País diferente, longe, muito longe de toda circunstância conhecida, `exótico` segundo um nativo, foi o local extraordinário onde virei o ano: Turquia.
O país está localizado no sudeste da Europa, sudoeste da Ásia, limita-se com Bulgária e Grécia; Mar Negro; Geórgia e Armênia; Irã; Iraque, Síria, Mar Mediterrâneo e Mar Egeu. O Bósforo e o Mar de Mármara são duas bênçãos molhadas da cidade. Importante localizar geograficamente o país. Só assim se consegue entender sua diversidade e superposição de culturas, comportamentos, línguas e tipos físicos. Importante lembrar, para entender a miscigenação cultural, que diversos países do ex-bloco comunista ficam muito próximos; também, o que faz de lá, em sons humanos, uma Babel.
São três as cidades mais importantes: a capital Ancara, Izmir e Istambul – detentora de recordes: das mais populosas do mundo; a única que fica em dois continentes: parte no europeu, parte no asiático, divididas pelo Estreito de Bósforo e ligadas por uma ponte, também das maiores do mundo. A língua oficial é turca, muito difícil para ocidentais. Grande parte da população curdo ou árabe, além do Inglês. A religião, maioria muçulmana.
Nesta época, inverno no hemisfério norte, o frio é de lascar. Chove bastante, as roupas encharcam e os sapatos parecem furados, mas ninguém se irrita: de repente o tempo abre, a água empoçada desaparece pelos trilhos das calçadas e escorre pelos buracos na junção dos degraus, feitos especialmente para essa finalidade e há muitos séculos. Torna-se a enxergar as mesquitas otomanas, os minaretes, o colorido das comidas oferecidas nas ruas. E a vida volta a sorrir...
Istambul, antiga Constantinopla, é palco de milhões de histórias reais e trilhões de outras, que nossa imaginação se encarrega de criar. Odaliscas, sultões, haréns e favoritas não são apenas substantivos, são referências... Quem fica com o cérebro parado ouvindo histórias e vendo os locais onde eles viveram? Quem consegue ficar insensível à beleza do povo? As mulheres, embora parcialmente escondidas nas burcas e lenços, têm olhos deslumbrantes; os homens são também bonitos, com os mesmos olhos expressivos. Bigodes – em decadência – insinuam masculinidade; usam ternos, são corteses e delicados (mesmo com outros homens) e pintam o cabelo, parece que ao menor sinal de indesejáveis cãs... Convictos da própria masculinidade, não têm o menor constrangimento em andar de braços dados com outro homem.
Toda e qualquer transação comercial é feita por homens – são raríssimas as atendentes mulheres – e, somos avisados, a ordem é pechinchar, hábito que não desenvolvemos. Simpáticos e cordiais, não têm preguiça de mostrar tudo que querem vender; no entanto quem compra, sai com a sensação de ter sido ludibriado em algum momento que não consegue precisar...
O trânsito é um caos. Só perde para o de Franca. Buzinam para virar, parar, andar, nos cruzamentos e até por nada, só por costume. Vai daí o som de Istambul é um misto de línguas diferentes, músicas singulares, sininhos, buzinas, freadas e gritos de alguém vendendo alguma coisa.. O cheiro é um misto de especiarias, frutas, sabão cheiroso, essências adocicadas, azeitona e peixe. Singularidades que marcam para sempre nossa memória. Cinco vezes por dia, dos minaretes, sai o som de um muezim chamando para as orações. Há algum tempo cantavam à capela, no gogó; agora a tecnologia ajuda. Cantam ao vivo, mas usam amplificação: a tecnologia chegou no jardim de Alá.
PROGRAMAÇÃO
Cumprir a agenda turística não é bolinho: Mesquita Azul, Hayasofya, Ponte Gálata, o palácio Topkapi com vários museus internos e o diamante de mesmo nome e história curiosíssima, a cisterna de Yerebatan, só pra começar. Parar para ver os mosaicos, os tapetes, visitar o Gran Bazar, o Mercado de Especiarias. Dois dias para visitar a Capadócia, no sul. E, obrigatoriamente, tomar não um, mas vários banhos turcos.
BANHO TURCO
Culto, cerimônia, ritual: tradição turca. Entrada e espaços separados para homens e mulheres (não duvido já foram comunitários) que vão ao encontro da sua sensibilidade e sensualidade. Ela se despe, se enrola numa toalha e é encaminhada a uma sala redonda e alta, onde há uma mesa bem no centro, octogonal, baixa, mas de dimensões gigantescas, de mármore quentinho. Deitam-na e uma mulher joga-lhe água e esfrega seu corpo, com uma bucha áspera. Água quase fria, na sequência. É envolvida em espuma abundante e novamente tem braços, pernas, costas, pescoço, cabeça, pés e mãos, esfregados. O cheiro do sabonete de azeite de oliva atinge o cérebro. Trazem água morna das fontes laterais numa cuia de prata, para lavá-la. Terminado o banho, delicadamente é empurrada para o centro da mesa de mármore. Fica ali, deitada, enrolada na toalha de algodão, deitada na espuma, esperando pela massagem com óleo aromático, em outra sala. Olha para cima, vê buracos de onde penetra uma repousante luz azulada. Por eles vão-se preocupações, listas de obrigações, memórias ruins, dores e tristezas.... Corpo e alma lavados. Literalmente.
HIGIENE
Meio complicado é o vaso sanitário. As privadas turcas ainda não foram totalmente substituídas pelos modelos ocidentais. Haja equilíbrio! Hábitos de higiene após o uso, são estritamente observados. Por idênticas razões, nunca cumprimente indianos e turcos com a mão esquerda! Como vão rezar (descalços) cinco vezes por dia, os homens lavam os pés todas as vezes que entram nas mesquitas, nos seculares lavatórios públicos de mármore, perto delas. Na água fria e com platéia. Se o Ano Novo não for bom, não será por falta de alegria e animação com a qual eu o comecei.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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