você, leitor, balançar a cabeça como que para tirar de dentro dela uma ideia boba, um mau pensamento? Isso acontece quando se fica com vergonha não dos outros, mas de si mesmo. Se a sandice não vazasse, o Bóris teria de pedir desculpas ao pessoal do estúdio. Não sei se Bóris está envergonhado. Deveria estar. Sentir vergonha ao errar é próprio de almas nobres. Mas é preciso revelar ao invés de esconder. É preciso não ter vergonha de ter vergonha. Só que é comum não ter vergonha de dizer a ofensa, mas ter vergonha de desdizer. O erro não é irreparável. Porém, se foi radical no fazer, é preciso também o ser para desfazer. Ele tem boa formação, começou a trabalhar cedo e no fundo deve reconhecer o valor de quem labuta honestamente, seja qual for o ofício ou a profissão. Bem, os lixeiros desejaram feliz 2010 a todos. Eu aceitei. Agradeço de coração e retribuo. Paulo Pereira da Costa Promotor de Justiça e autor do livro ‘Pensando na Vida’ – paulopereiracosta@uol.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários